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Diretor de uma das maiores empresas de tecnologia do mundo chamou de possivelmente “o maior roubo de trabalho da história da humanidade” o que foi feito para treinar a inteligência artificial que milhões usam todo dia, e a empresa dele está entre as processadas

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Escrito por Bruno Teles Publicado em 19/09/2026 às 12:40
Assista o vídeoBrent Hecht, diretor de Ciência Aplicada da Microsoft, e a sede do New York Times, em Nova York.
Brent Hecht, diretor de Ciência Aplicada da Microsoft, e a sede do New York Times, em Nova York. Foto: Reprodução/YouTube Valence e Reprodução/YouTube 9NEWS
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Um diretor da Microsoft escreveu, em documento interno, que a coleta de textos para treinar a inteligência artificial seria vista como “um roubo impressionante de proporções sem precedentes”; a frase veio a público em setembro de 2026, no processo em que o New York Times acusa a própria Microsoft e a OpenAI, dona do ChatGPT

Trecho do memorial do New York Times que atribui ao diretor de Ciência Aplicada da Microsoft as expressões "astonishing theft" e "largest theft of labor in human history".
Trecho do memorial do New York Times que atribui ao diretor de Ciência Aplicada da Microsoft as expressões “astonishing theft” e “largest theft of labor in human history”. Foto: Reprodução/CourtListener, Justiça Federal dos EUA

Brent Hecht, diretor de Ciência Aplicada da Microsoft, escreveu num documento interno que a coleta de textos para treinar a inteligência artificial seria vista como “um roubo impressionante de proporções sem precedentes”, e a frase ficou pública em 17 de setembro de 2026.

Ela não apareceu numa entrevista nem num palco, e sim no processo que o New York Times move desde dezembro de 2023 contra a OpenAI, dona do ChatGPT, e contra a Microsoft, parceira e investidora dela desde 2019.

O autor da frase trabalha justamente numa das empresas processadas, e o jornal fez questão de pôr as palavras dele logo na primeira linha do pedido que entregou ao juiz.

Procurada pela agência France Presse, a Microsoft respondeu que as declarações representam “a opinião pessoal de um funcionário” e “não refletem a posição da empresa”, relata o g1.

A frase do diretor da Microsoft, palavra por palavra

O documento é o memorial em que o New York Times e outros veículos pedem ao juiz federal Sidney Stein uma sentença sumária, isto é, uma decisão sem passar por julgamento, e a versão pública, com parte das tarjas pretas retiradas, está no CourtListener, o arquivo aberto de processos dos Estados Unidos.

Estas são as frases atribuídas a Hecht no memorial, em inglês e em tradução livre:

O que está no processo (inglês)Tradução
“millions of people around the world will soon consider large models ‘hoovering up’ all their work to be an astonishing theft of unprecedented proportions”“milhões de pessoas no mundo logo vão considerar os grandes modelos ‘aspirando’ todo o trabalho delas um roubo impressionante de proporções sem precedentes”
“largest theft of labor in human history”“maior roubo de trabalho da história da humanidade”
“almost no one intended for content they created to be used in this fashion, nor are they compensated for its use”“quase ninguém quis que o conteúdo que criou fosse usado desse jeito, nem é pago por esse uso”
“make a complete mockery of the idea of ‘fair use'”“transformar em piada completa a ideia de ‘uso legítimo'”
“accidental cover up”“acobertamento acidental”

No texto em inglês, o “perhaps” (possivelmente) vem fora das aspas, então quem escreve “perhaps the largest theft of labor in human history” são os advogados do jornal, e a expressão entre aspas é a que o memorial atribui ao diretor.

A primeira frase, lida inteira, também é uma previsão, porque nela, segundo o memorial, Hecht afirma como “milhões de pessoas” iriam enxergar os modelos de inteligência artificial devorando o trabalho delas.

Quem é o homem da Microsoft que virou peça do processo

Hecht não é um nome qualquer no assunto, e num vídeo publicado em dezembro de 2024 pelo canal da empresa Valence ele conta que entrou na Microsoft em 2019, vindo da Universidade Northwestern, onde era professor, com a missão de “inventar o futuro do trabalho”.

Brent Hecht apresenta os "cinco equívocos" sobre IA generativa em palestra publicada em dezembro de 2024.
Brent Hecht apresenta os “cinco equívocos” sobre IA generativa em palestra publicada em dezembro de 2024. Foto: Reprodução/YouTube Valence

Na palestra, ele apresenta “cinco equívocos” sobre a inteligência artificial generativa, e o quarto, escrito no slide, é a ideia de que a tecnologia seria “inerentemente ruim para quem vive de produzir conteúdo”.

Ele pula esse item por falta de tempo, mas resume o que pensa, dizendo que, para organizações e pessoas que fazem conteúdo, a IA generativa “pode ser um grande benefício, em vez de algo ameaçador”, um assunto que, contou, é “próximo do coração” e da pesquisa dele.

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O que o New York Times acusa a OpenAI e a Microsoft de fazer

O jornal afirma que as duas empresas copiaram “milhões” de reportagens inteiras, sem permissão, para criar produtos comerciais que substituem o próprio jornalismo, e que a OpenAI teria extraído conteúdo de mais de 10 milhões de artigos, quase um terço do Times, informa o g1.

O memorial detalha as alegações e diz que só os conjuntos de dados usados numa fase do treino chamada de “mid-training” têm mais de 91.692 cópias de obras dos autores da ação.

Outro conjunto, montado com dados de um projeto chamado Mango, teria cópias de pelo menos 160.903 obras dos veículos, e o jornal também acusa a OpenAI de retirar dos textos os avisos de direitos autorais antes do treino.

E tem a troca de mensagens mais citada nos Estados Unidos, de quando um pesquisador contou ao presidente da OpenAI, Greg Brockman, sobre “um truque para driblar o paywall do nytimes”, e a resposta registrada no memorial foi curta: “ah nice” (“ah, legal”).

Tudo isso, por enquanto, é acusação do jornal e dos outros veículos, porque nenhum juiz decidiu ainda se essas cópias violaram a lei.

A defesa da OpenAI e da Microsoft: o uso legítimo

A OpenAI e a Microsoft alegam que usar conteúdo do Times está amparado pelo “fair use”, o uso legítimo, uma exceção da lei americana de direitos autorais que permite usar obras sem consentimento em certas situações, relata o g1. As empresas também afirmam que treinar a IA transforma o conteúdo usado.

Placa da Microsoft, uma das rés no processo movido pelo New York Times.
Placa da Microsoft, uma das rés no processo movido pelo New York Times. Foto: Reprodução/YouTube 9NEWS

A Microsoft não ficou só na defesa, e em documento público de 18 de setembro de 2026 lista os fatos que, na visão dela, sustentam o próprio pedido de sentença sumária, com o “fair use” como primeiro argumento.

As empresas ganharam ainda um aliado de peso no início de setembro de 2026, quando o Departamento de Justiça dos Estados Unidos apresentou parecer a favor das duas, citando o “progresso científico”, o crescimento econômico e a “segurança nacional”, informa o g1.

Cliques até 93% menores: o “círculo vicioso” que a própria Microsoft mediu

O ponto que mais pesa contra o “fair use” é a substituição, porque se o robô entrega a notícia o leitor não vai ao jornal, e segundo o memorial a Microsoft mediu isso.

Segundo os dados da empresa citados pelo jornal, o Copilot derrubou de 83% a 93% os cliques para os sites do Times e do Daily News, em comparação com a busca tradicional do Bing, e nos sites do grupo Ziff Davis a queda foi de 51% a 94%.

Na prática, onde a busca comum mandava 100 cliques para o jornal, a resposta do Copilot mandava de 7 a 17.

Um documento que o memorial atribui a Hecht deu nome ao fenômeno: “Nossa estratégia de conteúdo para IA iniciou um ‘círculo vicioso’ que vai prejudicar o desempenho dos nossos modelos e da web inteira ao mesmo tempo”, diz o texto citado.

Até o Google entrou na conta, já que um especialista contratado pela OpenAI afirmou, com base num estudo do Instituto Reuters de 2026, que as visitas enviadas a sites de notícias pelo Google Discover caíram de mais de 5 bilhões por mês para menos de 4 bilhões depois dos resumos feitos por inteligência artificial.

Linha do tempo da briga do New York Times com a inteligência artificial da OpenAI

  • 2019: a Microsoft faz o primeiro investimento na OpenAI;
  • fim de 2022: o ChatGPT é lançado;
  • 27/12/2023: o New York Times entra com a ação num tribunal federal de Nova York;
  • março e abril de 2025: o juiz Sidney Stein rejeita a maior parte dos pedidos para arquivar o caso;
  • abril de 2025: os processos contra a OpenAI são reunidos num só, o 25-md-3143;
  • 13/05/2025: a juíza Ona Wang manda a OpenAI guardar os registros de conversas que seriam apagados;
  • 09/10/2025: termina a obrigação de guardar novos registros;
  • 07/11/2025: a juíza manda entregar 20 milhões de registros de conversas do ChatGPT, sem identificação dos usuários;
  • início de setembro de 2026: o Departamento de Justiça apoia as empresas;
  • 04/09/2026: o jornal e outros veículos pedem sentença sumária;
  • 17/09/2026: sai a versão pública do memorial com as frases de Hecht.

O que está em jogo: bilhões de dólares e o próprio modelo de inteligência artificial

Na ação original, de dezembro de 2023, o New York Times diz querer responsabilizar as empresas pelos “bilhões de dólares” em indenizações que estariam devendo pela cópia de suas obras.

O pedido final da ação vai além do dinheiro, porque o jornal pede que a Justiça mande destruir todos os modelos GPT e conjuntos de treino que incorporem obras do Times.

No memorial de setembro, os veículos pedem indenização separada para cada artigo usado, e o valor total ainda não está claro, informa o g1, mas a lei americana prevê de US$ 750 a US$ 30 mil por obra, e até US$ 150 mil quando a violação é intencional.

O que muda para quem usa ChatGPT e Copilot no Brasil

O processo corre nos Estados Unidos e será decidido pela lei americana, e a decisão do juiz Stein sobre o pedido de sentença sumária não é esperada antes de 2027, relata o g1.

Tela do ChatGPT exibida em reportagem sobre o processo do New York Times.
Tela do ChatGPT exibida em reportagem sobre o processo do New York Times. Foto: Reprodução/YouTube 9NEWS

Mas o caso já esbarrou no dia a dia de quem conversa com robôs. Por ordem da juíza Ona Wang, a OpenAI teve de guardar, entre maio e outubro de 2025, registros de conversas do ChatGPT que seriam apagados, e depois foi mandada entregar 20 milhões deles, sem identificação, aos advogados dos jornais.

O Brasil tem a sua própria briga, já que a Folha de S.Paulo processou a OpenAI na Justiça de São Paulo em agosto de 2025, acusando o ChatGPT de usar reportagens sem autorização e sem pagamento.

Por aqui a regra ainda não saiu do papel, e o projeto de lei 2338/2023, que regula a inteligência artificial e trata de remuneração a quem tem obras usadas no treino, passou pelo Senado em dezembro de 2024 e, em setembro de 2026, aguardava parecer na Câmara.

A reportagem de TV e o post que espalharam o documento

O caso começou a ganhar o noticiário em dezembro de 2023, quando emissoras americanas mostraram a sede do New York Times, em Nova York, e explicaram o que o jornal pedia contra a OpenAI e a Microsoft.

Post de Jason Kint no X, em 17 de setembro de 2026, com o trecho do memorial que cita o diretor da Microsoft.
Post de Jason Kint no X, em 17 de setembro de 2026, com o trecho do memorial que cita o diretor da Microsoft. Foto: Reprodução/X @jason_kint
Assista o vídeo
Vídeo do YouTube

Quase três anos após a ação, em 17 de setembro de 2026, foi um post no X que fez o memorial circular, quando Jason Kint, executivo-chefe da Digital Content Next, associação de editores digitais, publicou o trecho com a frase de Hecht destacada em rosa.

https://x.com/jason_kint/status/2100611139906228629

A frase do diretor da Microsoft agora está nos autos, a Microsoft diz que ela não fala pela empresa e a OpenAI se apoia no “fair use”. Quem decide se foi roubo ou uso legítimo é o juiz Sidney Stein, e a resposta dele só deve vir em 2027.

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