1. Início
  2. / Economia
  3. / Com R$ 3 bilhões na mesa, mineradora brasileira quer processar 20 mil toneladas mensais de monazita, minério que concentra 700 kg de terras raras por tonelada e pode recolocar o Brasil na disputa contra a China.
Tempo de leitura 6 min de leitura Comentários 0 comentários

Com R$ 3 bilhões na mesa, mineradora brasileira quer processar 20 mil toneladas mensais de monazita, minério que concentra 700 kg de terras raras por tonelada e pode recolocar o Brasil na disputa contra a China.

Escrito por Alisson Ficher
Publicado em 12/06/2026 às 16:04
Atualizado em 12/06/2026 às 16:08
ADL Mineração projeta R$ 3 bilhões para processar monazita e ampliar a presença do Brasil na cadeia global de terras raras.
ADL Mineração projeta R$ 3 bilhões para processar monazita e ampliar a presença do Brasil na cadeia global de terras raras.
Seja o primeiro a reagir!
Reagir ao artigo

Projeto da ADL Mineração mira uma etapa estratégica da cadeia de terras raras, em meio à demanda global por minerais usados em motores elétricos, turbinas, equipamentos aeroespaciais e defesa, com planos de exportação e instalação industrial no Brasil.

A ADL Mineração iniciou em 2026 a exportação de monazita e pretende avançar para outras etapas da cadeia de terras raras no Brasil, incluindo processamento, separação e agregação de valor ao minério usado em motores elétricos, turbinas eólicas, equipamentos aeroespaciais e sistemas de defesa.

Para essa fase, a empresa projeta um investimento de US$ 600 milhões, cerca de R$ 3 bilhões, em uma planta com capacidade prevista para beneficiar 20 mil toneladas mensais de minério pesado.

A operação é conduzida por Adelina Lee, presidente da ADL e uma das acionistas da companhia, que atua na produção de minerais pesados como monazita, ilmenita, rutilo e zirconita.

Brasileira de origem sul-coreana, Lee está há dois anos à frente da mineradora e chegou ao setor após trajetória em operações comerciais entre Brasil, Coreia do Sul, China e Estados Unidos.

O principal polo operacional citado pela empresa fica em Buena, distrito de São Francisco de Itabapoana, no litoral norte do Rio de Janeiro.

Em 2024, a Indústrias Nucleares do Brasil assinou com a ADL um contrato de cessão onerosa de uso, válido por 30 anos, para a Unidade em Descomissionamento de Buena.

Antes da cessão, a unidade já atuava na separação e comercialização de ilmenita, zirconita, rutilo e monazita, minerais presentes nas chamadas areias monazíticas.

Pelo acordo, a ADL assumiu a operação da planta de beneficiamento e de áreas associadas para processar minerais extraídos de jazidas sob sua titularidade.

Como contrapartida, a INB passou a receber uma parcela fixa mensal e royalties sobre a produção, conforme informações divulgadas pela estatal.

Monazita ganha relevância na cadeia de terras raras

A monazita é uma das fontes de elementos terras raras, grupo de 17 elementos químicos usado em ímãs permanentes, motores, satélites, turbinas, eletrônicos e aplicações médicas.

Segundo o consultor técnico da ADL, Gilberto de Campos, uma tonelada do minério pode conter cerca de 700 quilos de elementos terras raras, embora o aproveitamento industrial dependa de etapas de separação e refino.

Campos trabalhou na Orquima, empresa pioneira no processamento de terras raras no país, depois renomeada Nuclemon, e também na antiga Nuclebrás, reestruturada como Indústrias Nucleares do Brasil.

Na avaliação de empresas e governos que buscam novas fontes de suprimento, a monazita voltou a ganhar atenção porque países tentam reduzir a dependência da China na cadeia de terras raras.

O desafio brasileiro envolve não apenas a disponibilidade do minério, mas também a capacidade de transformar esse recurso em óxidos purificados, ligas e ímãs permanentes.

Essas etapas concentram maior valor agregado e exigem tecnologia industrial específica, área em que a China mantém posição relevante no mercado global.

O Serviço Geológico do Brasil informa que o país tem cerca de 21 milhões de toneladas em reservas de terras raras, volume equivalente a aproximadamente 23% das reservas globais segundo dados do USGS.

Mesmo com esse potencial mineral, a produção brasileira em 2024 foi de apenas 20 toneladas, volume inferior a 1% da produção mundial.

Há, porém, diferença entre estimativas internacionais e números revisados no Brasil, o que exige cautela na comparação entre bases de dados.

A Agência Nacional de Mineração reduziu a estimativa brasileira para 11,4 milhões de toneladas de óxidos totais de terras raras equivalentes, mas o país seguiria em segundo lugar no ranking global, com participação de 15%, conforme análise da Brasil Mineral baseada em dados da ANM e do USGS.

Exportação ao Canadá abre nova fase comercial

A ADL realizou em abril de 2026 a primeira exportação privada de monazita em décadas, com envio de uma carga ao Canadá.

A operação integra um acordo com uma companhia estrangeira detentora de tecnologia voltada ao processamento de terras raras, em uma fase inicial de retomada comercial do minério.

A meta da mineradora é exportar entre 500 e 1.000 toneladas de monazita neste ano e alcançar 3.000 toneladas em dois anos.

Lee afirma que a prioridade imediata é elevar a pureza do produto, hoje acima de 92%, para 98%, com a instalação de equipamentos adicionais.

“Neste momento, nosso foco começa com a retomada das exportações de monazita e aprimoramento de sua pureza com instalação de equipamentos adicionais para atingir 98%. Já estamos acima de 92%”, disse Adelina Lee, em entrevista ao Estadão.

Além da operação no Rio de Janeiro, a empresa mantém atividades no sul da Bahia, nas regiões de Alcobaça e Belmonte, onde possui concessões de pesquisa e lavra de minerais pesados.

Segundo a ADL, as áreas somam 29 mil hectares vinculados a licenças e pesquisas, além de 200 empregos diretos e 400 indiretos gerados pela operação.

Plano prevê concentrado e separação no Brasil

O primeiro projeto industrial da ADL prevê produzir cloreto de terras raras, um concentrado que reúne diferentes elementos antes da etapa de separação individual.

O investimento estimado é de US$ 70 milhões, cerca de R$ 350 milhões, e a previsão informada pela companhia é chegar a essa fase até o fim de 2027, condicionada à disponibilidade de capital.

Lee afirma que a empresa já dispõe de tecnologia para essa etapa, mas reconhece que a entrada de investidores pode acelerar a execução.

“A tecnologia já temos dentro da ADL. O que pode acelerar esse processo é capital, mas com recursos próprios pode demorar três anos”, declarou.

O projeto de maior escala, estimado em US$ 600 milhões, busca instalar no Brasil uma unidade de separação de elementos terras raras.

A planta teria capacidade para processar 20 mil toneladas mensais de minério pesado, com uso de robótica e inteligência artificial no processo, segundo a executiva.

A ADL informa que mantém conversas com investidores dos Estados Unidos, China, Canadá, Austrália, Coreia do Sul e Japão.

A companhia também afirma ter memorandos de entendimento com uma empresa estrangeira para transferência de tecnologia, mas não divulgou o nome da parceira nem detalhes contratuais.

“Nosso objetivo é ter esse projeto aqui no Brasil, onde temos o minério, com tecnologia em fase de desenvolvimento. Criar uma cadeia produtiva no País”, disse Lee.

Controle nuclear acompanha a produção de monazita

A exploração de monazita exige controle específico porque o minério costuma estar associado a tório e urânio.

Esses materiais devem ser separados e monitorados pela Comissão Nacional de Energia Nuclear, o que torna a cadeia sujeita a regras próprias de fiscalização.

No caso da monazita da ADL, Campos afirma que o teor de urânio é baixo, de 0,3%, enquanto o de tório chega a 6%.

A empresa informa que todo o estoque existente no país permanece armazenado sob controle da INB, responsável pela gestão dos materiais nucleares associados.

Atualmente, a receita da ADL vem sobretudo da venda no mercado interno de minerais pesados usados em pigmentos, tintas, revestimentos, plásticos, cosméticos, cerâmica, vidro, materiais refratários, fundição, saúde e odontologia.

A monazita, por sua vez, é destinada à exportação, de acordo com a estratégia comercial informada pela companhia.

Para a ADL, o avanço para etapas industriais de maior valor pode reduzir a dependência de compradores externos de minério bruto.

O desenvolvimento dessa cadeia no Brasil, no entanto, depende de tecnologia, escala de produção, financiamento e controle regulatório sobre materiais associados à monazita.

Inscreva-se
Notificar de
guest
0 Comentários
Mais recente
Mais antigos Mais votado
Alisson Ficher

Jornalista formado desde 2017 e atuante na área desde 2015, com seis anos de experiência em revista impressa, passagens por canais de TV aberta e mais de 12 mil publicações online. Especialista em política, empregos, economia, cursos, entre outros temas e também editor do portal CPG. Registro profissional: 0087134/SP. Se você tiver alguma dúvida, quiser reportar um erro ou sugerir uma pauta sobre os temas tratados no site, entre em contato pelo e-mail: alisson.hficher@outlook.com. Não aceitamos currículos!

Compartilhar em aplicativos
0
Adoraríamos sua opnião sobre esse assunto, comente!x