Queda do dólar reflete incerteza política nos EUA e expectativa pela próxima decisão de política monetária do Federal Reserve.
O dólar iniciou a reta final da semana sob forte pressão nos mercados globais, caminhando para registrar sua pior performance desde junho.
A queda ocorre antes da próxima reunião do Federal Reserve, marcada para a semana seguinte, em um contexto de incerteza política nos Estados Unidos, mudanças abruptas de discurso em Washington e aumento da volatilidade no mercado cambial internacional.
Nos Estados Unidos, investidores e operadores acompanharam de perto os sinais contraditórios vindos da Casa Branca, combinados com expectativas cautelosas sobre a política monetária americana.
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O movimento de desvalorização da moeda acontece mesmo diante da alta dos rendimentos dos títulos do Tesouro, o que reforça a leitura de que fatores políticos estão se sobrepondo às variáveis econômicas tradicionais.
Dólar atinge mínima de semanas e mercado muda estratégia
O índice Bloomberg Dollar Spot recuou para o menor nível em três semanas na sexta-feira (23).
No acumulado de cinco dias, a queda chegou a 0,8%, refletindo uma mudança significativa no humor dos investidores.
Além disso, operadores de opções passaram a pagar prêmios mais altos para se proteger contra novas perdas do dólar ao longo do próximo mês.
Esse movimento marca uma reversão clara em relação à semana anterior, quando o sentimento positivo em relação à moeda americana havia atingido o maior nível desde novembro.
Assim, o comportamento do mercado cambial passou a sinalizar maior cautela diante do ambiente político instável.
Incerteza política em Washington pesa mais que política monetária
A instabilidade ganhou força após declarações do presidente dos EUA, Donald Trump, que ameaçou impor tarifas comerciais à Europa em meio a discussões geopolíticas envolvendo a Groenlândia.
Pouco depois, a retórica foi abandonada de forma abrupta.
A mudança ocorreu após um acordo com o secretário-geral da Otan, Mark Rutte, durante o Fórum Econômico Mundial, em Davos.
Esse vai-e-volta elevou a percepção de incerteza política, ampliando os riscos para ativos ligados ao dólar.
Enquanto isso, mesmo com a expectativa de manutenção dos juros pelo Federal Reserve, a moeda seguiu em queda, indicando que o fator político tem sido decisivo.
Mercado projeta cortes de juros, mas volatilidade aumenta
Nos mercados de juros, investidores seguem precificando dois cortes de 0,25 ponto percentual nas taxas ao longo de 2026.
No entanto, a probabilidade de qualquer mudança já na próxima reunião do Federal Reserve é considerada praticamente nula.
Ainda assim, a volatilidade de uma semana — que incorpora diretamente a decisão de política monetária do Fed prevista para 28 de janeiro — subiu ao maior nível em mais de um mês.
Isso reforça o clima de incerteza e a busca por proteção nos mercados financeiros.
Analistas alertam para viés negativo do dólar
Para especialistas, o cenário atual indica riscos prolongados para a moeda americana.
Em nota, Brent Donnelly, presidente da Spectra Markets e ex-operador de câmbio, foi direto em sua avaliação.
“A distribuição dos retornos do dólar em 2026 quase certamente deve estar fortemente enviesada para o lado negativo neste momento”, escreveu.
“O mundo está percebendo que o pesadelo da política dos EUA não acabou.”
Essa leitura reforça a percepção de que a incerteza política seguirá influenciando o mercado cambial, independentemente das decisões técnicas do Federal Reserve.
Dados de emprego aliviam, mas não sustentam o dólar
Enquanto isso, os dados mais recentes do mercado de trabalho americano trouxeram certo alívio.
Segundo o Departamento do Trabalho, os pedidos iniciais de auxílio-desemprego aumentaram em apenas 1.000 solicitações, totalizando 200.000 na semana encerrada em 17 de janeiro.
O número ficou abaixo da mediana de 209.000 projetada por economistas consultados pela Bloomberg.
Ainda assim, o dado positivo não foi suficiente para reverter a tendência negativa do dólar.
Mercado segue atento à sucessão no Federal Reserve
Outro fator que passou a chamar a atenção dos investidores foi a sinalização política em torno da liderança do banco central.
Trump afirmou que concluiu as entrevistas com candidatos para assumir a presidência do Federal Reserve e indicou já ter um nome em mente.
Esse movimento adiciona mais uma camada de incerteza política ao cenário, ampliando a cautela dos agentes financeiros nas próximas semanas.
Perspectiva segue desafiadora para o mercado cambial
Segundo JPMorgan, o ambiente atual ainda não favorece uma recuperação consistente do dólar.
“O otimismo com o mercado de trabalho dos EUA ainda não é uma ameaça à nossa visão moderadamente pessimista para o dólar”, afirmou Pat Locke, estrategista de câmbio do banco em Nova York.
Dessa forma, a combinação de política monetária cautelosa, instabilidade em Washington e eventos políticos imprevisíveis segue pressionando o dólar, mantendo o mercado cambial em alerta máximo às vésperas da decisão do Federal Reserve.
Veja mais em: Dólar caminha para pior semana no mundo desde junho com ‘pesadelo americano’

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