Aos 19 anos, Matheus Gabriel deixou o emprego para tentar Medicina, conciliou ensino médio público, técnico em Eletroeletrônica e cursinho, estudou nos ônibus e resolveu pelo menos 7 mil questões antes de conquistar vagas na USP e na Unicamp.
Aos 19 anos, Matheus Gabriel encerrou 2024 acumulando três compromissos que, isoladamente, já exigiriam uma rotina pesada: precisava concluir o ensino médio, finalizar o curso técnico em Eletroeletrônica e frequentar um cursinho preparatório para Medicina. Estudante do Colégio Técnico de Campinas, o Cotuca, instituição pública ligada à Unicamp, ele ainda havia deixado um emprego na CPFL para concentrar o ano na tentativa de entrar no curso que queria.
A estratégia terminou com duas aprovações. Matheus conquistou Medicina na USP pela Fuvest e Medicina na Unicamp pelo Provão Paulista. Durante a preparação, estudava em casa pela manhã, passava a tarde no cursinho, fazia ensino médio e técnico à noite, aproveitava trajetos de ônibus para resolver exercícios e estima ter completado pelo menos 7 mil questões de vestibulares.
Matheus deixou emprego na CPFL porque Medicina precisava acontecer naquele ano
Antes de concentrar a rotina no vestibular, Matheus estava empregado na CPFL, distribuidora de energia com atuação na região de Campinas.
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A decisão tomada para 2024 foi deixar o trabalho e utilizar o tempo disponível na preparação para Medicina enquanto terminava sua formação técnica.
O estudante explicou ao Guia do Estudante que não poderia manter indefinidamente os gastos relacionados a cursinho e vestibulares às custas da família. Por isso, enxergava aquele ano como uma tentativa decisiva: caso não conseguisse a aprovação, pretendia voltar a trabalhar e continuar prestando o Enem.
A escolha aumentou a pressão sobre o resultado. Diferentemente de candidatos que passam vários anos exclusivamente em cursinhos, Matheus precisava alcançar a vaga enquanto concluía também a formação regular que já havia iniciado no Cotuca.
Ensino médio e técnico em Eletroeletrônica ocupavam as noites até as 23h
Matheus estudava no Colégio Técnico de Campinas, o Cotuca, instituição pública vinculada à Universidade Estadual de Campinas. O próprio colégio confirma que seu ensino médio é oferecido de forma integrada aos cursos técnicos, incluindo Eletroeletrônica.
No caso dele, ensino médio e curso técnico eram realizados no período noturno. Depois de passar a tarde no cursinho, Matheus caminhava aproximadamente 2 quilômetros até o Cotuca, onde permanecia das 19h às 23h.

Além das disciplinas regulares, precisava concluir as atividades técnicas e o Trabalho de Conclusão de Curso.
Em meio à preparação para Medicina, participou ainda de uma viagem escolar para estudar a Usina Hidrelétrica de Itaipu e terminou o TCC do técnico em uma rotina que ele próprio descreveu como apertada.
Dia começava às 6h e incluía um circuito de ônibus entre casa, cursinho e escola
A preparação começava cedo. Matheus normalmente acordava entre 6h e 7h, estudava em casa até o meio-dia e fazia uma pausa para almoçar. Depois começava o deslocamento que ele chamava de “circuito dos ônibus”.
Pegava um ônibus até o centro de Campinas e depois outro em direção ao cursinho Oficina do Estudante. As aulas preparatórias ocupavam o período das 14h às 18h. Em seguida, fazia o percurso de aproximadamente 2 quilômetros a pé até o Cotuca.
Às 23h, depois das aulas do ensino médio e do técnico, finalmente iniciava o retorno para casa. A sequência era repetida durante a semana enquanto o estudante tentava impedir que as obrigações escolares e a preparação para Medicina competissem entre si.
Ônibus também virou lugar para resolver questões de vestibular
Com poucas janelas livres ao longo do dia, Matheus passou a aproveitar os próprios deslocamentos. A reportagem que documentou sua preparação registra que ele estudava nos trajetos de ônibus entre um compromisso e outro.
A prioridade era resolver questões. Matheus fez praticamente todas as provas que conseguiu reunir de Fuvest, Unicamp, Unesp e EsPCEx desde 2014, além das provas regulares e versões para pessoas privadas de liberdade do Enem referentes aos 12 anos anteriores.
Ao final da preparação, calculou ter respondido pelo menos 7 mil questões. O número é uma estimativa do próprio estudante, não uma contagem oficial feita pelas universidades, mas demonstra a escala do método que utilizou durante aquele ano.
Questões erradas eram guardadas para serem refeitas uma semana depois
Resolver milhares de exercícios não significava simplesmente acumular provas. Matheus mantinha no computador uma pasta com capturas de tela das questões que havia errado ou que não conseguira solucionar.
Depois de aproximadamente uma semana, retornava àquele material e tentava novamente encontrar a resposta. Assim, as questões que apresentavam maior dificuldade voltavam periodicamente à rotina em vez de desaparecerem depois da correção inicial.
O estudante considerava esse sistema mais importante para sua preparação do que dedicar grande parte do tempo à produção de resumos extensos. Sua estratégia ficou concentrada em identificar padrões das provas, resolver exercícios e revisar repetidamente os erros.
Em algumas noites, estudos avançavam até 2h ou 3h da madrugada
Nem sempre o cronograma terminava quando Matheus chegava em casa. Em períodos nos quais conteúdos do curso técnico ou do vestibular começavam a acumular, ele prolongava os estudos pela madrugada.
Segundo seu relato, em algumas ocasiões continuava estudando até 2h ou 3h da manhã. Poucas horas depois, o dia recomeçava entre 6h e 7h, antes de outra sequência de estudos em casa, ônibus, cursinho e Cotuca.
O próprio Matheus fez questão de não apresentar essa carga como modelo ideal. Na entrevista concedida após as aprovações, afirmou que não recomendava a mesma rotina para outras pessoas e reconheceu o desgaste provocado pela quantidade de atividades concentradas no período.
Aprovação na USP veio pela Fuvest e vaga na Unicamp pelo Provão Paulista
Quando os processos seletivos terminaram, Matheus conseguiu duas vagas em Medicina. A primeira informação publicada sobre sua trajetória chegou a atribuir incorretamente mais de uma aprovação na USP, mas a reportagem foi posteriormente corrigida.
A versão corrigida estabelece que ele foi aprovado em Medicina na USP exclusivamente pela Fuvest. Pelo Provão Paulista, processo voltado aos estudantes da rede pública paulista, a aprovação obtida foi em Medicina na Unicamp.
Assim, o aluno que havia deixado o emprego para concentrar aquele ano no vestibular terminou o ensino médio com duas possibilidades em universidades públicas paulistas. O resultado chegou antes que precisasse executar seu plano alternativo de voltar ao mercado de trabalho e continuar tentando pelo Enem.
Aos 19 anos, aprovação encerrou um ano dividido entre três formações
Aos 19 anos, Matheus conseguiu as vagas no mesmo período em que concluía o ensino médio e a formação técnica em Eletroeletrônica. O Cotuca estabelece que, na modalidade integrada, o estudante precisa completar todo o currículo para receber a certificação correspondente.
Sua preparação reuniu números concretos: cursinho das 14h às 18h, Cotuca das 19h às 23h, cerca de 2 quilômetros caminhando entre os dois locais, estudos que algumas vezes avançavam até 2h ou 3h e pelo menos 7 mil questões resolvidas ao longo da preparação.
No final, a decisão de interromper o emprego para tentar Medicina produziu duas aprovações. Matheus saiu de uma rotina dividida entre ônibus, cursinho, ensino médio e formação técnica com vagas na Universidade de São Paulo e na Universidade Estadual de Campinas, encerrando aos 19 anos o ano que havia definido como decisivo para tentar o curso.
