Pesquisa publicada na revista PNAS comparou microrganismos de diferentes regiões do planeta e encontrou características de adaptação ao frio e à aridez polar.
Pesquisadores identificaram 42 linhagens de bactérias em solos da Antártida que não apareceram nas amostras analisadas de outras regiões do planeta. O resultado representa aproximadamente 91% das 46 linhagens identificadas de um grupo bacteriano específico e indica que o isolamento geográfico do continente pode ter favorecido a evolução de microrganismos com características próprias.
A descoberta foi apresentada em um estudo publicado na revista científica PNAS, em 31 de agosto de 2026, por uma equipe internacional liderada por Nicholas Dragone, da Universidade do Colorado Boulder, nos Estados Unidos. A pesquisa voltou a ganhar destaque em reportagem do Xataka Brasil, publicada em 5 de novembro.
Estudo encontra 42 linhagens bacterianas ausentes das amostras coletadas fora da Antártida

A pesquisa investigou bactérias do gênero Arthrobacter, encontradas normalmente em solos de diferentes partes do mundo. O grupo foi escolhido justamente por sua ampla distribuição geográfica, que permite comparar populações submetidas a condições ambientais muito diferentes.
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Os cientistas queriam verificar se bactérias capazes de se dispersar pelo planeta também poderiam desenvolver linhagens restritas a uma região isolada durante longos períodos.
O resultado mostrou uma diferença acentuada entre as populações. Das 46 linhagens identificadas na Antártida, 42 não foram encontradas nas amostras utilizadas para comparação com outros continentes.
O número corresponde a aproximadamente 91,3% das linhagens analisadas e representa uma evidência de endemismo, termo utilizado para organismos cuja distribuição conhecida está limitada a determinada região geográfica.
A equipe ressalta, porém, uma distinção importante: a ausência de uma linhagem nas amostras globais não comprova que ela seja absolutamente inexistente em qualquer outro lugar. O resultado demonstra que essas bactérias apresentam uma distribuição diferenciada dentro do conjunto de dados estudado.
A conclusão é relevante porque microrganismos podem percorrer grandes distâncias transportados pelo vento, pela água e por outros mecanismos naturais. Mesmo assim, as populações antárticas analisadas conservaram características genéticas que as distinguem de bactérias encontradas fora do continente.
Cientistas compararam DNA de bactérias da Antártida com amostras de outros continentes
Para investigar a origem dessas diferenças, os pesquisadores utilizaram análises genéticas e experimentos laboratoriais.
O trabalho reuniu amostras de solos antárticos e de ambientes frios ou áridos de outras regiões, incluindo o Planalto Tibetano, o arquipélago de Svalbard, no Ártico, e o Deserto do Atacama, no Chile.
Segundo o Instituto Cooperativo de Pesquisa em Ciências Ambientais da Universidade do Colorado (CIRES), a investigação envolveu mais de 100 linhagens antárticas e quase 500 linhagens de outras localidades em diferentes etapas experimentais.
A equipe utilizou técnicas de sequenciamento genético para identificar diferenças entre os microrganismos. Também comparou informações obtidas de amostras de solo com registros disponíveis em bases de dados internacionais.
Uma dessas técnicas é a metagenômica, que permite examinar material genético presente em amostras ambientais sem depender exclusivamente do cultivo de cada microrganismo em laboratório.
Com isso, os cientistas conseguiram investigar a distribuição das linhagens e identificar características associadas às condições ambientais em que vivem.
O trabalho foi desenvolvido com a participação de instituições americanas e australianas, incluindo a Universidade de Massachusetts Amherst, a Universidade Monash e a Universidade Brigham Young.
Bactérias antárticas cresceram mais lentamente, mas resistiram às condições extremas

A etapa seguinte buscou entender se as diferenças genéticas também apareciam no comportamento dos microrganismos.
Os pesquisadores cultivaram bactérias em placas de laboratório e reproduziram condições relacionadas ao ambiente antártico, incluindo baixas temperaturas e disponibilidade limitada de água.
Os resultados mostraram que muitas linhagens da Antártida apresentaram crescimento mais lento, mas conseguiram tolerar condições ambientais difíceis.
O comunicado científico divulgado pela Universidade do Colorado, em 31 de agosto, explica que os testes forneceram evidências de adaptação local, complementando os dados sobre a distribuição geográfica das bactérias.
A adaptação ao frio, entretanto, não significa que os microrganismos tenham sua temperatura ideal de crescimento exatamente na faixa encontrada no solo antártico.
Algumas linhagens conseguiram crescer melhor em temperaturas superiores às que enfrentam naturalmente. Os resultados indicam que sua sobrevivência pode depender de diferentes mecanismos fisiológicos, e não apenas da capacidade de se multiplicar rapidamente no frio.
Outro ponto investigado foi a resistência à dessecação, processo associado à perda de água. Embora a Antártida tenha regiões extremamente secas, as análises não demonstraram uma resistência excepcional e generalizada à falta de umidade entre as linhagens estudadas.
Esses resultados ajudam a separar duas características distintas: sobreviver em um ambiente extremo e crescer na temperatura ou condição mais favorável em laboratório.
Isolamento geográfico pode explicar por que bactérias desenvolveram características próprias
A Antártida está separada dos demais continentes pelo Oceano Austral e apresenta condições ambientais diferentes das encontradas em grande parte do planeta.
Embora seja conhecida por suas extensas camadas de gelo, algumas regiões possuem solos expostos, com pouca água disponível, baixas temperaturas e forte influência dos ventos.
Nos Vales Secos de McMurdo, por exemplo, a combinação de frio e aridez cria condições difíceis para a sobrevivência de muitos organismos.
Esses ambientes oferecem oportunidades para investigar como populações microscópicas persistem e evoluem ao longo do tempo.
Em um estudo anterior sobre bactérias Arthrobacter, pesquisadores já haviam examinado adaptações genéticas e características fisiológicas de linhagens encontradas em solos antárticos.
O trabalho, publicado em 2015, ajudou a caracterizar mecanismos relacionados à sobrevivência em ambientes frios, incluindo alterações metabólicas e respostas a condições ambientais adversas.
A pesquisa de 2026 acrescentou outra dimensão ao problema: a distribuição geográfica das linhagens.
As diferenças encontradas indicam que o isolamento pode ter influenciado não somente a capacidade de sobrevivência das bactérias, mas também sua trajetória evolutiva.
O continente apresenta ainda outros registros de pesquisas sobre ambientes extremos, como a perfuração de gelo na Antártida Ocidental, que permitiu recuperar sedimentos e informações sobre períodos geológicos anteriores.
Descoberta amplia pesquisas sobre biodiversidade microscópica e preservação ambiental

O estudo foi coordenado por Nicholas Dragone e contou com a participação de Noah Fierer, pesquisador da Universidade do Colorado Boulder.
Em comunicado divulgado pelo CIRES, Dragone explicou que a microbiologia trabalha há décadas com a discussão sobre a capacidade dos microrganismos de se dispersarem por diferentes ambientes.
A Antártida representa um caso relevante para essa investigação porque reúne isolamento geográfico e condições ambientais incomuns.
Os resultados também mostram que a biodiversidade do continente não se limita a animais amplamente conhecidos, como pinguins, focas e baleias.
Parte dessa diversidade está presente no solo, em organismos microscópicos que desempenham funções nos ecossistemas, embora sejam difíceis de observar diretamente.
A importância dessas comunidades também aparece em pesquisas sobre bactérias de outros ambientes. Uma matéria do CPG sobre microrganismos que degradam petróleo apresentou como determinados grupos bacterianos participam de processos ambientais relacionados à decomposição de hidrocarbonetos.
No caso das linhagens antárticas, a pesquisa não demonstrou aplicações industriais ou médicas específicas. Seu principal resultado está na identificação de padrões de distribuição e adaptação que ajudam a compreender a evolução microbiana.
Pesquisadores querem descobrir se outros microrganismos também são exclusivos da Antártida
A investigação concentrou-se em um único gênero bacteriano. Por isso, ainda não é possível afirmar que a mesma proporção de endemismo esteja presente entre todos os microrganismos do continente.
Outros grupos podem apresentar distribuições diferentes, dependendo de suas características biológicas e da capacidade de dispersão pelo ambiente.
A equipe pretende ampliar as comparações para verificar se o padrão identificado em Arthrobacter também ocorre em outras bactérias presentes nos solos antárticos.
Novas análises poderão incluir mais regiões do planeta e conjuntos maiores de dados genéticos, permitindo avaliar com maior precisão a distribuição dessas linhagens.
O estudo publicado na PNAS apresenta evidências de que parte da microbiota antártica desenvolveu características próprias e manteve uma distribuição geográfica restrita nas amostras examinadas. A próxima etapa será determinar até que ponto esse padrão se repete em outros grupos de microrganismos.
