Testes inéditos com etanol de resíduos alimentares apontam resultados surpreendentes ao comparar eficiência e desempenho em relação ao combustível tradicional feito da cana-de-açúcar. Veja como a tecnologia pode transformar o setor automotivo brasileiro.
Um teste comparativo realizado pela equipe do Autoesporte e publicado nesta segunda-feira (04) avaliou o desempenho do etanol tradicional, produzido a partir da cana-de-açúcar, e do etanol sustentável, obtido de resíduos alimentares como balas, chocolates e outros produtos descartados pela indústria.
Desenvolvido pela empresa de gestão ambiental Ambipar, assim como já publicou o CPG, esse novo combustível utiliza insumos que seriam destinados ao descarte para a produção de etanol automotivo.
A Ambipar forneceu 30 litros do produto, denominado Ambiálcool, para a realização dos testes, que envolveram medições de desempenho, consumo e características técnicas em comparação ao etanol convencional vendido nos postos de combustíveis.
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Gabriel Estevam, diretor de pesquisa e inovação da Ambipar, forneceu informações sobre o processo de fabricação, enquanto o diretor de combustíveis da Associação Brasileira de Engenharia Automotiva (AEA), Rogério Gonçalves, analisou os resultados.

Produção do etanol sustentável
Segundo Gabriel Estevam, o Ambiálcool é produzido a partir de resíduos alimentares provenientes de lotes rejeitados por validade, problemas de matéria-prima ou fora do padrão exigido pela indústria.
Os resíduos passam por fermentação biológica e destilação, resultando em um etanol hidratado com até 95% de pureza.
Para cada 500 toneladas de resíduos, a média de produção é de aproximadamente 300 mil litros de etanol sustentável.
A empresa mantém parcerias com indústrias como a Mondelēz e com usinas responsáveis pelo processamento do material descartado.
Teste prático com etanol reciclado
O Autoesporte conduziu os testes com um Citroën Basalt 1.0 manual, motor flex de três cilindros, utilizando protocolos idênticos aos adotados em avaliações convencionais.
O veículo percorreu trajetos urbanos e rodoviários, e passou por medições instrumentadas de aceleração e retomada, seguindo normas do Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro).
Segundo o site, o teste foi dividido em duas etapas: primeiro com etanol de posto e, em seguida, com o Ambiálcool, garantindo a limpeza completa do tanque entre as fases para evitar contaminação.
O abastecimento seguiu o padrão do Inmetro para transporte de combustível.
Consumo e desempenho do etanol sustentável
No consumo urbano, o Citroën Basalt obteve 9,3 km/l com etanol sustentável e 10,1 km/l com o etanol tradicional, valores superiores ao registrado pelo Inmetro para o modelo (8,4 km/l).
Em ciclo rodoviário, o consumo foi de 11,9 km/l com o Ambiálcool e 12,5 km/l com o etanol de cana, ambos acima do padrão oficial de 9,6 km/l.
Quanto ao desempenho, os resultados mostraram diferenças pequenas.
A aceleração de 0 a 100 km/h foi registrada em 15,7 segundos com o etanol sustentável e 15,2 segundos com o etanol tradicional, diferença de 3,8%.
Nos testes de velocidade após 1.000 metros e nas retomadas, a variação foi inferior a 4% entre os combustíveis.

Durante a avaliação, o piloto Alexandre Silvestre declarou: “O carro ficou praticamente igual. Nem parecem combustíveis diferentes.”
Rogério Gonçalves, da AEA, analisou: “Os números comprovam que o etanol reciclado funciona tão bem quanto o de posto num carro comum. Há um empate técnico entre os combustíveis no consumo e no desempenho.”
Características e preço do etanol reciclado
Foi observada uma diferença no odor do etanol sustentável, semelhante ao álcool hospitalar, atribuída ao nível de pureza e à composição dos resíduos utilizados.
O etanol comercial vendido nos postos, derivado da cana, apresenta odor semelhante ao da cachaça.
Segundo a Ambipar, o custo de produção do etanol reciclado equivale ao valor médio praticado nos postos de combustíveis no Brasil, atualmente em R$ 4,27 por litro, de acordo com a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).
O combustível é utilizado de forma experimental na frota da própria empresa e não está disponível para o público geral.
Você acredita que em breve será comum abastecer com combustível feito de balas, chocolates e outros resíduos alimentares no Brasil?

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