Queda nas compras agrícolas dos Estados Unidos pela China desloca a demanda para o campo brasileiro, faz disparar os embarques de soja e amendoim em 2025, redefine o mapa do agro global e prepara a estreia do sorgo nacional no mercado chinês em 2026, com novos contratos, protocolos e riscos.
Em meio à intensificação da guerra comercial entre Estados Unidos e China, o Brasil chega a dezembro de 2025 com um marco inédito: as exportações de soja e amendoim para o mercado chinês atingiram o maior volume da história entre janeiro e novembro de 2025, segundo dados de associações de exportadores. O desvio das compras chinesas que saíram das fazendas americanas e passaram a mirar o campo brasileiro consolidou o país como principal fornecedor alternativo ao rival norte-americano.
Entre janeiro e novembro de 2025, os embarques de amendoim somaram 63 mil toneladas e as exportações de soja alcançaram 80,9 milhões de toneladas destinadas à China, superando o recorde anterior de 2023 e abrindo caminho para um novo ciclo de negócios que inclui não apenas soja e amendoim, mas também o início das vendas de sorgo a partir de 2026.
China reduz compras dos EUA e mira o campo brasileiro
A guerra comercial entre Washington e Pequim, marcada por tarifas adicionais sobre produtos agrícolas, mudou o fluxo global de grãos e oleaginosas. Com a redução das importações vindas dos Estados Unidos, a China passou a buscar fornecedores capazes de garantir volume, regularidade e preços competitivos, e encontrou no Brasil um parceiro estratégico para abastecer sua indústria de alimentos, óleos e ração animal.
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Segundo a Associação Nacional de Exportadores de Amendoim (Abex-BR), esse reposicionamento ficou claro em 2025. A queda nas compras de produtos agrícolas americanos abriu espaço direto para a soja e o amendoim brasileiros, em um movimento que fortalece o agronegócio nacional e amplia a dependência chinesa do grão e do óleo produzidos aqui.
Para o vice-presidente da Abex-BR, Pablo Rivera, a guinada é consequência direta da disputa comercial. Ele lembra que a China costumava adquirir cerca de 300 mil toneladas por ano de amendoim com casca dos Estados Unidos para produzir óleo e agora substitui parte relevante dessa oferta pelo produto brasileiro. Na prática, o que antes era um fluxo estável de amendoim americano passou a ser, em grande medida, uma oportunidade para o campo brasileiro.
Salto histórico nas vendas de amendoim para a China
Os números do amendoim ajudam a dimensionar a mudança. Entre janeiro e novembro de 2025, o Brasil exportou 63 mil toneladas do produto para a China. O volume representa um aumento de mais de 2.600% em relação às 2.316 toneladas embarcadas para o país entre setembro de 2022, quando as compras chinesas começaram, e dezembro de 2024.
Até a virada desse ciclo, os maiores compradores do amendoim brasileiro eram a Rússia e o bloco da União Europeia. A demanda chinesa em 2025 mudou essa ordem. A China ultrapassou os antigos líderes e passou a ser o principal destino individual do amendoim brasileiro, reforçando o peso do mercado asiático na pauta exportadora do setor.
O impacto não ficou restrito ao grão. Também houve um avanço expressivo no óleo bruto de amendoim. As exportações brasileiras desse derivado cresceram 170%, e cerca de 90% de todo o volume embarcado teve como destino a China, o que mostra que o país asiático não está apenas comprando matéria-prima, mas também puxando a cadeia de valor ligada ao processamento do amendoim.
Para os exportadores, o amendoim brasileiro ganha competitividade justamente porque preenche a lacuna deixada pela retração das compras de origem americana. A combinação de câmbio favorável, disponibilidade de produto e capacidade de atender grandes volumes coloca o Brasil em uma posição privilegiada para fechar novos contratos de longo prazo com a indústria chinesa.
Soja lidera recorde e puxa novo ciclo de exportações de soja e amendoim
Se o amendoim vive uma arrancada, a soja continua comandando o movimento. De janeiro a novembro de 2025, as exportações de soja para a China somaram 80,9 milhões de toneladas, segundo a Associação Nacional de Exportadores de Cereais (Anec). É o maior volume já registrado para o período, acima do recorde anterior de 2023, quando haviam sido embarcadas 75,5 milhões de toneladas.
A demanda chinesa é tão forte que deve levar o Brasil a bater também o recorde geral de exportação de soja em 2025. Estão previstas cerca de 105 milhões de toneladas exportadas até o fim do ano, e aproximadamente 80% desse total deve ser direcionado à China, que há cerca de duas décadas já é o maior importador da soja brasileira.
Na prática, o que se vê é uma consolidação de longo prazo. Com a guerra comercial reduzindo a atratividade da soja americana, o Brasil se firma como fornecedor central da soja e amendoim consumidos na China, tanto para produção de ração e proteína animal quanto para a indústria de óleo e alimentos processados. Esse protagonismo reforça o peso do país na segurança alimentar chinesa e aumenta a relevância da logística brasileira, dos portos ao armazenamento.
Para o agronegócio nacional, o recorde de soja em 2025 não é apenas um número histórico, mas um indicativo de uma mudança estrutural. A combinação de soja e amendoim como âncoras da pauta exportadora brasileira para a China cria uma ponte comercial mais diversificada, capaz de sustentar novos investimentos em plantio, processamento e infraestrutura.
Sorgo é a próxima aposta brasileira no mercado chinês
Depois da soja e do amendoim, o próximo capítulo da relação agroexportadora entre Brasil e China tem nome e sobrenome: o sorgo brasileiro. Há previsão de que as exportações de sorgo para o mercado chinês comecem em 2026, ampliando o cardápio de grãos enviados ao país asiático e abrindo uma nova frente de negócios para produtores e tradings.
O sorgo é usado principalmente na produção de ração animal, além de ter aplicações na indústria alimentícia e de bebidas. A mudança de rota também está ligada à disputa comercial. O engenheiro agrônomo da Anec Wallas Ferreira destaca que as compras chinesas de sorgo dos Estados Unidos foram reduzidas em cerca de 90%, o que explica o crescente interesse de Pequim pelo cereal brasileiro.
O protocolo entre Brasil e China para viabilizar as exportações de sorgo já foi assinado, e agora falta a safra de 2025 ser aprovada do ponto de vista sanitário e fitossanitário. Se esse passo for confirmado, o Brasil tende a iniciar os embarques de sorgo para a China em 2026, adicionando um terceiro produto relevante à lista de grãos estratégicos para o mercado chinês, ao lado da soja e do amendoim.
Para produtores e exportadores, a entrada do sorgo nessa rota pode funcionar como um amortecedor de riscos, distribuindo melhor a produção entre diferentes culturas e aproveitando a mesma base de infraestrutura usada hoje para escoar soja e amendoim.
Oportunidade histórica e novos riscos para o agro brasileiro
A combinação de guerra comercial, tarifas punitivas e redirecionamento das compras chinesas criou uma janela que o campo brasileiro soube aproveitar. Os recordes de exportação de soja e amendoim em 2025 e a perspectiva de vender sorgo a partir de 2026 colocam o Brasil em um patamar inédito de influência sobre o abastecimento de grãos da China.
Ao mesmo tempo, essa tendência também levanta alertas. A concentração de vendas em um único grande comprador aumenta a exposição do Brasil a mudanças políticas, regulatórias ou sanitárias decididas em Pequim. Ainda assim, o balanço de curto prazo é claramente favorável aos exportadores brasileiros, que veem na demanda por soja e amendoim e na futura compra de sorgo uma oportunidade de ampliar margens, diversificar contratos e consolidar a imagem do país como fornecedor confiável.

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