A fábrica de etanol de trigo da Be8 alcançou 80% das obras em Passo Fundo e avança para uma operação prevista em março de 2027, com capacidade anual de 210 milhões de litros de etanol, 153,2 milhões de quilos de DDGS e 26,9 mil toneladas de glúten vital.
O canteiro da Be8 em Passo Fundo entrou na fase final de uma obra que muda o destino industrial dos cereais de inverno no Rio Grande do Sul. A empresa informou durante a Expointer que o complexo está com 80% de execução.
A previsão atual coloca o início da operação em março de 2027. Como se trata de cronograma empresarial, a data depende da conclusão das obras, da montagem dos sistemas, do comissionamento e dos testes necessários antes do funcionamento comercial.
Quando entrar em produção, a planta poderá fabricar 210 milhões de litros de etanol por ano. O projeto usa trigo e outros cereais, conectando a produção agrícola de inverno a um mercado de combustível que tradicionalmente depende de outras matérias-primas.
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Fábrica de etanol de trigo terá três produtos principais
O etanol é apenas uma parte da conta. A unidade foi desenhada para produzir 153,2 milhões de quilos de DDGS por ano, ingrediente usado na alimentação animal, e 26,9 mil toneladas de glúten vital, produto que o Brasil ainda precisa buscar no exterior.
Essa combinação melhora o aproveitamento do cereal. O amido segue para a fermentação e se transforma em etanol, enquanto proteínas e outros componentes ganham destinos comerciais próprios. Dessa forma, a viabilidade não depende de uma única receita.
Segundo a atualização publicada pelo Jornal do Comércio, as estruturas avançaram em engenharia, suprimentos e construção. A etapa restante inclui integração de equipamentos e preparação para a partida.
O glúten vital merece atenção porque aparece em alimentos, nutrição animal e outras aplicações industriais. Produzi-lo em Passo Fundo cria uma alternativa nacional para uma cadeia atendida por importações, ao mesmo tempo que abre um comprador adicional para cereais cultivados na região.
Já o DDGS devolve parte do valor à pecuária. Depois da retirada do amido destinado ao etanol, o coproduto concentra componentes úteis para rações. É uma lógica de biorrefinaria: cada fração precisa encontrar uso econômico para reduzir perdas.

Passo Fundo ganha uma nova demanda para cereais de inverno
O Rio Grande do Sul já possui produtores habituados ao trigo e ao triticale. Contudo, o mercado desses cereais enfrenta variações de preço, qualidade e demanda. Uma unidade industrial de grande porte pode criar uma saída adicional para lotes adequados ao processamento energético.
Para o agricultor, isso não elimina riscos de clima ou custo. Ainda assim, adiciona um comprador com consumo contínuo quando a fábrica estiver operando. O efeito real dependerá dos contratos, das especificações de matéria-prima e da distância entre as lavouras e Passo Fundo.
Para a cidade, o projeto adiciona movimentação industrial, transporte e serviços. Caminhões, armazenagem, manutenção e controle de qualidade acompanham a produção. Olhando assim, a planta não termina no portão; ela reorganiza fluxos de cereal e de produtos acabados ao redor do município.
A Be8 também planeja uma unidade de hidrogênio verde associada ao complexo, em etapa posterior. O financiamento informado para esse projeto soma R$ 38,7 milhões, com R$ 29,7 milhões em apoio e R$ 8,9 milhões aportados pela empresa.
Essa frente não deve ser confundida com a partida da biorrefinaria. O marco de 80% se refere ao complexo de etanol, DDGS e glúten. O hidrogênio possui cronograma e implantação próprios, embora possa aproveitar a estratégia energética da unidade.

O projeto conversa com outra aposta brasileira em combustível renovável: transformar produção agrícola em energia sem desperdiçar os coprodutos. A diferença está na matéria-prima e no desenho específico de cada processo.
O passo seguinte será menos visível do que uma grande obra, porém decisivo. Comissionar significa testar equipamentos, tubulações, automação e segurança como um único sistema. Uma fábrica pode parecer pronta por fora e ainda precisar de meses para operar de forma estável.
Se a data de março de 2027 for mantida, a Be8 passará do canteiro à produção em poucos meses. Então será possível observar volumes reais, compras de cereal e qualidade dos três produtos, confirmando se a integração desenhada no papel funciona na escala prevista.
A marca de 80% mostra que o projeto deixou de ser promessa distante. Ao mesmo tempo, os 20% finais concentram sistemas críticos e testes. A fábrica só completará sua transformação quando o primeiro cereal entrar e etanol, DDGS e glúten saírem dentro das especificações.
A operação também dependerá de uma logística sincronizada. Cereais precisam chegar com qualidade e regularidade, enquanto etanol e coprodutos precisam sair sem formar estoques que reduzam o ritmo da fábrica. Isso exige contratos, armazenagem, transporte e controle laboratorial trabalhando junto com a área de processo. Uma biorrefinaria integrada não vende apenas combustível; ela administra mercados diferentes a partir da mesma matéria-prima.
Para os produtores da região, a nova demanda pode criar alternativa comercial para culturas de inverno, mas o efeito dependerá das condições de compra e da capacidade de atender às especificações. Para a Be8, suprimento previsível e aproveitamento dos coprodutos serão parte central da competitividade. Se um elo perder valor, a conta econômica do conjunto também muda.
Até a partida, os sinais mais úteis serão a conclusão física, o início do comissionamento e a preparação da cadeia de fornecimento. Depois, o acompanhamento deve migrar do percentual de obra para indicadores de produção. É nessa mudança que o empreendimento deixa de ser medido pelo concreto instalado e passa a ser avaliado pela eficiência, regularidade e qualidade do que entrega.
O que você acha do uso de trigo e cereais de inverno para produzir etanol no Rio Grande do Sul?

