Índice de informalidade se refere ao conjunto do setor agropecuário, enquanto o estudo também examina vínculos formais, remuneração, desigualdades e acidentes nas cadeias de manga, uva e maçã no Vale do São Francisco e na Serra Gaúcha.
Um relatório da Oxfam Brasil, produzido com a Molina Consulting, relaciona o peso econômico das cadeias de manga, uva e maçã às condições enfrentadas por trabalhadores rurais. A análise reúne dados nacionais do setor agropecuário e informações específicas de polos produtores no Vale do São Francisco e na Serra Gaúcha.
A distinção entre esses recortes é central para interpretar os números. A taxa de 69,2% de informalidade corresponde ao setor agropecuário primário brasileiro, enquanto os indicadores sobre vínculos formais e remuneração das três frutas consideram municípios selecionados de Pernambuco, Bahia e Rio Grande do Sul.
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O Vale do São Francisco aparece no estudo pelas cadeias de manga e uva, enquanto a Serra Gaúcha entra na análise com uva e maçã.
Para os indicadores nacionais, o levantamento utiliza bases como a PNAD Contínua. Já o recorte territorial combina registros da Rais, do Caged e da Produção Agrícola Municipal com entrevistas feitas com trabalhadores e representantes de entidades, usadas como complemento qualitativo e não como estimativa estatística para todo o setor.
Informalidade e contratos de curta duração
Com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua do terceiro trimestre de 2025, o estudo calcula que cerca de 5,51 milhões dos 7,97 milhões de ocupados no setor agropecuário estavam em formas de trabalho classificadas como informais.
Entre aproximadamente 3,61 milhões de assalariados considerados na análise, 52% não contribuíam para a Previdência Social. Outros 4,6% recolhiam mesmo em condição informal, e o relatório relaciona a ausência de contribuição à menor proteção em períodos sem trabalho, doença ou aposentadoria.
Nas cadeias de manga, uva e maçã dos territórios pesquisados, a Relação Anual de Informações Sociais registrou 117.341 vínculos formais em 2024. Apenas 45.958 estavam ativos em 31 de dezembro, o equivalente a 39,2% do total contabilizado ao longo do ano.
A diferença de 71.383 vínculos foi usada pelos pesquisadores como estimativa dos contratos encerrados no período. O documento associa essa movimentação à sazonalidade das atividades agrícolas, nas quais a demanda por mão de obra acompanha calendários específicos de produção e colheita.
O comportamento também varia entre os dois polos. O Vale do São Francisco concentrou 78.575 vínculos analisados e terminou o ano com 38.732 ativos, enquanto a Serra Gaúcha registrou 38.766 vínculos no período e 7.226 ativos ao fim de dezembro.
O relatório considera que a curta duração de parte dessas relações de trabalho não representa apenas uma oscilação ocasional. Nos territórios estudados, ela integra a organização das cadeias produtivas, sobretudo nas atividades que exigem concentração maior de trabalhadores em fases específicas da safra.
Remuneração e desigualdades entre trabalhadores
A remuneração média de R$ 1.458,30 corresponde aos vínculos formais de 2024 examinados nas três cadeias e nos municípios selecionados. O recorte, portanto, não representa o salário médio de todos os trabalhadores da agropecuária brasileira nem apenas daqueles que atuam na informalidade.
As diferenças aumentam quando os dados nacionais do setor são observados por gênero e raça. Mulheres pretas tiveram rendimento médio de R$ 1.449, enquanto homens brancos receberam R$ 2.494, diferença de aproximadamente 42% destacada pelos pesquisadores.
A escolaridade aparece como outra característica relevante da população ocupada. Mais da metade dos trabalhadores considerados estava sem instrução formal ou não havia concluído o ensino fundamental, dado apresentado no relatório ao lado da informalidade e da descontinuidade dos vínculos.
Na área de saúde e segurança, foram identificadas 400 Comunicações de Acidente de Trabalho entre janeiro e outubro de 2025 nos territórios selecionados. Desse total, 248 estavam relacionadas ao Vale do São Francisco e 152 à Serra Gaúcha.
Esses registros representam apenas acidentes formalmente comunicados. As entrevistas realizadas durante a pesquisa apontaram subnotificação de ocorrências, intoxicações por agrotóxicos e outros problemas de saúde relacionados à atividade rural, mas o relatório ressalva que esses relatos qualitativos não permitem medir a dimensão do problema em todo o setor.
Produção de manga, uva e maçã chega a R$ 15 bilhões
Os dados econômicos reunidos pelo estudo mostram que manga, uva e maçã alcançaram aproximadamente 4,66 milhões de toneladas em 2024. O valor da produção chegou a R$ 3,63 bilhões para a manga, R$ 8,34 bilhões para a uva e R$ 3,16 bilhões para a maçã.
A soma fica próxima de R$ 15 bilhões, valor usado pela Oxfam para colocar lado a lado o desempenho econômico dessas cadeias e os indicadores de informalidade, remuneração e instabilidade dos vínculos apresentados no relatório.
Ao repercutir o estudo, a Agência Brasil informou que procurou a Associação Brasileira dos Produtores e Exportadores de Frutas e Derivados, a Abrafrutas, e aguardava posicionamento. A reportagem também registrou que a Oxfam defende maior fiscalização, fortalecimento da organização sindical e ampliação da proteção social para reduzir a vulnerabilidade identificada nessas cadeias.
