Demanda por IA pressiona preços da memória RAM no mundo, mas na China chips ficam mais baratos e fabricantes locais aceleram expansão.
Em Pequim, Xangai e Hefei (China), ao longo de 2024 e início de 2025, fabricantes chineses de semicondutores passaram a vender memórias RAM e NAND a preços significativamente menores do que os praticados no mercado internacional. O movimento ocorre em paralelo a uma alta global dos preços, impulsionada pela explosão da demanda por inteligência artificial.
As informações vêm de reportagens publicadas por Reuters, Financial Times e pelo portal Terra, com base em dados de mercado e declarações de executivos e analistas da indústria de semicondutores. Entre as empresas diretamente envolvidas estão a ChangXin Memory Technologies (CXMT), principal fabricante chinesa de DRAM, e a Yangtze Memory Technologies (YMTC), focada em memória NAND.
A explosão da IA e o choque global na memória RAM
Desde 2023, a popularização de modelos de IA generativa, data centers de alto desempenho e treinamento massivo de redes neurais elevou drasticamente o consumo de memória. Servidores voltados a IA utilizam volumes muito maiores de DRAM e HBM (High Bandwidth Memory) do que computadores convencionais.
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Gigantes globais como Samsung Electronics, SK Hynix e Micron Technology passaram a priorizar linhas de produção voltadas a memórias avançadas para IA, reduzindo a oferta de módulos tradicionais usados em PCs, notebooks e servidores comuns.
O resultado foi direto:
– preços internacionais de RAM subindo entre 20% e 40% em 2024,
– contratos corporativos reajustados,
– e gargalos para fabricantes de eletrônicos em diversos países.
Por que na China o preço da memória caiu
Na China, o cenário é estruturalmente diferente. As sanções tecnológicas impostas pelos Estados Unidos limitaram o acesso das empresas chinesas a chips avançados, máquinas de litografia de última geração e ao mercado externo de alto valor.
Como consequência, fabricantes locais passaram a focar fortemente no mercado interno, produzindo grandes volumes de DRAM DDR4, LPDDR e NAND convencionais, exatamente os tipos de memória que ficaram mais escassos fora da China.
Com oferta abundante e demanda interna controlada, os preços domésticos caíram entre 30% e 40%, segundo dados compilados por analistas citados pela Reuters. Em alguns contratos industriais, módulos chineses chegaram a custar menos da metade do valor internacional equivalente.
CXMT e YMTC operam no limite para ocupar o espaço deixado pelo Ocidente
A CXMT, sediada em Hefei, acelerou investimentos em linhas de DRAM e passou a fornecer memória para fabricantes chineses de PCs, smartphones, servidores e equipamentos industriais. Embora ainda esteja uma geração tecnológica atrás das líderes globais, seus produtos atendem perfeitamente aplicações não ligadas à IA de ponta.
Já a YMTC, especializada em NAND flash, expandiu agressivamente a produção de SSDs e chips de armazenamento. A empresa conseguiu manter competitividade mesmo após restrições impostas pelos EUA, ajustando processos e focando em eficiência de escala.
Executivos do setor afirmam que o excesso de produção interna virou uma vantagem estratégica, permitindo preços baixos, contratos de longo prazo e maior previsibilidade para empresas chinesas de hardware.
O efeito dominó na indústria chinesa de eletrônicos
Com memória mais barata, fabricantes chineses de computadores, servidores, roteadores, equipamentos industriais e eletrônicos de consumo ganharam uma margem que não existe fora do país. Isso permitiu:
– redução de custos de produção,
– manutenção de preços finais competitivos,
– e expansão de exportações para mercados emergentes.
Enquanto empresas ocidentais lidam com custos crescentes de componentes, companhias chinesas conseguem montar produtos com estrutura de custos mais estável, mesmo em um cenário global inflacionado para semicondutores.
Uma vantagem temporária ou mudança estrutural?
Analistas divergem sobre a duração desse fenômeno. Alguns apontam que, à medida que a demanda global por IA se estabilizar, fabricantes internacionais podem voltar a equilibrar a produção de memórias convencionais, reduzindo a diferença de preços.
Outros, porém, veem o movimento como um efeito colateral duradouro da fragmentação tecnológica global. Com cadeias de suprimento cada vez mais regionalizadas, a China tende a manter um ecossistema próprio de semicondutores, com preços, prioridades e estratégias diferentes do Ocidente.
Nesse cenário, a memória barata deixa de ser apenas uma anomalia de mercado e passa a ser uma ferramenta de competitividade industrial e geopolítica.
O paradoxo silencioso do mercado global de chips
Enquanto a inteligência artificial pressiona preços, concentra produção e cria escassez em boa parte do planeta, a China vive um paradoxo raro: abundância em meio à crise. O que nasceu como resposta a sanções e isolamento tecnológico acabou criando uma janela estratégica que empresas locais estão explorando com rapidez.
O mercado global de memória, tradicionalmente cíclico, entra agora em uma fase mais complexa, marcada não apenas por oferta e demanda, mas por política industrial, tecnologia, geopolítica e IA. E, nesse jogo, a China encontrou uma brecha onde poucos imaginavam existir.

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