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Com uma câmera centenária feita à mão, o último fotógrafo de Cabul mantém viva a arte perdida do retrato, desafia a era digital, revela processos secretos e transforma cada imagem em peça histórica única

Escrito por Bruno Teles
Publicado em 22/11/2025 às 12:03
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Em Cabul, um fotógrafo mantém viva a arte do retrato com uma câmera centenária feita à mão e sua câmera de caixa, transformando o Afeganistão em cenário de memória histórica única
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Com uma câmera centenária feita à mão do tipo câmera de caixa, Haji resiste ao esquecimento em Cabul, vive da fotografia de retrato, revela processos químicos manuais e transforma cada cliente em documento histórico único em pleno Afeganistão contemporâneo. Enquanto ao redor celulares dominam, ele segue focado na lente artesanal.

Ao caminhar pelas ruas de Cabul, no Afeganistão, o encontro com Haji rompe a lógica de uma capital tomada por smartphones e arquivos digitais. Em um pequeno espaço de trabalho, ele posiciona a câmera centenária feita à mão diante de um banquinho simples, pede silêncio absoluto e inicia um ritual que mistura técnica, memória e paciência.

O visitante se senta, a luz é ajustada, o enquadramento é medido no olho e o tempo parece voltar décadas. Nada de visor eletrônico, nada de tela de prévia. Cada retrato depende do controle manual da luz, da química e do papel fotográfico, como se cada imagem fosse um experimento único, irrepetível e profundamente material.

O último fotógrafo de Cabul e a sobrevivência da câmera centenária feita à mão

Em Cabul, um fotógrafo mantém viva a arte do retrato com uma câmera centenária feita à mão e sua câmera de caixa, transformando o Afeganistão em cenário de memória histórica única

Haji é descrito como o último profissional em atividade em Cabul que ainda utiliza esse tipo de câmera de caixa para retratos.

Em plena capital do Afeganistão, onde a circulação de celulares e câmeras digitais é ampla, ele continua a trabalhar diariamente com uma câmera centenária feita à mão, herdando uma técnica que atravessou gerações.

Ele aprendeu o ofício com um primo, ainda jovem, há mais de cinco décadas.

Desde então, a câmera de caixa e o pequeno estúdio se tornaram sua profissão principal, garantindo renda e sustentando a família em tempos variados.

Durante cerca de 55 a 56 anos, o fotógrafo manteve a mesma rotina: montar a câmera, preparar o papel, controlar a química e entregar retratos em preto e branco.

Em um cenário em que Cabul enfrenta mudanças políticas, econômicas e tecnológicas constantes, a presença desse fotógrafo trabalhando com uma câmera de caixa de 100 anos é também um registro silencioso de continuidade.

A oficina de Haji funciona como um elo entre o Afeganistão analógico e o Afeganistão conectado, sem que ele abandone os métodos que aprendeu no início da carreira.

Como funciona a câmera de caixa de 100 anos em Cabul

Em Cabul, um fotógrafo mantém viva a arte do retrato com uma câmera centenária feita à mão e sua câmera de caixa, transformando o Afeganistão em cenário de memória histórica única

A câmera centenária feita à mão usada por Haji é uma câmera de caixa de grande formato, que combina captura e revelação em um único equipamento.

A parte externa parece um móvel de madeira, mas por dentro há uma estrutura que permite focar, expor e revelar o retrato diretamente sobre papel fotográfico.

O processo começa com o enquadramento do rosto do cliente. Haji ajusta a câmera de caixa até que a imagem esteja em foco, utilizando um sistema óptico simples e totalmente manual.

Quando o ângulo está correto, ele realiza a exposição e, em seguida, desloca o papel fotográfico para uma área interna da própria câmera.

Dentro da caixa, em ambiente escuro, o papel é posicionado contra um vidro e recebe a ação dos químicos.

A imagem aparece gradualmente sobre o papel, em preto e branco, resultado direto da combinação entre tempo de exposição, concentração da solução e experiência acumulada do fotógrafo.

Não há sensor, não há cartão de memória e não há edição posterior em software.

Após a revelação inicial, o papel ainda precisa ser processado e fixado corretamente.

Em alguns casos, o material é levado a uma loja de câmeras local para finalização e cópias adicionais.

Mesmo assim, o núcleo do processo permanece sob controle de Haji, que domina a câmera de caixa e entende cada etapa como parte de um fluxo único, artesanal e dependente de sua própria decisão técnica.

Uma carreira inteira moldada por química, retratos e disciplina artesanal

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A trajetória de Haji como fotógrafo no Afeganistão acompanha a evolução da fotografia no século passado.

Em um primeiro momento, a demanda era centrada em retratos formais, fotos para documentos e imagens de família.

Ele produzia fotos para passaporte, cartões e retratos ampliados, ajustando o preço conforme o tamanho e a complexidade do trabalho.

Nos primeiros anos, todas as imagens eram em preto e branco.

Para atender a um público que desejava retratos mais vivos, o próprio fotógrafo coloria algumas fotos manualmente, aplicando pigmentos sobre as cópias finalizadas.

A combinação da câmera centenária feita à mão com técnicas de coloração manual exigia precisão, paciência e entendimento da química fotográfica, aproximando sua rotina mais de um laboratório do que de um estúdio convencional moderno.

Ao longo das décadas, a fotografia digital avançou em Cabul e em outras cidades do Afeganistão.

Novas câmeras, impressoras instantâneas e celulares com boa resolução reduziram a procura por retratos analógicos.

Haji percebeu a queda na clientela, mas manteve a prática com a câmera de caixa, tanto por identidade profissional quanto por vínculo emocional com o equipamento e com a técnica.

Para ele, a fotografia antiga é mais do que um serviço.

É um conjunto de decisões complexas, que começa na escolha do papel, passa pelo tempo de exposição e termina na revelação dentro da câmera.

Em suas próprias palavras, o desafio e a complexidade desse método fazem parte do encanto da profissão, algo que ele não encontra na simplicidade do clique digital.

Tradição, memória e a crítica à fotografia digital no Afeganistão

Haji reconhece que as novas tecnologias facilitaram o acesso à imagem em Cabul e em outras partes do Afeganistão.

Porém, ele enxerga a fotografia digital como um processo excessivamente simples, em que qualquer pessoa segura um celular, toca na tela e produz dezenas de arquivos em segundos.

Na leitura dele, isso dilui o valor do ato fotográfico.

Com a câmera centenária feita à mão, cada retrato exige planejamento, cálculo e risco.

Não há como revisar a foto na hora, nem apagar e fazer outra sem custo.

O erro implica em perder papel, química e tempo, o que mantém a disciplina técnica no centro da atividade. Para Haji, essa dificuldade é precisamente o que torna a fotografia analógica interessante.

Ao mesmo tempo, ele não se coloca como um opositor da tecnologia por princípio.

Ele admite que as câmeras digitais permitem resultados coloridos, de boa qualidade e com muito mais agilidade.

O que o incomoda é a perda de profundidade do processo e a redução da fotografia a um gesto repetido, quase automático.

Nesse contraste, a figura do fotógrafo em Cabul ajuda a explicar uma tensão mais ampla no Afeganistão: a convivência entre práticas tradicionais, ligadas ao trabalho manual, e uma modernização acelerada, que chega por meio de aparelhos importados, redes sociais e fluxos digitais de informação.

O acervo de câmeras e o valor histórico de uma profissão em extinção

Além da câmera centenária feita à mão que utiliza diariamente, Haji mantém, no sótão de casa, uma coleção de câmeras antigas e acessórios acumulados em décadas de trabalho.

O espaço funciona como um arquivo técnico e emocional, repleto de equipamentos que já estiveram em uso e hoje são, na prática, peças de museu.

Em determinado momento, alguém teria tentado comprar todo esse conjunto de câmeras por um valor considerável, mas a coleção permaneceu com ele.

Para o fotógrafo, não se trata apenas de objetos de trabalho.

Cada câmera guarda uma parte da história da fotografia em Cabul e no Afeganistão, bem como lembranças de clientes, cenas urbanas e fases diferentes do país.

Entre as imagens mais simbólicas associadas ao seu acervo está uma foto de um antigo rei do Afeganistão, tida como referência e reproduzida em diversos locais.

A presença desse retrato original reforça o caráter documental do que Haji faz. Suas fotos não são apenas lembranças pessoais, mas material que atravessa gerações e ajuda a compor a memória visual de um país em transformação.

Dentro de casa, a recepção a visitantes segue o padrão tradicional afegão.

O fotógrafo oferece chá, frutas e um espaço de convivência em uma sala ampla, coberta por tapetes, onde não há sofás, mas sim áreas de descanso e conversa diretamente no chão.

O ambiente domesticamente simples contrasta com o peso histórico da câmera de caixa e do acervo guardado no andar de cima.

O que a resistência da câmera centenária revela sobre o Afeganistão de hoje

A permanência de um único fotógrafo utilizando uma câmera centenária feita à mão em Cabul não é apenas um caso curioso de tecnologia antiga em uso.

Ela evidencia como, mesmo em contextos de rápida digitalização, práticas manuais podem sobreviver e conservar valor cultural, simbólico e até econômico.

Enquanto muitos moradores do Afeganistão se acostumam a ver o mundo por telas de celular, Haji continua a oferecer um retrato que exige presença física, tempo de espera e interação direta.

O cliente precisa estar ali, sentar, manter a postura e confiar no conhecimento do fotógrafo, o que cria uma experiência completamente distinta da selfie ou do registro instantâneo.

Ao mesmo tempo, a história mostra que profissões baseadas em técnicas complexas e equipamentos específicos podem se tornar raras em poucas décadas.

A própria existência desse fotógrafo como “último” da sua geração, com esse tipo de câmera de caixa, indica uma fronteira: ou a técnica é documentada e reconhecida como patrimônio, ou corre o risco de desaparecer silenciosamente.

Em um país que vive sucessivos ciclos de conflito, reconstrução e reconfiguração política, cada ofício preservado funciona como um ponto de continuidade.

A câmera centenária feita à mão de Haji não é apenas um instrumento de trabalho, mas um símbolo de resistência de uma forma de olhar, registrar e contar histórias, mesmo sem telas, filtros ou armazenamento em nuvem.

E você, encararia fazer um retrato em uma câmera de caixa com mais de 100 anos ou prefere confiar apenas nas fotos rápidas do celular no dia a dia?

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Bruno Teles

Falo sobre tecnologia, inovação, petróleo e gás. Atualizo diariamente sobre oportunidades no mercado brasileiro. Com mais de 7.000 artigos publicados nos sites CPG, Naval Porto Estaleiro, Mineração Brasil e Obras Construção Civil. Sugestão de pauta? Manda no brunotelesredator@gmail.com

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