As florestas brasileiras podem crescer 8 milhões de hectares até 2035, segundo estudo citado pela Exame, mas a virada depende do agronegócio, da água, da restauração e do combate ao desmatamento ilegal para transformar conservação em ativo econômico antes de crises afetarem lavouras, energia e renda no campo brasileiro inteiro.
As florestas podem voltar a crescer no Brasil em uma escala comparada a duas vezes o território da Suíça até 2035, segundo análise de uma coalizão de instituições ligada a pesquisa, filantropia e setor produtivo. A projeção aponta ganho de 8 milhões de hectares, com o agronegócio no centro da virada, já que grande parte das áreas protegidas está dentro de propriedades rurais privadas.
As informações são da Exame, em publicação de 5 de julho de 2026, às 12h10, assinada por Lia Rizzo. A reportagem trata do estudo “O Protagonismo das Florestas Brasileiras na Agenda Climática Global”, que projeta a expansão da cobertura florestal brasileira e defende que conservação, água, agricultura e energia passem a ser vistas como uma mesma agenda econômica.
Agro aparece como peça central da virada florestal

Durante muito tempo, o debate sobre florestas no Brasil foi tratado como uma disputa entre conservar e produzir. O estudo citado pela Exame apresenta uma leitura diferente: parte relevante da conservação nacional já está dentro de imóveis rurais, por meio de Reservas Legais e Áreas de Preservação Permanente previstas no Código Florestal.
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De acordo com a análise, cerca de 42% das áreas protegidas do país estão em propriedades rurais privadas. Isso coloca o agronegócio em uma posição decisiva: ele não é apenas usuário da terra, mas também detentor de um enorme capital natural que ainda busca reconhecimento econômico.
Estudo projeta 8 milhões de hectares adicionais até 2035
A projeção mais chamativa é a possibilidade de o Brasil sair de 517 milhões de hectares de florestas para 525 milhões até 2035. O acréscimo de 8 milhões de hectares equivale, segundo a reportagem, a duas vezes o território da Suíça.
Essa expansão não viria de uma única frente. O estudo considera restauração, regeneração, florestas plantadas, integração entre produção e conservação e recuperação de áreas degradadas. A mudança central é transformar áreas hoje vistas como obrigação ambiental em ativos capazes de gerar valor para produtores, empresas e comunidades.
Água passa a pesar mais que carbono no debate
Nos últimos anos, boa parte da conversa global sobre florestas ficou concentrada em carbono e créditos negociáveis. Agora, com secas, incêndios e crises hídricas afetando produção agrícola, energia e infraestrutura, o estudo desloca parte do foco para a água.
A ideia é tratar as florestas como uma infraestrutura natural. Elas ajudam a regular chuvas, proteger o solo, manter nascentes e reduzir riscos para cadeias produtivas. Quando falta água, o impacto deixa de ser apenas ambiental e passa a atingir lavouras, hidrelétricas, transporte, seguros e contas públicas.
Rios voadores entram na conta econômica do agro
Um dos dados mais fortes citados pela reportagem envolve os chamados rios voadores da Amazônia Legal. Conforme pesquisa divulgada em 2026 na Communications Earth & Environment, citada no estudo, essas correntes de umidade geram precipitações avaliadas em cerca de US$ 20 bilhões anuais para a agricultura.
Esse ponto muda a forma de enxergar as florestas. Em vez de aparecerem apenas como áreas protegidas distantes da produção, elas passam a ser tratadas como parte do sistema que sustenta a produtividade agrícola. Sem estabilidade hídrica, o custo de produzir pode subir, especialmente em regiões que hoje dependem mais da chuva do que da irrigação.
Hidrelétricas também dependem da cobertura vegetal
O estudo também aproxima a agenda florestal da energia. Beto Veríssimo, cofundador do Imazon e enviado especial da COP30, afirma na reportagem que quase 75% da matriz hidrelétrica brasileira está ligada à floresta, incluindo usinas da Amazônia e da bacia do Paraná.
A lógica é simples: chuvas, evaporação e cobertura vegetal se conectam. Quando as florestas perdem capacidade de regular o ciclo da água, a geração hidrelétrica também pode sentir o impacto. Por isso, a conservação deixa de ser uma pauta isolada e passa a conversar diretamente com segurança energética.
Florestas plantadas avançam com celulose e etanol de milho
Parte da expansão projetada pode vir de cadeias produtivas já estruturadas. A celulose é o exemplo mais maduro, com fazendas que combinam plantio comercial e áreas de conservação em mosaicos produtivos. Segundo a reportagem, essa expansão costuma ocorrer sobre pastagens degradadas, não sobre vegetação nativa.
Outra fronteira vem dos biocombustíveis. O etanol de milho, que respondeu por 22% da produção nacional de etanol na safra 2024/2025, depende de biomassa florestal, principalmente eucalipto, para a secagem do grão. Nesse cenário, o agro deixa de ser apenas produtor de alimento e energia, e passa também a investir em florestas plantadas.
Restauração tenta virar tese de investimento
Além das cadeias de celulose e biocombustíveis, a restauração aparece como uma terceira frente. A reportagem cita levantamento preliminar da Agroicone com o movimento Floraz, que identificou 2,6 milhões de hectares aptos em cerca de 8 mil propriedades, em cenário conservador.
Essas áreas geralmente são degradadas ou têm baixa aptidão agrícola. Por isso, podem virar alvo de parcerias e investimentos em sistemas agroflorestais, carbono, alimentos, biomateriais e bioenergia. O desafio é provar, medir e valorar o ganho gerado pelas florestas antes de transformar essa agenda em mercado robusto.
O gargalo está em medir antes de vender
Apesar do potencial, o capital privado ainda não flui na velocidade necessária. O estudo aponta a necessidade de instrumentos financeiros, garantias e modelos capazes de reduzir risco. Mas há um problema anterior: caracterizar e mensurar com clareza os serviços ecossistêmicos.
Carbono já tem métricas mais conhecidas. Água é mais tangível, mas ainda precisa de modelos consistentes. Biodiversidade é mais complexa. Sem medir bem esses ativos, fica difícil transformar conservação em renda de forma crível, transparente e aceita por compradores, produtores e investidores.
Desmatamento ilegal continua sendo ponto de partida
Mesmo com a proposta de transformar florestas em ativo econômico, a reportagem deixa claro que o básico continua incontornável: combater o desmatamento ilegal. Waack e Veríssimo defendem tolerância zero e apontam a implementação do Código Florestal como etapa essencial.
Também entram nessa conta a validação do Cadastro Ambiental Rural, restrição de crédito a quem desmata, pagamento por serviços ambientais e incentivos a municípios com menor desmatamento. A virada depende de tirar a conservação da lógica de custo e colocá-la na lógica de valor para quem mantém a floresta em pé.
Brasil pode entrar em uma curva de recuperação
A reportagem cita a ideia de transição florestal, usada para explicar países que derrubaram sua cobertura vegetal em fases de crescimento e depois passaram a recuperá-la. O argumento é que o Brasil pode ter passado pelo ponto mais baixo dessa curva e agora teria condições de crescer em cobertura.
A diferença brasileira está no custo da transição. Enquanto países desenvolvidos precisam trocar bases energéticas caras para reduzir emissões, o Brasil tem no desmatamento uma das grandes fontes do problema. Reduzir essa perda pode gerar ganho climático sem sacrificar a economia produtiva.
O que a disputa pelas florestas revela sobre o futuro do país
A projeção de 8 milhões de hectares adicionais até 2035 mostra que o Brasil tem uma oportunidade rara: ampliar florestas, proteger água, sustentar lavouras, reduzir riscos energéticos e criar novas formas de renda no campo. Mas essa virada depende de governança, métricas confiáveis, combate ao desmatamento ilegal e participação real do agronegócio.
A pergunta que fica é direta: o produtor rural deve ser visto apenas como responsável por preservar áreas obrigatórias ou também como peça central para transformar conservação em valor econômico? Você acha que o Brasil consegue fazer essa virada antes que a água vire um gargalo para lavouras e energia? Deixe sua opinião nos comentários.
