Estudo com LiDAR revela até 23 mil estruturas ocultas sob a Amazônia e aponta ocupação pré-colombiana muito mais ampla do que se imaginava.
Em 2023, um estudo publicado na revista Science, com participação de 230 pesquisadores de 156 instituições em 24 países e liderança de cientistas ligados ao INPE, trouxe uma das evidências mais robustas já registradas sobre a ocupação humana na Amazônia pré-colombiana. Utilizando tecnologia de sensoriamento remoto baseada em laser, conhecida como LiDAR (Light Detection and Ranging), os cientistas conseguiram “enxergar” estruturas ocultas sob a densa cobertura da floresta. Segundo o estudo “More than 10,000 pre-Columbian earthworks are still hidden throughout Amazonia”, publicado na Science, a combinação entre levantamento aéreo, arqueologia e modelagem estatística permitiu identificar novos vestígios humanos de grande escala sob o dossel amazônico.
O trabalho analisou 5.315 km² de dados LiDAR distribuídos pela bacia amazônica e revelou 24 estruturas arqueológicas previamente não registradas, entre elas aldeias fortificadas, estruturas defensivas e cerimoniais, assentamentos em áreas elevadas e outros tipos de geoglifos. A partir desses dados, os pesquisadores aplicaram um modelo preditivo de distribuição espacial e estimaram que entre 10.272 e 23.648 estruturas pré-colombianas de grande porte ainda podem estar escondidas em áreas não mapeadas da floresta, com maior probabilidade de ocorrência no sudoeste da Amazônia.
Essa descoberta altera de forma significativa a compreensão sobre o passado da região, sugerindo que a Amazônia não era um território isolado ou pouco habitado, mas sim uma área com presença humana extensa, organizada e capaz de modificar a paisagem em larga escala. Os autores também identificaram associação entre a probabilidade de ocorrência dessas estruturas e a presença de espécies arbóreas domesticadas, reforçando a ideia de que sociedades indígenas pré-colombianas exerceram influência duradoura sobre a ecologia amazônica.
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Tecnologia LiDAR permite mapear estruturas invisíveis sob a copa da floresta amazônica
A base dessa descoberta está no uso do LiDAR, uma tecnologia que emite pulsos de laser a partir de aeronaves e mede o tempo que esses feixes levam para retornar após atingir o solo. Mesmo com a presença de vegetação densa, parte desses pulsos consegue atravessar a copa das árvores e atingir o terreno, permitindo a reconstrução de modelos tridimensionais da superfície.
Esse processo permite remover digitalmente a vegetação e revelar o relevo real do solo, expondo:
- valas escavadas
- elevações artificiais
- caminhos e estruturas geométricas
Diferente de imagens de satélite tradicionais, que capturam apenas a superfície visível, o LiDAR revela o que está escondido sob a floresta, tornando-se uma ferramenta essencial para a arqueologia em regiões tropicais.
Estimativa de até 23 mil estruturas é baseada em modelagem estatística, não em contagem direta
Um dos pontos mais impactantes do estudo é a estimativa de que a Amazônia pode abrigar entre 10 mil e 23 mil estruturas arqueológicas. No entanto, é fundamental compreender que esse número não representa estruturas já descobertas fisicamente.
Os pesquisadores identificaram um conjunto de estruturas em áreas analisadas e, a partir da densidade observada, aplicaram modelos matemáticos para projetar quantas outras podem existir em áreas ainda não exploradas.
Essa abordagem é comum em estudos de larga escala e permite inferir padrões regionais a partir de amostras. Ainda assim, a confirmação de cada estrutura depende de novas campanhas de mapeamento e escavação.
Estruturas identificadas incluem geoglifos, valas e áreas modificadas por povos pré-colombianos
Entre as estruturas reveladas estão:
- geoglifos geométricos
- sistemas de valas
- áreas de solo modificado
- possíveis caminhos e conexões entre sítios
Essas formações indicam intervenção humana direta no ambiente, muitas vezes com padrões geométricos que não podem ser explicados por processos naturais.
Os geoglifos, já conhecidos no Acre e em outras regiões, são um dos exemplos mais visíveis dessa engenharia antiga. No entanto, o LiDAR revelou que essas estruturas podem ser apenas parte de um sistema muito mais amplo de ocupação e modificação da paisagem.
Plantas domesticadas funcionam como indicador indireto da presença humana antiga
Outro aspecto importante do estudo é a relação entre as estruturas arqueológicas e a presença de espécies vegetais domesticadas. Os pesquisadores identificaram que determinadas plantas aparecem com maior frequência em áreas onde há evidências de ocupação humana antiga.
Entre essas espécies estão árvores e plantas utilizadas historicamente por povos indígenas para alimentação e manejo da floresta. Essas plantas permanecem no ambiente por gerações, funcionando como uma espécie de “marcador biológico” da presença humana passada.
Esse padrão sugere que a ocupação da Amazônia envolvia não apenas construção de estruturas, mas também um profundo conhecimento ecológico e manejo do ambiente.
Amazônia pré-colombiana pode ter sido densamente ocupada e altamente organizada
As evidências reunidas pelo estudo reforçam uma mudança significativa na forma como a Amazônia é interpretada historicamente. Durante décadas, predominou a ideia de que a região era ocupada por populações pequenas e dispersas, devido às limitações do solo e do ambiente.

No entanto, a presença de milhares de estruturas e áreas modificadas indica que existiam:
- comunidades organizadas
- redes de interação entre grupos
- sistemas de uso do solo adaptados ao ambiente
Essa visão mais recente aponta para uma Amazônia intensamente habitada e transformada por seus povos originários.
Descobertas reforçam que grande parte da Amazônia ainda não foi investigada arqueologicamente
Mesmo com os avanços tecnológicos, apenas uma fração da Amazônia foi analisada com técnicas como o LiDAR. Isso significa que o número de estruturas conhecidas representa apenas uma pequena parte do que pode existir.
Regiões ainda cobertas por floresta intacta podem esconder:
- novos geoglifos
- assentamentos antigos
- redes de caminhos
- áreas agrícolas pré-colombianas
Essa perspectiva transforma a Amazônia em uma das maiores fronteiras arqueológicas ainda pouco exploradas do planeta.
Diferença entre descoberta direta e estimativa científica é fundamental para interpretação correta
Um dos pontos mais importantes para a compreensão do estudo é a distinção entre estruturas identificadas diretamente e aquelas estimadas por modelagem.
Enquanto as estruturas detectadas com LiDAR possuem evidência concreta, o número total projetado depende de extrapolações baseadas em padrões observados. Isso não invalida a estimativa, mas exige cautela na interpretação.
Essa distinção é essencial para evitar leituras equivocadas ou sensacionalistas sobre o alcance das descobertas. O conjunto de dados obtidos com o uso do LiDAR tem impacto direto em diversas áreas do conhecimento, incluindo:
- arqueologia
- ecologia histórica
- geografia
- estudos climáticos
Ao demonstrar que a Amazônia foi amplamente modificada por populações humanas no passado, o estudo contribui para uma compreensão mais complexa da relação entre sociedade e ambiente na região.
Além disso, essas descobertas podem influenciar debates atuais sobre conservação, uso do solo e sustentabilidade.
Uso de tecnologias avançadas como LiDAR abre nova fase na arqueologia da floresta tropical
O avanço do LiDAR representa uma mudança de paradigma na arqueologia, especialmente em regiões de difícil acesso como a Amazônia. A possibilidade de mapear grandes áreas sem a necessidade de desmatamento permite acelerar a identificação de sítios arqueológicos e reduzir impactos ambientais.
Essa tecnologia já vem sendo utilizada em outras regiões do mundo, como na América Central, onde revelou cidades maias ocultas sob a floresta. Na Amazônia, o potencial ainda está longe de ser totalmente explorado.
As descobertas recentes indicam que a Amazônia pode guardar um volume de estruturas muito maior do que se imaginava até poucos anos atrás. A combinação de tecnologia avançada e novas abordagens científicas está apenas começando a revelar a complexidade dessa região.
Diante dessas evidências, surge uma questão inevitável: quantas outras estruturas ainda permanecem ocultas sob a floresta, esperando para serem reveladas por novas tecnologias?
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