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Falta de mecânicos: escassez de mão de obra chega na Ford e obriga concessionárias a pagar até R$ 860 mil por ano para técnicos que trocam câmbios em tempo recorde nos EUA

Escrito por Alisson Ficher
Publicado em 12/01/2026 às 18:25
Escassez de mecânicos nos EUA faz concessionárias da Ford pagar salários milionários a técnicos capazes de trocar câmbios em tempo recorde.
Escassez de mecânicos nos EUA faz concessionárias da Ford pagar salários milionários a técnicos capazes de trocar câmbios em tempo recorde.
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Escassez de técnicos qualificados pressiona oficinas da Ford nos Estados Unidos, eleva salários de especialistas em transmissões e expõe um sistema caro de formação, forte exigência física e diferenças crescentes entre profissionais no topo da carreira e o restante da categoria.

A falta de mecânicos qualificados nas oficinas autorizadas da Ford nos Estados Unidos já pressiona concessionárias a oferecer salários que podem chegar a cerca de US$ 160 mil por ano, o equivalente a aproximadamente R$ 860 mil, para segurar profissionais capazes de fazer reparos complexos em ritmo acima do padrão.

Um dos exemplos citados em reportagem do The Wall Street Journal é o de Ted Hummel, técnico especializado em transmissões que virou referência por executar trocas de câmbio em tempo recorde, em uma rotina marcada por custos altos de formação, exigência física e um sistema de pagamento que recompensa velocidade — mas penaliza quem não consegue acompanhar.

Troca de câmbio pesado vira diferencial raro nas oficinas

Pouco depois das 7h, quando muita gente ainda está no café da manhã, Hummel já costuma estar debruçado sobre uma caminhonete Ford F-150 2019.

A tarefa do dia, para ele, pode começar com o tipo de serviço que afasta parte dos colegas: retirar e substituir a transmissão completa do veículo, um conjunto que pesa perto de 140 kg e exige força, técnica e atenção para não comprometer componentes caros.

A cena se repete em uma concessionária em Kent, no estado de Ohio, onde Hummel trabalha.

Aos 39 anos e pai de dois filhos, ele alcançou o título de “Senior Master”, uma classificação reservada a técnicos com alta qualificação dentro da rede, segundo descreve a reportagem.

Em vez de evitar o serviço, ele o trata como um teste pessoal. A lógica é simples: quanto mais rápido e preciso, maior o retorno financeiro.

Hummel ficou conhecido por dominar o processo “de cor e salteado”, reduzindo de forma significativa o tempo oficial estimado para concluir a troca, o que, no sistema adotado por muitas oficinas, pode aumentar a remuneração ao final do mês.

Modelo de pagamento por tarefa amplia desigualdade entre técnicos

A reportagem aponta que a remuneração nas oficinas de concessionárias frequentemente segue o modelo chamado de “flat rate”, em que o profissional recebe pelo tempo-padrão previsto para um serviço, e não necessariamente pelas horas reais trabalhadas.

Na prática, quem faz uma tarefa mais rápido pode “ganhar horas” no papel e elevar o rendimento.

Por outro lado, técnicos menos experientes sentem a pressão. Se o fluxo de serviços cai ou se o trabalho disponível é difícil, há casos em que a renda encolhe.

Esse mecanismo ajuda a explicar por que profissionais muito especializados se tornam disputados.

Em 2025, Hummel teria faturado cerca de US$ 160 mil no ano, de acordo com o The Wall Street Journal.

A diferença entre os que chegam ao topo e os que ficam pelo caminho é parte do paradoxo descrito no setor.

O serviço fica mais caro para o consumidor, mas o ganho médio do trabalhador não sobe na mesma proporção.

Segundo a reportagem, os custos de manutenção aumentaram 59% na última década, enquanto os salários médios dos técnicos cresceram 34% no mesmo período.

Ford admite milhares de vagas abertas nas concessionárias

A escassez de mão de obra, que já se arrasta há anos no mercado automotivo americano, voltou ao centro do debate depois de declarações do CEO da Ford, Jim Farley, em um podcast.

“Temos 5 mil vagas abertas em nossas concessionárias nos EUA”, disse ele, ao comentar a dificuldade de preencher postos voltados a manutenção e reparo.

Farley também apontou que essas funções podem chegar a US$ 120 mil por ano, cerca de R$ 645 mil na conversão aproximada, mas exigem um caminho longo de capacitação.

Segundo o executivo, são necessários pelo menos cinco anos de formação e prática até o nível mais valorizado.

O efeito aparece no dia a dia das oficinas.

Mesmo com a frota envelhecendo e carros cada vez mais sofisticados, a reposição de técnicos não acompanha a demanda, principalmente quando o aprendizado envolve eletrônica embarcada, ferramentas específicas e reparos pesados como transmissão.

Formação cara e ferramentas próprias afastam novos profissionais

O percurso até o topo não depende só de tempo. Hummel, segundo o relato, precisou investir na própria qualificação e em equipamentos.

A formação técnica teria custado cerca de R$ 161 mil na conversão informada no texto original.

Além disso, o kit de ferramentas, por ser de propriedade do próprio técnico, costuma ser pago em financiamentos semanais.

Há itens que não são opcionais. Chaves e ferramentas especiais exigidas para determinados procedimentos podem custar caro.

A reportagem cita peças que chegam a R$ 4.300 cada, na conversão usada no texto original.

Em um mercado onde o iniciante ainda tenta se estabilizar, essa conta inicial funciona como barreira para quem não tem capital ou apoio.

Além disso, Hummel complementa a renda treinando aprendizes. Essa atividade representa cerca de um terço da renda total, segundo a reportagem.

A formação de novos profissionais, portanto, também vira uma espécie de trabalho adicional para quem já lida com serviços complexos.

Lesões e desgaste físico encurtam carreiras nas oficinas

Mesmo para quem ganha acima da média, o trabalho traz um custo que não aparece no holerite.

Trocar transmissões e lidar com peças pesadas repetidamente coloca pressão em coluna, ombros e articulações.

O próprio Hummel evita movimentos que possam comprometer as costas, tentando preservar a saúde para manter o ritmo.

Na mesma equipe, o colega Jim Eisenberger é apresentado como contraponto. Após duas hérnias e uma cirurgia, ele não conseguiu retomar o desempenho e deixou a profissão.

O episódio reforça uma realidade conhecida em oficinas. Uma lesão pode significar semanas sem produzir e, em certos modelos de pagamento, sem renda.

Rotina intensa resume a crise nas oficinas da Ford

No dia descrito pela reportagem, antes do almoço, Hummel já tinha removido a transmissão antiga e começava a posicionar a nova, usando uma cinta de catraca para encaixar o conjunto.

Depois da montagem, saiu para testar a caminhonete na estrada, conferindo se as mudanças tinham resolvido o problema.

“Está tudo bem suave”, afirmou, satisfeito. No dia seguinte, às 7h em ponto, ele já estava pronto para encarar outra transmissão.

A rotina, repetida em escala menor ou maior em oficinas de todo o país, sintetiza a tensão que a Ford e outras montadoras enfrentam.

A tecnologia avança, o custo do reparo sobe, mas faltam profissionais dispostos e fisicamente aptos a sustentar o ritmo exigido para chegar ao topo.

Com um caminho tão caro, técnico e desgastante, o que será necessário para convencer a próxima geração a entrar e permanecer nas oficinas?

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Alisson Ficher

Jornalista formado desde 2017 e atuante na área desde 2015, com seis anos de experiência em revista impressa, passagens por canais de TV aberta e mais de 12 mil publicações online. Especialista em política, empregos, economia, cursos, entre outros temas e também editor do portal CPG. Registro profissional: 0087134/SP. Se você tiver alguma dúvida, quiser reportar um erro ou sugerir uma pauta sobre os temas tratados no site, entre em contato pelo e-mail: alisson.hficher@outlook.com. Não aceitamos currículos!

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