Projeto em Sfax transforma o Mediterrâneo em fonte direta de abastecimento, com tubulações submarinas gigantes, tecnologia de osmose reversa e estrutura preparada para ampliar a produção de água potável em uma região pressionada pela escassez hídrica.
A cidade de Sfax, na Tunísia, passou a contar com uma usina de dessalinização preparada para converter água do mar Mediterrâneo em água potável em escala industrial, com capacidade inicial de 100 milhões de litros por dia e estrutura dimensionada para dobrar esse volume.
Com duas tubulações submarinas de grande porte, cada uma com 4,2 quilômetros de extensão, o sistema leva água salgada da área de captação em alto-mar até a unidade terrestre de tratamento, conforme dados técnicos divulgados pela Tedagua, ligada ao consórcio executor.
Planejada para reforçar o abastecimento de uma das principais regiões urbanas do país, a obra amplia o papel da dessalinização em uma área pressionada pela escassez hídrica e reduz a dependência exclusiva de mananciais continentais.
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Em Sfax, esse tipo de infraestrutura entra como fonte complementar para dar mais estabilidade ao fornecimento, especialmente em períodos de menor disponibilidade de água doce e maior demanda sobre redes convencionais de captação e distribuição.
Captação de água no Mediterrâneo
Embora a parte terrestre concentre filtros, membranas, sistemas químicos, reservatórios e bombas, a operação começa antes da chegada à usina, no fundo do mar, onde as linhas submarinas captam a água bruta que será enviada ao tratamento.

Os dutos foram fabricados em PEAD DN1800, sigla associada ao polietileno de alta densidade usado em tubulações de grande diâmetro, capazes de transportar volumes elevados de água salgada de forma contínua até a câmara de captação.
Na chegada à estrutura de recepção, a água passa por triagem mecânica inicial antes do bombeamento, etapa que retém materiais maiores e ajuda a proteger equipamentos sensíveis contra obstruções durante o pré-tratamento e a operação das membranas.
Essa infraestrutura marítima garante a ligação permanente entre o Mediterrâneo e a planta em terra, criando o fluxo necessário para manter a produção diária prevista e sustentar o abastecimento planejado para a região de Sfax.
Osmose reversa na usina de Sfax
Após a captação, a água percorre uma sequência de processos físicos e químicos antes de alcançar o padrão de consumo humano, começando por uma filtração em duas fases, com areia e antracito, além de filtros de cartucho.
Essa etapa prepara a água para a fase principal de remoção de sais, pois reduz impurezas e protege as membranas, componentes que precisam operar com estabilidade para manter a eficiência do sistema de dessalinização.
A dessalinização ocorre por osmose reversa, tecnologia que separa a água dos sais dissolvidos por meio de membranas submetidas a pressão elevada, processo adotado em grandes plantas de tratamento de água do mar.
Na unidade de Sfax, segundo a Tedagua, o sistema reúne quatro bastidores de osmose reversa, equipamentos de recuperação de energia e uma unidade CIP, utilizada para a limpeza das membranas durante a rotina operacional da planta.
Como a osmose reversa depende de alta pressão, o consumo energético se torna um dos pontos centrais do projeto, o que explica a presença de sistemas destinados a reaproveitar parte da energia envolvida no processo.

Depois da retirada dos sais, a água passa por pós-tratamento para ajuste de suas características antes da distribuição, com remineralização por dióxido de carbono e leitos de calcita, além de tratamento químico com hipoclorito e soda cáustica.
Reservatório e distribuição de água potável
A água tratada segue para um reservatório com capacidade de 25.000 metros cúbicos, equivalente a 25 milhões de litros, que funciona como elo entre a produção contínua da usina e a entrega regular ao sistema público.
Desse ponto em diante, bombas conduzem o volume armazenado para a rede de distribuição, permitindo compatibilizar a operação permanente da planta com variações de consumo doméstico, comercial e urbano ao longo do dia.
A capacidade inicial de 100.000 metros cúbicos por dia corresponde a 100 milhões de litros diários, enquanto as obras civis e marítimas foram preparadas para uma ampliação capaz de elevar a produção ao dobro.
Caso a segunda etapa seja executada, a unidade poderá alcançar 200.000 metros cúbicos por dia, reforçando o papel da dessalinização como fonte estratégica de abastecimento para Sfax e para a população atendida pelo sistema.
De acordo com a Tedagua, a infraestrutura foi concebida para garantir água potável a mais de 600 mil habitantes, número que ajuda a dimensionar a relevância da planta em uma região de forte demanda urbana.
Descarte da salmoura no mar
Além de captar água do Mediterrâneo, o projeto possui um sistema específico para descarte da salmoura, resíduo concentrado gerado quando os sais e componentes dissolvidos são separados da água durante a osmose reversa.
Esse rejeito percorre um emissário submarino de 3,2 quilômetros, também construído em PEAD DN1800, responsável por conduzir a salmoura de volta ao ambiente marinho conforme o desenho técnico previsto para a operação.
A gestão da salmoura é parte essencial de uma planta de dessalinização, porque o processo não elimina os sais retirados da água, mas os concentra em um fluxo que precisa ser destinado de maneira controlada.
Com captação, tratamento e descarga organizados em estruturas complementares, a obra ultrapassa a instalação de equipamentos em terra e depende de uma engenharia distribuída entre ambiente marinho, área industrial e rede urbana.
Consórcio internacional e infraestrutura energética
Licitada pela SONEDE, companhia nacional responsável pelo abastecimento de água na Tunísia, a usina foi executada por um consórcio formado pela Cobra Instalaciones y Servicios, matriz da Tedagua, em parceria com Orascom Construction e Metito Overseas.
Para sustentar bombas, filtros, sistemas de osmose reversa e tratamento químico, o empreendimento inclui uma subestação elétrica com duas linhas, componente necessário para manter a produção diária com fornecimento estável de energia.
A localização em Sfax reforça a importância do projeto para uma área de forte peso urbano e econômico, onde soluções de segurança hídrica precisam reduzir a exposição a períodos de estiagem e limitações de fontes tradicionais.
Na prática, a escala da instalação aparece tanto no volume produzido quanto na extensão da infraestrutura submersa, que leva água do Mediterrâneo até a usina antes de devolvê-la tratada ao sistema de abastecimento.
Em cidades costeiras sujeitas a estresse hídrico, a dessalinização tem ganhado espaço como alternativa para diversificar o fornecimento, transformando o mar em parte ativa da rede pública, e não apenas em limite geográfico.
Com duas tubulações submarinas de 4,2 quilômetros, emissário de 3,2 quilômetros, reservatório de 25.000 metros cúbicos e capacidade projetada para alcançar 200 milhões de litros por dia, a planta coloca a engenharia costeira no centro da resposta tunisiana à escassez de água.


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