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Depois de chegar a Brasília aos 17 anos e passar noites na Rodoviária, homem estuda em escola pública, entra em Direito, se forma, é aprovado na OAB e diz que agora quer ser defensor público

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Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges Publicado em 12/08/2026 às 08:51 Atualizado em 12/08/2026 às 08:52
Ele chegou a Brasília aos 17 anos, dormiu na Rodoviária e viveu de esmolas; em maio de 2022 recebeu a carteira da OAB e quer ser defensor público.
Ele chegou a Brasília aos 17 anos, dormiu na Rodoviária e viveu de esmolas; em maio de 2022 recebeu a carteira da OAB e quer ser defensor público.
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Ele foi criado pelos avós no interior de Minas, veio para o Distrito Federal sozinho e dividiu a adolescência entre a sala de aula em Samambaia e as madrugadas na Rodoviária do Plano Piloto. Nove anos depois de viver de esmolas ali, recebeu a carteira de advogado.

Walison dos Reis Pereira da Silva, de 35 anos, foi aprovado no exame da Ordem dos Advogados do Brasil e recebeu a carteira de advogado em maio de 2022, nove anos depois de viver de esmolas na Rodoviária do Plano Piloto, em Brasília, conforme reportagem publicada pelo portal Metrópoles. Ele cursou Direito em faculdade particular com financiamento integral obtido a partir da nota do Enem.

A trajetória até esse diploma começou longe do Distrito Federal e sem nenhuma estrutura de apoio. Criado pelos avós no interior de Minas Gerais, ele chegou a Brasília aos 17 anos em busca de um futuro melhor e passou a dividir a rotina entre a escola da rede pública, em Samambaia, e as madrugadas mal dormidas na rodoviária do centro da capital.

As madrugadas na Rodoviária e a aula de onde foi expulso

O relato que ele faz desse período é curto e direto. Vivia de esmolas na Rodoviária do Plano Piloto e frequentava a escola pública durante o dia, sem que os colegas ou os professores soubessem em que condições ele passava as noites.

Um episódio específico ficou marcado. Durante uma aula, um professor disse a ele que estava fedendo e pediu que se retirasse da sala. Walison conta que muitos não sabiam das dificuldades que ele enfrentava nem que morava na rua, e o constrangimento aconteceu diante da turma inteira, sem que ninguém ali tivesse ideia do que estava por trás daquilo.

A Rodoviária do Plano Piloto é o principal terminal de transporte do Distrito Federal, ponto de conexão entre a área central de Brasília e as cidades do entorno, e concentra desde os anos 1960 um fluxo diário de centenas de milhares de pessoas. É também um dos locais com maior presença de população em situação de rua na capital federal, o que dá dimensão ao ambiente em que ele passou a adolescência.

O Enem que abriu a porta da faculdade

Ele chegou a Brasília aos 17 anos, dormiu na Rodoviária e viveu de esmolas; em maio de 2022 recebeu a carteira da OAB e quer ser defensor público.
Ele chegou a Brasília aos 17 anos, dormiu na Rodoviária e viveu de esmolas; em maio de 2022 recebeu a carteira da OAB e quer ser defensor público.

A virada veio pelo caminho formal, sem atalho. Depois de concluir a Educação de Jovens e Adultos, modalidade destinada a quem não terminou os estudos na idade regular, Walison prestou o Exame Nacional do Ensino Médio.

O resultado que garantiu a entrada dele no ensino superior veio de uma prova específica. Ele foi bem na redação, e essa nota assegurou financiamento integral do valor da mensalidade em uma faculdade particular. Sem esse financiamento, não haveria curso de Direito, porque não existia possibilidade de arcar com mensalidade de uma graduação de seis anos vivendo de esmolas.

A escolha do curso não foi acidental, e ele explicaria depois qual era o objetivo por trás dela. A intenção declarada era trabalhar com quem passa pelo mesmo tipo de situação que ele enfrentou.

O quartinho de fundo e os bicos que pagaram o aluguel

O ingresso na faculdade, em 2013, coincidiu com a saída das ruas, e as duas coisas estão diretamente ligadas. A partir dali, Walison passou a alugar um quarto nos fundos de uma casa para dormir, deixando a Rodoviária para trás depois de anos passando as noites por lá.

O sustento vinha de trabalho informal encaixado nos intervalos das aulas. Ele fazia bicos na rua, entregava panfletos e usava o que ganhava para pagar a moradia, enquanto cumpria a carga horária de um curso que exige leitura pesada e presença regular. A mensalidade estava resolvida pelo financiamento, mas comer e ter onde dormir continuavam sendo problema dele todos os meses.

Foi assim durante os anos de graduação, até que em 2019 ele concluiu o curso de Direito. A colação de grau aconteceu em 2020, já sob o impacto da pandemia de covid-19, que naquele ano suspendeu ou adiou cerimônias e atividades presenciais em todo o país.

O processo judicial que apareceu no meio do caminho

Ele chegou a Brasília aos 17 anos, dormiu na Rodoviária e viveu de esmolas; em maio de 2022 recebeu a carteira da OAB e quer ser defensor público.
Ele chegou a Brasília aos 17 anos, dormiu na Rodoviária e viveu de esmolas; em maio de 2022 recebeu a carteira da OAB e quer ser defensor público.

Entre a colação de grau e a aprovação no exame da Ordem, surgiu um obstáculo que poderia ter encerrado o projeto inteiro. Walison teve o nome envolvido em um processo na Justiça durante o período em que se preparava para a prova.

A situação foi resolvida com a comprovação da inocência dele, e o inquérito acabou arquivado. O detalhe é decisivo porque a inscrição nos quadros da Ordem exige idoneidade, e uma pendência criminal em aberto pode barrar o registro de quem passou no exame. Não bastava ser aprovado na prova: era preciso chegar limpo ao pedido de inscrição, e foi isso que o arquivamento permitiu.

Superada essa etapa, ele voltou a se dedicar à preparação. A aprovação no exame da Ordem dos Advogados do Brasil saiu em 12 de janeiro de 2022.

A carteira recebida em maio de 2022

Ele chegou a Brasília aos 17 anos, dormiu na Rodoviária e viveu de esmolas; em maio de 2022 recebeu a carteira da OAB e quer ser defensor público.
Ele chegou a Brasília aos 17 anos, dormiu na Rodoviária e viveu de esmolas; em maio de 2022 recebeu a carteira da OAB e quer ser defensor público.

Com a aprovação garantida e a situação judicial resolvida, Walison pediu a inscrição junto à Ordem e recebeu a carteira de advogado em maio de 2022, em cerimônia acompanhada por familiares.

O relato dele sobre o momento é de conquista concluída. Ele afirmou que, a partir dali, era advogado, e comemorou ter recebido o documento depois de todo o percurso. Entre a chegada a Brasília aos 17 anos e aquela carteira nas mãos passaram-se cerca de 18 anos, dos quais os primeiros foram vividos na rua.

A distância entre os dois pontos aparece com clareza quando se olha o endereço. O terminal onde ele pedia dinheiro para comer fica a poucos quilômetros dos tribunais superiores e da sede da própria Ordem, no eixo central da capital federal, e é o mesmo lugar por onde ele passou a transitar como profissional inscrito.

O que ele disse que pretende fazer

Ele chegou a Brasília aos 17 anos, dormiu na Rodoviária e viveu de esmolas; em maio de 2022 recebeu a carteira da OAB e quer ser defensor público.
Ele chegou a Brasília aos 17 anos, dormiu na Rodoviária e viveu de esmolas; em maio de 2022 recebeu a carteira da OAB e quer ser defensor público.

O plano declarado por Walison na ocasião não era de carreira privada. Ele afirmou que queria ajudar pessoas que, como ele, tiveram os direitos violados na Rodoviária, e disse que voltar àquele lugar é difícil porque traz de volta a lembrança do período que viveu ali.

Os cargos que ele mencionou como objetivo estão na esfera pública. Ele citou a intenção de se tornar promotor de Justiça e defensor público, duas carreiras acessíveis por concurso e que exigem preparação específica de vários anos. São funções distintas, mas com um ponto em comum que explica a escolha: ambas atuam na defesa de interesses coletivos e de pessoas em situação de vulnerabilidade, e a Defensoria Pública tem como atribuição constitucional justamente a assistência jurídica gratuita a quem não pode pagar por um advogado.

Na data da reportagem, ele estava em busca de emprego, recém-inscrito na Ordem e sem colocação definida.

Casos parecidos e o caminho que os une

A trajetória dele não é isolada no Distrito Federal, e outras histórias com o mesmo ponto de partida apareceram na capital nos últimos anos. Uma ex-moradora de rua da região foi aprovada em Letras na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, outra criou uma rede de apoio a pessoas em vulnerabilidade durante a pandemia, e uma diarista ingressou na Universidade de Brasília aos 62 anos.

O elemento comum entre esses percursos é a porta de entrada. Em todos eles, o acesso ao ensino superior passou por modalidades voltadas a quem ficou fora da escola na idade regular, como a Educação de Jovens e Adultos, ou por mecanismos de financiamento e ingresso vinculados à nota do Enem. São exatamente os dois instrumentos que permitiram a Walison sair da Rodoviária para a sala de aula de Direito, e sem eles a graduação estaria fora de alcance para alguém sem renda, sem endereço fixo e sem ensino médio concluído.

E você, acha que a rede pública e os programas de financiamento dão conta de abrir esse caminho para quem começa da estaca zero, ou histórias assim só acontecem quando alguém faz um esforço fora do comum? Conta nos comentários o que você pensa sobre isso.

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Neli
Neli
12/08/2026 09:23

Que tudo é possível qdo se tem Fé, foco e determinação.

Maria
Maria
12/08/2026 09:10

Quando a pessoa tem um propósito, nenhum obstáculo a desanima. E tendo uma ajuda, como os programas de financiamento, fica melhor.

Maria Heloisa Barbosa Borges

Falo sobre construção, mineração, minas brasileiras, petróleo e grandes projetos ferroviários e de engenharia civil. Diariamente escrevo sobre curiosidades do mercado brasileiro.

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