Depois de crescer em uma família marcada pelo trabalho informal, Aragonê Fernandes começou a estudar para concursos aos 16 anos, enfrentou uma classificação em 1.789º lugar, passou por sucessivas reprovações e conciliou trabalho, aulas e estudos de madrugada antes de chegar à magistratura do Distrito Federal.
Aragonê Nunes Fernandes cresceu em Brasília, foi criado em Ceilândia e começou cedo a conviver com o trabalho informal. Filho de um taxista e de uma sacoleira, vendeu cachorro-quente, picolé, marmitas, roupas e sapatos antes de construir uma trajetória profissional dentro do serviço público.
Aos 16 anos, começou a estudar para concursos. Uma das primeiras experiências terminou no 1.789º lugar, mas a sequência continuou com passagens pelo IBGE, Caesb e STJ, até que o próprio salário obtido no serviço público ajudou a pagar sua faculdade particular de Direito.
Segundo relatos do próprio Aragonê e informações publicadas pelo TJDFT e pelo Migalhas, a etapa seguinte incluiu reprovações para diferentes carreiras jurídicas, uma eliminação no concurso do TST e uma rotina em que trabalhava no Judiciário, dava aulas e reservava o período entre meia-noite e 2h para estudar. Em 2012, terminou em 5º lugar no concurso para juiz substituto do Distrito Federal.
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Aragonê Fernandes cresceu em Ceilândia e trabalhou desde cedo

Filho de pais paraibanos que migraram para Brasília em busca de oportunidades, Aragonê é o quarto de cinco irmãos e cresceu em uma família que enfrentava instabilidade financeira e dependia também de atividades informais.
Ainda criança, trabalhou vendendo diferentes produtos, entre eles cachorro-quente, picolé, marmitas, roupas e sapatos. O TJDFT registra especificamente que ele atuava em uma barraca de cachorro-quente e juntava dinheiro enquanto alimentava o objetivo de se tornar advogado.
A mudança de perspectiva dentro de casa começou quando a irmã mais velha conseguiu aprovação em um concurso dos Correios e passou a ter salário regular, assistência médica e outros benefícios que até então não faziam parte da realidade da família.
Concurso público entrou na rotina após aprovação da irmã
Ao observar a mudança provocada pelo emprego da irmã, Aragonê passou a enxergar o concurso público como uma possibilidade concreta de alcançar estabilidade e começou a estudar aos 16 anos.
Em uma das primeiras tentativas para técnico judiciário do TJDFT, acreditava que poderia terminar entre os dez primeiros. O resultado, porém, colocou seu nome na posição 1.789, enquanto a própria mãe, que estudava pelas apostilas dele em casa, ficou quase mil colocações à frente.
IBGE, Caesb e STJ vieram depois das primeiras tentativas
Depois daquele resultado, Aragonê intensificou os estudos e conseguiu uma contratação temporária como recenseador do IBGE aos 18 anos, embora tenha permanecido apenas dois dias no trabalho.
Meses depois, foi aprovado para a Caesb, onde permaneceu cerca de dois anos. Na sequência, disputou concurso para técnico do Superior Tribunal de Justiça e terminou em 76º lugar, classificação que abriu caminho para sua entrada no STJ.
Já trabalhando no tribunal, começou uma faculdade particular de Direito. Como inicialmente tinha pouco dinheiro disponível, cursava menos disciplinas e calculava que precisaria de oito anos para concluir a graduação, mas conseguiu terminar o curso em seis.
Chave esquecida no bolso terminou em eliminação no TST
Com o diploma, Aragonê retomou os concursos. Já havia sido reprovado para analista do MPU e na etapa discursiva do TSE quando dedicou aproximadamente um ano à preparação para uma seleção do Tribunal Superior do Trabalho.
Durante a prova, saiu para ir ao banheiro e passou por um detector de metais com a chave do carro esquecida no bolso. O controle eletrônico acionou o equipamento e ele acabou eliminado do concurso, mesmo depois de meses de preparação.
Depois dessa tentativa, conseguiu aprovação para analista do STF e continuou trabalhando no STJ como assessor de ministro, situação que aprofundou seu contato com a atividade jurídica e antecedeu a decisão de disputar concursos para juiz, promotor e defensor público.
Trabalho, aulas e estudos da meia-noite às 2h marcaram nova fase
Foi durante a preparação para essas carreiras que a rotina passou a reunir diferentes jornadas. Aragonê trabalhava em tempo integral no Judiciário, dava aulas em cursos preparatórios e deixava para estudar quando o restante do dia já havia terminado.
O período reservado aos livros ia da meia-noite às 2h da madrugada, rotina que, segundo o Migalhas, provocou privação de sono, cansaço acumulado e episódios frequentes de enxaqueca.
As reprovações continuaram. Ele não passou para promotor em Sergipe, Rondônia, São Paulo e Goiás, para defensor na DPU e para juiz na Paraíba. Ao mesmo tempo, conseguiu aprovação para o MPDFT, para a Defensoria Pública do Rio Grande do Sul e para a magistratura do Distrito Federal.
5º lugar colocou Aragonê entre os aprovados para juiz do Distrito Federal
Em 19 de junho de 2012, o TJDFT homologou o resultado do concurso público para juiz de Direito substituto. Vinte e oito candidatos haviam superado as cinco fases da seleção.
Na classificação oficial, Aragonê Nunes Fernandes apareceu em 5º lugar, atrás de quatro candidatos e à frente dos outros 23 nomes aprovados naquela seleção.
Antes de assumir a magistratura, ele também havia sido aprovado e chamado pelo MPDFT, onde permaneceu por cerca de dois meses. A escolha final manteve Aragonê no Distrito Federal, local onde havia nascido e onde vivia sua família.
Magistratura abriu caminho para projeto ligado à educação

A chegada ao cargo de juiz encerrou uma etapa de concursos marcada tanto pelas aprovações quanto pelas derrotas acumuladas desde os 16 anos, quando Aragonê começou a buscar uma vaga no serviço público.
Aquela sequência havia incluído o 1.789º lugar em uma das primeiras tentativas, trabalhos no IBGE e na Caesb, aprovação em 76º para técnico do STJ, faculdade paga com o salário, eliminação no TST e novas disputas para diferentes carreiras jurídicas.
A educação também permaneceu ligada à sua trajetória depois da magistratura. Além de atuar como professor, Aragonê criou uma iniciativa voltada à distribuição de material escolar para crianças em situação de vulnerabilidade do Distrito Federal e do entorno.
O projeto cresceu e passou a funcionar por meio do Instituto Sai Pobreza. Em 2026, 7,8 mil famílias foram beneficiadas, enquanto o total distribuído desde 2020 chegou a cerca de 70 toneladas de materiais escolares, segundo dados divulgados pelo TJDFT em agosto de 2026.
Para 2027, a meta anunciada é atender 10 mil crianças. Cada kit completo custa em média R$ 130, o que leva a uma necessidade estimada de R$ 1,3 milhão para alcançar o objetivo.
Assim, a mesma trajetória que começou entre trabalho informal, concursos e estudos em horários reduzidos passou a se conectar a uma iniciativa que tenta oferecer material escolar a outras crianças que enfrentam limitações econômicas.
Se um jovem que começou a estudar para concursos aos 16 anos, chegou a ocupar o 1.789º lugar, acumulou reprovações e estudou até 2h da madrugada conseguiu terminar em 5º lugar para juiz do Distrito Federal, quantas outras trajetórias podem mudar quando o acesso ao estudo encontra oportunidade e continuidade?

