Expansão da Starlink no Brasil acelera negociações com fabricantes de celulares, operadoras e Anatel para viabilizar internet via satélite diretamente no smartphone, tecnologia apontada pelo setor de telecomunicações como alternativa para ampliar cobertura móvel em áreas remotas e situações de emergência a partir de 2027.
A Starlink, empresa de internet via satélite ligada a Elon Musk, pediu à Agência Nacional de Telecomunicações autorização para lançar no Brasil, em 2027, um serviço voltado à conexão direta entre celulares e satélites, sem necessidade de roteadores ou antenas instaladas em imóveis para funcionamento imediato da rede.
Segundo apuração da Broadcast Estadão em matéria publicada nesta quinta-feira (21), o pedido foi encaminhado à Anatel em fevereiro e representa uma nova etapa da operação da companhia no país, onde a base de clientes já supera 1 milhão de usuários, colocando o Brasil como o segundo maior mercado da Starlink, atrás apenas dos Estados Unidos.
Atualmente, o serviço prestado pela empresa funciona principalmente como banda larga fixa via satélite, modelo que depende da instalação de equipamentos específicos para acesso à internet em residências, propriedades rurais e áreas sem cobertura tradicional.
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Nesse formato, o consumidor precisa utilizar antena e roteador próprios, cenário diferente da proposta em análise pela empresa, que prevê conexão direta em smartphones compatíveis com a tecnologia de comunicação via satélite.
Como funcionará a internet da Starlink direto no celular
A tecnologia que a Starlink pretende explorar é conhecida como direct to device, ou D2D.
Na prática, a tecnologia permite que celulares compatíveis se comuniquem diretamente com satélites em órbita, recurso apontado por empresas do setor como alternativa para ampliar cobertura em regiões sem sinal convencional ou infraestrutura terrestre disponível.
Em diferentes mercados, esse tipo de conexão ainda opera em fase inicial e depende de ajustes técnicos, regulamentação específica e compatibilidade entre satélites, operadoras móveis e fabricantes de aparelhos.
Enquanto a Starlink já trabalha com serviços D2D em países como Estados Unidos, Canadá, Japão e Chile, o mercado brasileiro ainda depende de autorização regulatória e de definições técnicas antes de receber uma eventual oferta comercial.
A empresa busca usar a frequência de 2 GHz, na chamada banda S, para viabilizar a conexão direta aos aparelhos.
Segundo especialistas do setor de telecomunicações, essa faixa é considerada estratégica para serviços móveis por satélite, embora o uso comercial dependa de avaliação técnica e aprovação definitiva da Anatel.
Disputa pela banda S aumenta pressão sobre a Anatel
O tema passou a ter mais peso depois que a Anatel autorizou a AST SpaceMobile, empresa do Texas, a operar no Brasil com uma constelação de satélites voltada ao D2D.
A decisão envolve subfaixas da banda S e, segundo fontes ligadas ao setor, reduziu parte do espaço regulatório disponível para empresas interessadas em atuar com serviços semelhantes no país.
No caso da Starlink, a operação também depende da transferência de licença relacionada à EchoStar, companhia que detinha direitos de uso da banda S no país.
A SpaceX, dona da Starlink, comprou ativos de espectro da EchoStar em 2025, mas a mudança precisa passar pelo crivo da agência brasileira.
Nos últimos meses, representantes da empresa de Musk têm mantido conversas em Brasília para discutir o tema com integrantes da Anatel e acompanhar o andamento das análises regulatórias relacionadas ao projeto.
Segundo fontes ouvidas pela Broadcast, a avaliação regulatória deverá influenciar diretamente o cronograma de implementação comercial do serviço no Brasil.
Apple, Samsung e Motorola entram nas negociações
Além da frente regulatória, a Starlink discute acordos comerciais no Brasil.
Uma das tratativas envolve Apple, Samsung e Motorola, fabricantes que concentram participação relevante no mercado nacional de smartphones e podem ampliar a oferta de modelos compatíveis com a frequência de 2 GHz.
A compatibilidade dos aparelhos é um ponto central para o avanço do D2D.
Atualmente, poucos celulares disponíveis no mercado brasileiro estão aptos a operar nessa faixa, fator que limita a escala inicial do serviço e exige coordenação entre empresas de satélite, fabricantes e operadoras móveis.
Outra negociação envolve Vivo, Claro e TIM.
A Starlink avalia parcerias com uma ou mais operadoras para distribuir planos de conexão direta via satélite, em um modelo que funcionaria como complemento ao serviço móvel tradicional.
Segundo fontes ouvidas pela Broadcast, a empresa não pretende se apresentar como substituta direta das redes 4G e 5G.
Segundo fontes ligadas às negociações, a estratégia da empresa é complementar a cobertura móvel em locais onde a infraestrutura terrestre enfrenta limitações técnicas ou econômicas.
Nova geração de satélites será essencial para o projeto
Para oferecer o serviço no Brasil, a Starlink ainda precisa colocar em órbita uma nova geração de satélites.
O lançamento desses equipamentos está previsto para ocorrer entre o fim de 2026 e o início de 2027, etapa considerada necessária para sustentar a operação de conexão direta entre satélites e celulares.
A expansão da constelação já vinha sendo tratada pela Anatel.
Em 2025, a agência autorizou a SpaceX a acrescentar 7.500 satélites à operação local da Starlink, mais que dobrando o volume de equipamentos previamente permitido no país, embora as autorizações continuem sujeitas às regras brasileiras.
Ao mesmo tempo, o avanço do D2D ocorre em meio a debates envolvendo competição no setor, uso eficiente do espectro, sustentabilidade espacial e regras de operação para empresas globais de conectividade.
A Anatel tem indicado que o crescimento desse mercado exige atualização regulatória para lidar com novos modelos de conectividade.
Cobertura em áreas remotas é principal aposta da Starlink
A conexão direta por satélite poderá ampliar a cobertura em áreas rurais, rodovias, regiões amazônicas, zonas de fronteira e localidades onde torres terrestres ainda não oferecem sinal convencional de telefonia móvel.
Além disso, representantes do setor afirmam que o serviço poderá ser utilizado em situações de emergência, quando tempestades, enchentes, quedas de energia ou outros eventos comprometem redes convencionais de telecomunicações.
Mesmo com as negociações em andamento, a chegada comercial do serviço dependerá de uma combinação de fatores regulatórios, técnicos e operacionais envolvendo diferentes empresas e órgãos responsáveis.
A Starlink precisa de autorização para uso do espectro, aprovação da transferência ligada à EchoStar, satélites compatíveis em operação e celulares preparados para se conectar à frequência desejada.
Procurada, a Starlink não comentou as negociações.
Até que a Anatel conclua a análise, o serviço segue sem autorização para oferta comercial no Brasil, apesar das conversas em andamento com fabricantes, operadoras e órgãos reguladores.

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