O VS-30 V16 voou por 12 minutos e 30 segundos na Operação Potiguar Fase 2. A plataforma com quatro experimentos desceu de paraquedas no Atlântico e foi resgatada por militares da Força Aérea.
O foguete de sondagem VS-30 V16 decolou em 15 de setembro de 2026 do Centro de Lançamento da Barreira do Inferno, em Parnamirim, no Rio Grande do Norte. A bordo seguia a Plataforma Suborbital de Microgravidade, feita para abrigar experimentos científicos durante o voo, segundo o Brasil 247.
O voo alcançou 92 quilômetros de altitude e durou cerca de 12 minutos e 30 segundos, de acordo com nota da Força Aérea Brasileira. Depois da descida de paraquedas, a carga foi recuperada no mar, o objetivo central da missão.
Foguete de sondagem não coloca nada em órbita
Diferente de um lançador de satélites, um foguete de sondagem sobe, atravessa a parte alta da atmosfera e volta. A carga não fica dando voltas na Terra: sobe, passa alguns minutos em queda livre e cai.
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É esse trecho de queda livre que interessa aos pesquisadores. Nele, os equipamentos e as amostras ficam em microgravidade, condição em que o peso praticamente deixa de agir sobre os materiais.
Plataforma foi desenvolvida pela Orbital Engenharia
video: G1
A carga útil da missão é a PSM-R, sigla de Plataforma Suborbital de Microgravidade Reduzida, desenvolvida pela empresa brasileira Orbital Engenharia. Ela funciona como um pequeno laboratório fechado.
O conjunto pesa 401 quilos, segundo dados da operação divulgados antes do lançamento. A plataforma leva os experimentos, mantém as condições internas durante o voo e é a parte que volta para casa.
Quatro experimentos foram ao limite da atmosfera
A FAB informou que as quatro cargas embarcadas nasceram de parcerias entre a Agência Espacial Brasileira (AEB) e parceiros do setor privado, misturando pesquisa científica e teste de tecnologia.
Entre elas estavam um estudo sobre os efeitos da microgravidade em microrganismos, o teste de um sistema de segurança para lançamentos, uma bateria de lítio de alta densidade e um transmissor para localizar a carga depois da queda. As duas últimas foram desenvolvidas pelo Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE).
Pesquisa abrange biologia, física e novos materiais
As linhas de pesquisa previstas para a plataforma envolvem materiais biológicos, processos físicos e novos materiais. São áreas em que o comportamento da matéria muda quando o peso deixa de interferir.
Sem gravidade atuando, líquidos não se separam por densidade, cristais crescem de outro jeito e células reagem de forma diferente. A expectativa divulgada antes do voo era de seis a oito minutos nessa condição.
Veículo tem 9 metros e 1,6 tonelada
O VS-30 é um foguete de estágio único com cerca de 9 metros de comprimento e massa total em torno de 1,6 tonelada. Ele é usado pelo programa espacial brasileiro há décadas em voos de pesquisa.
A campanha previa apogeu de aproximadamente 100 quilômetros e alcance de cerca de 90 quilômetros em distância percorrida sobre o mar. O voo real chegou a 92 quilômetros.
Sistema “ioiô” freia o giro antes da separação
Foguetes desse tipo giram em torno do próprio eixo durante a subida, o que dá estabilidade ao voo. Só que a plataforma precisa se soltar com o mínimo de rotação possível, ou os experimentos ficam prejudicados.
A solução é um mecanismo apelidado de sistema ioiô: pouco antes da separação, o foguete ejeta pequenos pesos presos a cabos. Ao se afastarem do eixo, esses pesos alteram o momento de inércia do conjunto e desaceleram o giro, como um patinador que abre os braços para girar mais devagar.
Além da plataforma, o foguete levou módulos de apoio
O VS-30 V16 transportou ainda módulos experimentais, equipamentos de controle de voo e um sistema de fornecimento de gás frio, usado para pequenas correções de atitude, ou seja, da posição do veículo no espaço.
Esses subsistemas não fazem ciência por si mesmos. Eles garantem que a plataforma chegue ao ponto certo, na posição certa e com o giro reduzido.
Descida terminou de paraquedas no Atlântico
Concluída a fase de microgravidade, a plataforma se separou do foguete e iniciou a reentrada na atmosfera. O sistema de paraquedas foi acionado para frear a queda até a água.
Depois de pousar no mar, o equipamento passou a emitir sinais de localização, função do transmissor desenvolvido pelo IAE e testado nessa mesma missão.
Esquadrão Falcão e PARA-SAR fizeram o resgate
A recuperação foi coordenada pelo 1º Esquadrão do 8º Grupo de Aviação, o Esquadrão Falcão, sediado na Base Aérea de Natal, com apoio do Esquadrão Aeroterrestre de Salvamento, o PARA-SAR, de Campo Grande (MS).
Segundo a FAB, a aeronave do Esquadrão Falcão se posicionou sobre o ponto de descida da plataforma, e militares do PARA-SAR foram lançados ao mar para executar o resgate. Antes do voo, a preparação previa o uso do helicóptero H-36 Caracal nessa etapa.
Trazer a carga de volta era o objetivo da missão
O ponto central da Operação Potiguar Fase 2 não era bater recorde de altitude, e sim qualificar em voo o sistema nacional de recuperação da plataforma. Qualificar, aqui, significa provar que o conjunto funciona em condições reais.
Sem recuperação, um experimento suborbital só entrega os dados transmitidos por rádio. Com recuperação, as amostras físicas voltam ao laboratório e podem ser analisadas, o que amplia o tipo de pesquisa possível.
Capacidade reduz dependência de estruturas estrangeiras
Até aqui, experimentos brasileiros que exigiam retorno de amostras dependiam de voos e serviços contratados no exterior. Com o sistema próprio testado, o país passa a ter o ciclo completo em casa: lançamento, voo, descida e resgate.
Esse ciclo fechado é o que abre caminho para missões futuras de microgravidade, inclusive com clientes pagantes, já que uma plataforma recuperável pode ser reaproveitada em novas campanhas.
Operação envolveu seis instituições
A missão reuniu a Força Aérea Brasileira, o Centro de Lançamento da Barreira do Inferno, o Instituto de Aeronáutica e Espaço, o Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA), a Agência Espacial Brasileira e o Departamento de Controle do Espaço Aéreo (DECEA), além do apoio da Marinha do Brasil.
O DECEA cuidou do fechamento do espaço aéreo e a Marinha, da área marítima. A janela de lançamento da Operação Potiguar Fase 2 ia de 31 de agosto a 19 de setembro de 2026, e o voo aconteceu no dia 15.
Próximo passo é usar a plataforma em novas campanhas
Com o sistema de recuperação qualificado, a PSM-R fica disponível para novas missões de pesquisa em microgravidade a partir da Barreira do Inferno. As cargas recuperadas no Atlântico seguiram para análise pelas equipes responsáveis por cada experimento.
Na avaliação divulgada pela FAB, o voo representa uma etapa decisiva do programa espacial brasileiro. Datas e objetivos das próximas missões ainda não foram divulgados.
