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Considerado um dos lugares mais secos do planeta, Deserto do Atacama surpreende ao ficar coberto de neve após tempestades levarem precipitação dos Andes até perto do Pacífico

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Escrito por Andriely Medeiros de Araújo Publicado em 01/09/2026 às 09:51 Atualizado em 01/09/2026 às 09:52
O Deserto do Atacama recebeu neve em uma faixa excepcionalmente ampla em agosto de 2026, com precipitação avançando dos Andes até perto da costa do Pacífico.
O Deserto do Atacama recebeu neve em uma faixa excepcionalmente ampla em agosto de 2026, com precipitação avançando dos Andes até perto da costa do Pacífico. NASA
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O Deserto do Atacama recebeu neve em uma faixa excepcionalmente ampla em agosto de 2026, com precipitação avançando dos Andes até perto da costa do Pacífico.

Uma sequência de tempestades de inverno alterou em agosto de 2026 a paisagem de uma das regiões mais secas do planeta. A neve cobriu áreas do Deserto do Atacama, no norte do Chile, atravessou setores hiperáridos e, em determinado momento, avançou dos Andes em direção a áreas próximas ao oceano Pacífico. O alcance incomum da precipitação foi registrado por satélites da Nasa e chegou a interromper temporariamente o funcionamento de importantes observatórios astronômicos instalados na região.

O episódio não se limitou às áreas montanhosas onde temperaturas baixas tornam a ocorrência de precipitação congelada menos surpreendente. Uma nova tempestade na segunda metade do mês ampliou consideravelmente a região atingida, enquanto outros pontos receberam chuva em volumes muito acima do habitual para o norte chileno.

Neve avançou sobre o núcleo hiperárido do Atacama

Uma imagem obtida pela Nasa em 19 de agosto mostrou como o evento havia se espalhado pelo território. A cobertura branca avançava para oeste a partir da Cordilheira dos Andes, alcançando o interior extremamente seco do Deserto do Atacama e se aproximando do litoral ao sul de Antofagasta.

Esse alcance tornou o episódio de 2026 particularmente expressivo. A região já havia registrado neve em outras ocasiões, incluindo eventos em 2011 e 2025, mas a extensão observada naquele inverno chamou atenção.

As primeiras imagens de agosto também mostraram mudanças no planalto de Chajnantor, situado dentro do complexo vulcânico Altiplano-Puna. É nessa área elevada que funciona o ALMA, um dos mais importantes conjuntos de radiotelescópios do mundo.

O Deserto do Atacama recebeu neve em uma faixa excepcionalmente ampla em agosto de 2026, com precipitação avançando dos Andes até perto da costa do Pacífico.
O Deserto do Atacama recebeu neve em uma faixa excepcionalmente ampla em agosto de 2026, com precipitação avançando dos Andes até perto da costa do Pacífico. Fonte: Googe Earth Engine timelapse

ALMA colocou antenas em modo de proteção

O impacto do mau tempo chegou diretamente à infraestrutura científica. Com neve e ventos fortes atingindo Chajnantor, o ALMA interrompeu suas atividades e colocou as antenas em uma configuração destinada a protegê-las das condições meteorológicas adversas.

Outros observatórios existentes na região próxima à costa também enfrentaram paralisações durante o período de precipitação.

A presença dessas instalações no Deserto do Atacama está ligada justamente às características normalmente encontradas ali: aridez extrema e condições atmosféricas que favorecem observações astronômicas.

Quando um sistema de inverno consegue levar grande quantidade de umidade para esse ambiente, portanto, o fenômeno interfere não apenas na paisagem, mas também em atividades científicas que dependem do clima seco.

Sistema atmosférico levou umidade para uma área excepcionalmente grande

A origem das tempestades ajuda a explicar o alcance do evento. Grande parte das precipitações de inverno no norte chileno pode estar associada às chamadas baixas isoladas, áreas de baixa pressão que se desprendem da corrente de jato e ocasionalmente chegam à região.

René Garreaud, cientista atmosférico da Universidade do Chile, explicou que um mecanismo desse tipo esteve ligado ao episódio ocorrido em 2025. Em agosto de 2026, porém, uma das perturbações se separou de uma área de baixa pressão de proporções excepcionalmente amplas.

Esse sistema abrangia uma extensa parcela do Hemisfério Sul, desde as proximidades da extremidade da América do Sul até regiões subtropicais. A circulação atmosférica encontrou ainda grande disponibilidade de umidade nas proximidades do litoral.

A combinação permitiu produzir precipitação sobre ambientes bastante diferentes entre si. O fenômeno alcançou áreas oceânicas, a costa chilena, os Andes e o interior do Deserto do Atacama. Garreaud classificou os volumes como raramente observados em uma área reconhecida justamente pela extrema aridez.

Nem toda essa água chegou ao solo como neve. Em locais com condições diferentes de temperatura e altitude, a precipitação ocorreu em forma líquida — e os volumes registrados mostram como o mesmo sistema produziu consequências muito distintas ao longo do norte chileno.

O Deserto do Atacama recebeu neve em uma faixa excepcionalmente ampla em agosto de 2026, com precipitação avançando dos Andes até perto da costa do Pacífico.
O Deserto do Atacama recebeu neve em uma faixa excepcionalmente ampla em agosto de 2026, com precipitação avançando dos Andes até perto da costa do Pacífico. Fonte: Observatório da Terra da Nasa/Lauren Dauphin.

Cidade recebeu em três dias cerca de dez vezes sua chuva média anual

Taltal oferece um dos exemplos mais claros da anormalidade daquele período. A cidade costeira acumulou quase 40 milímetros de chuva em três dias, segundo os dados apresentados por Garreaud.

Esse volume corresponde a aproximadamente dez vezes a precipitação média anual mencionada para o município. Em uma região estruturada para lidar com pouca chuva, um episódio dessa magnitude pode produzir consequências rapidamente.

As precipitações intensas provocaram enchentes repentinas e deslizamentos em partes do norte do Chile. Segundo o Serviço Nacional de Prevenção e Resposta a Desastres, milhares de pessoas foram afetadas e centenas de residências sofreram danos significativos.

Evento de agosto veio depois de outra tempestade importante em julho

O inverno excepcionalmente úmido não começou com a neve registrada em agosto. Um evento anterior, ocorrido em julho, já havia provocado impactos relevantes na região conhecida como Norte Chico.

Para Garreaud, esse conjunto de episódios ocorre em um cenário atmosférico marcado pelo fortalecimento do El Niño. A relação envolve mudanças na circulação sobre o Pacífico.

Em condições de El Niño, a alta subtropical do Pacífico — sistema que normalmente contribui para manter grande parte dessa região seca — pode enfraquecer. Ao mesmo tempo, pode surgir uma alta de bloqueio mais ao sul, próxima à extremidade do continente.

Mudanças deslocam caminho das tempestades em direção ao equador

Quando esses sistemas atmosféricos se reorganizam, a trajetória habitual das tempestades do Hemisfério Sul também pode mudar.

Segundo a explicação apresentada, elas passam a avançar mais em direção ao equador, aumentando a possibilidade de atingir o centro-norte chileno. Essa configuração oferece um contexto para entender por que o Deserto do Atacama recebeu sucessivas precipitações durante o inverno de 2026.

Não significa que toda ocorrência de neve na região tenha uma única causa ou que o fenômeno jamais aconteça em condições diferentes. O próprio histórico recente mostra outros episódios. O que tornou agosto especialmente relevante foi a combinação entre extensão territorial, quantidade de umidade disponível e repetição de sistemas em um período relativamente curto.

Deserto mais conhecido pela aridez ganhou paisagem branca

O contraste visual chamou atenção justamente porque ocorre em um ambiente associado internacionalmente à escassez de precipitação. Em poucos dias, áreas marrons e avermelhadas do Deserto do Atacama passaram a dividir espaço com extensas faixas brancas observadas do espaço.

Nos pontos mais elevados, a neve interferiu no funcionamento de equipamentos científicos. Mais perto do litoral, a mesma sequência meteorológica produziu chuvas capazes de provocar danos e deslocar moradores. Assim, o fenômeno foi muito além de uma transformação temporária da paisagem.

Os registros de agosto de 2026 mostram como uma alteração na circulação atmosférica pode conectar regiões que normalmente apresentam condições muito diferentes — oceano, litoral, deserto e Cordilheira dos Andes — dentro de um único episódio de precipitação.

No Deserto do Atacama, a neve que avançou por uma área excepcionalmente ampla tornou visível essa mudança. O raro manto branco registrado pelos satélites foi também a face mais impressionante de um período de instabilidade que trouxe paralisação de observatórios, chuvas extremas, deslizamentos e enchentes para o norte do Chile.

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Andriely Medeiros de Araújo

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