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Depois de colocar um projeto de R$ 5 bilhões na mesa em São Paulo, empresa vê o Ibama barrar a maior termelétrica do Brasil em impasse ambiental que enterra uma usina de 1,74 GW e expõe o custo da energia firme no país

Escrito por Alisson Ficher
Publicado em 09/06/2026 às 15:51
Atualizado em 09/06/2026 às 15:53
Ibama barra UTE São Paulo, projeto de R$ 5 bilhões em Caçapava, e reacende debate sobre energia firme e impacto ambiental.
Ibama barra UTE São Paulo, projeto de R$ 5 bilhões em Caçapava, e reacende debate sobre energia firme e impacto ambiental.
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Projeto bilionário no Vale do Paraíba reacende o debate sobre energia firme, licenciamento ambiental e limites para novas usinas a gás natural no Brasil, após decisão do Ibama interromper uma termelétrica de grande porte antes mesmo do início das obras.

O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis negou, em 21 de janeiro de 2026, a licença prévia da Usina Termelétrica São Paulo, planejada para Caçapava, no Vale do Paraíba paulista.

Com investimento previsto de cerca de R$ 5 bilhões e capacidade instalada de 1,74 GW, o empreendimento teve o processo de licenciamento encerrado após o órgão apontar insuficiência nos estudos ambientais apresentados pela empresa responsável.

A decisão atingiu um dos maiores projetos térmicos previstos para o Brasil e travou, ainda na fase inicial, a tentativa de instalar uma usina a gás natural em uma região estratégica entre São Paulo e Rio de Janeiro.

Pelo porte anunciado, a UTE São Paulo era tratada como uma das maiores termelétricas do país e poderia superar unidades já em operação na América Latina.

Na prática, a licença prévia funciona como a etapa que avalia a viabilidade ambiental de um empreendimento antes da construção.

Essa autorização não libera obras, mas define condições para que o projeto avance às fases seguintes do licenciamento, como instalação e operação.

Sem esse aval inicial, a usina não pôde seguir dentro do processo federal analisado pelo Ibama.

O veto teve como ponto central a falta de complementações consideradas necessárias para a avaliação ambiental.

Segundo a Agência Brasil, o Ibama informou que a empresa não apresentou o Estudo de Impacto Ambiental e o Relatório de Impacto Ambiental completos, mesmo após dois pedidos de complementação feitos pelo órgão.

Além da discussão técnica, a negativa encerrou um processo marcado por mobilização local, questionamentos jurídicos e pressão de entidades ambientais.

Em Caçapava, organizações civis, conselhos municipais e grupos da região criticavam o projeto por possíveis impactos sobre emissões, consumo de água, qualidade do ar e saúde da população.

Ibama aponta falhas nos estudos ambientais da UTE São Paulo

Movida a gás natural, a UTE São Paulo teria como função gerar energia para o Sistema Interligado Nacional, responsável pelo abastecimento da maior parte do país.

Usinas térmicas desse tipo costumam ser acionadas para dar segurança ao sistema em períodos de menor geração hidrelétrica, solar ou eólica.

Para avançar, porém, um empreendimento desse porte precisa demonstrar, com documentação técnica suficiente, quais seriam seus impactos e quais medidas seriam adotadas para reduzi-los.

No caso da usina de Caçapava, o Ibama concluiu que as informações apresentadas não permitiam declarar a viabilidade ambiental do projeto.

A decisão se apoiou nas regras do licenciamento ambiental federal e na necessidade de complementação dos estudos exigidos durante a análise.

Prevista na Resolução Conama nº 237/1997, a avaliação estabelece etapas, prazos e procedimentos para empreendimentos capazes de causar impactos relevantes ao meio ambiente.

Ao negar a licença, o Ibama não considerou apenas o tamanho da obra ou o volume de investimento anunciado.

Para o órgão, a ausência de informações técnicas completas impedia a continuidade do processo, sobretudo em um projeto com potencial de afetar municípios do Vale do Paraíba.

Disputa judicial já pressionava o licenciamento da termelétrica

Antes do indeferimento definitivo, o licenciamento da termelétrica já havia sido suspenso pela Justiça Federal.

Em 31 de janeiro de 2024, a 3ª Vara Federal de São José dos Campos determinou a paralisação do procedimento administrativo e impediu a realização de audiência pública sobre o empreendimento.

A ação foi proposta pelo Ministério Público Federal e apontava problemas no processo, incluindo a ausência de certidão regular de uso e ocupação do solo.

Também foi citada a necessidade de considerar municípios que poderiam ser impactados pela usina, como Monteiro Lobato, Pindamonhangaba, Taubaté, Tremembé e Santo Antônio do Pinhal.

Com a decisão judicial, a audiência pública prevista para aquele momento acabou cancelada.

Na avaliação do MPF, a discussão sobre a usina não poderia ficar restrita a Caçapava se os efeitos ambientais e sociais pudessem alcançar outras localidades da região.

A controvérsia também passou pela legislação municipal antes de chegar ao desfecho no licenciamento federal.

Em outubro de 2022, a Câmara de Caçapava alterou regras de zoneamento e proibiu a instalação de usinas termelétricas no município.

Posteriormente, uma decisão liminar em ação direta de inconstitucionalidade permitiu novamente a possibilidade de empreendimentos desse tipo.

Com isso, o projeto permaneceu em discussão até a análise final do Ibama.

Vale do Paraíba concentra reação ao projeto a gás natural

A localização da usina ampliou a repercussão do caso e ajudou a transformar o licenciamento em uma disputa regional.

Caçapava fica no Vale do Paraíba, área com forte presença industrial, adensamento urbano e proximidade com a Serra da Mantiqueira, além de conexão direta com importantes corredores logísticos entre São Paulo e Rio de Janeiro.

Por esse contexto, a discussão ultrapassou a relação entre empresa e órgão ambiental.

Organizações locais e regionais alegavam que um projeto térmico desse porte poderia afetar a qualidade de vida de moradores de diferentes municípios, especialmente pela emissão de poluentes, pressão sobre recursos hídricos e efeitos acumulados em uma região já urbanizada.

Segundo a Agência Brasil, entidades como o Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental, o Conselho Municipal do Meio Ambiente de Caçapava, o Sindicato Nacional dos Servidores Públicos Federais na Área de Ciência e Tecnologia do Setor Aeroespacial e o Fórum Permanente em Defesa da Vida se posicionaram contra o projeto.

A Frente Ambientalista do Vale do Paraíba Paulista também comemorou a decisão do Ibama.

Procurada pela Agência Brasil, a Natural Energia, apontada como responsável pelo projeto, não havia se manifestado até a publicação da reportagem.

Dessa forma, a posição pública da companhia permaneceu limitada aos documentos apresentados no processo de licenciamento e às etapas administrativas já analisadas pelo órgão ambiental.

Energia firme entra no centro da transição energética

O caso expõe uma tensão crescente no setor elétrico brasileiro.

De um lado, termelétricas a gás natural são defendidas como fonte de energia firme, capaz de sustentar o sistema quando hidrelétricas, eólicas e solares produzem abaixo do esperado.

De outro, projetos fósseis enfrentam resistência por causa das emissões e dos impactos locais.

Com a expansão das fontes renováveis, o país passou a discutir com mais intensidade como garantir abastecimento em momentos de baixa geração variável.

Ainda assim, a construção de novas térmicas exige avaliação ambiental rigorosa, especialmente quando o projeto envolve grande potência, infraestrutura de abastecimento e operação em área densamente ocupada.

No caso da UTE São Paulo, o Ibama não autorizou o avanço porque entendeu que os estudos disponíveis não respondiam de forma suficiente às exigências técnicas.

A decisão transformou um empreendimento regional em referência nacional sobre os limites do licenciamento de grandes obras de energia.

Também fica evidente, a partir do veto, que investimento bilionário e capacidade elevada não bastam para garantir aprovação ambiental.

Sem estudos completos, consulta adequada e demonstração de viabilidade, empreendimentos estratégicos podem ficar pelo caminho antes mesmo do início das obras.

A UTE São Paulo reunia alguns dos pontos mais sensíveis da transição energética brasileira, como segurança do abastecimento, gás natural, licenciamento, judicialização, resistência local e metas ambientais.

Com o arquivamento do processo, o projeto deixa de avançar, enquanto permanece aberta a discussão sobre como o país deve equilibrar geração firme, proteção ambiental e novos investimentos em energia.

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Alisson Ficher

Jornalista formado desde 2017 e atuante na área desde 2015, com seis anos de experiência em revista impressa, passagens por canais de TV aberta e mais de 12 mil publicações online. Especialista em política, empregos, economia, cursos, entre outros temas e também editor do portal CPG. Registro profissional: 0087134/SP. Se você tiver alguma dúvida, quiser reportar um erro ou sugerir uma pauta sobre os temas tratados no site, entre em contato pelo e-mail: alisson.hficher@outlook.com. Não aceitamos currículos!

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