Projeto da ADL Mineração mira uma etapa estratégica da cadeia de terras raras, em meio à demanda global por minerais usados em motores elétricos, turbinas, equipamentos aeroespaciais e defesa, com planos de exportação e instalação industrial no Brasil.
A ADL Mineração iniciou em 2026 a exportação de monazita e pretende avançar para outras etapas da cadeia de terras raras no Brasil, incluindo processamento, separação e agregação de valor ao minério usado em motores elétricos, turbinas eólicas, equipamentos aeroespaciais e sistemas de defesa.
Para essa fase, a empresa projeta um investimento de US$ 600 milhões, cerca de R$ 3 bilhões, em uma planta com capacidade prevista para beneficiar 20 mil toneladas mensais de minério pesado.
A operação é conduzida por Adelina Lee, presidente da ADL e uma das acionistas da companhia, que atua na produção de minerais pesados como monazita, ilmenita, rutilo e zirconita.
-
Brasileiros podem pagar mais impostos e igrejas são as culpadas: PEC pode elevar o IVA em 1 ponto percentual e gerar impacto de até R$ 7 bilhões por ano, alerta o Ministério da Fazenda
-
Após demitir 6,6 mil funcionários, gigante dos supermercados inaugura nova loja, alcança 310 operações no Brasil e acelera expansão mesmo após fechar 28 unidades em reestruturação que reduziu 13,9% do quadro de empregados.
-
Comércio terá funcionamento suspenso nos dias de jogo da seleção durante a Copa, e os servidores públicos vão ser liberados horas antes das partidas
-
A escalada de endividamento das famílias brasileiras – de 80,9% para 81,6% do contingente total – de abril a maio, quinta alta consecutiva e o maior nível em 11 anos, deve se manter em trajetória ascendente e sem previsão de retrocesso, atingindo 82% em dezembro próximo.
Brasileira de origem sul-coreana, Lee está há dois anos à frente da mineradora e chegou ao setor após trajetória em operações comerciais entre Brasil, Coreia do Sul, China e Estados Unidos.
O principal polo operacional citado pela empresa fica em Buena, distrito de São Francisco de Itabapoana, no litoral norte do Rio de Janeiro.
Em 2024, a Indústrias Nucleares do Brasil assinou com a ADL um contrato de cessão onerosa de uso, válido por 30 anos, para a Unidade em Descomissionamento de Buena.
Antes da cessão, a unidade já atuava na separação e comercialização de ilmenita, zirconita, rutilo e monazita, minerais presentes nas chamadas areias monazíticas.
Pelo acordo, a ADL assumiu a operação da planta de beneficiamento e de áreas associadas para processar minerais extraídos de jazidas sob sua titularidade.
Como contrapartida, a INB passou a receber uma parcela fixa mensal e royalties sobre a produção, conforme informações divulgadas pela estatal.
Monazita ganha relevância na cadeia de terras raras
A monazita é uma das fontes de elementos terras raras, grupo de 17 elementos químicos usado em ímãs permanentes, motores, satélites, turbinas, eletrônicos e aplicações médicas.
Segundo o consultor técnico da ADL, Gilberto de Campos, uma tonelada do minério pode conter cerca de 700 quilos de elementos terras raras, embora o aproveitamento industrial dependa de etapas de separação e refino.
Campos trabalhou na Orquima, empresa pioneira no processamento de terras raras no país, depois renomeada Nuclemon, e também na antiga Nuclebrás, reestruturada como Indústrias Nucleares do Brasil.
Na avaliação de empresas e governos que buscam novas fontes de suprimento, a monazita voltou a ganhar atenção porque países tentam reduzir a dependência da China na cadeia de terras raras.
O desafio brasileiro envolve não apenas a disponibilidade do minério, mas também a capacidade de transformar esse recurso em óxidos purificados, ligas e ímãs permanentes.
Essas etapas concentram maior valor agregado e exigem tecnologia industrial específica, área em que a China mantém posição relevante no mercado global.
O Serviço Geológico do Brasil informa que o país tem cerca de 21 milhões de toneladas em reservas de terras raras, volume equivalente a aproximadamente 23% das reservas globais segundo dados do USGS.
Mesmo com esse potencial mineral, a produção brasileira em 2024 foi de apenas 20 toneladas, volume inferior a 1% da produção mundial.
Há, porém, diferença entre estimativas internacionais e números revisados no Brasil, o que exige cautela na comparação entre bases de dados.
A Agência Nacional de Mineração reduziu a estimativa brasileira para 11,4 milhões de toneladas de óxidos totais de terras raras equivalentes, mas o país seguiria em segundo lugar no ranking global, com participação de 15%, conforme análise da Brasil Mineral baseada em dados da ANM e do USGS.
Exportação ao Canadá abre nova fase comercial
A ADL realizou em abril de 2026 a primeira exportação privada de monazita em décadas, com envio de uma carga ao Canadá.
A operação integra um acordo com uma companhia estrangeira detentora de tecnologia voltada ao processamento de terras raras, em uma fase inicial de retomada comercial do minério.
A meta da mineradora é exportar entre 500 e 1.000 toneladas de monazita neste ano e alcançar 3.000 toneladas em dois anos.
Lee afirma que a prioridade imediata é elevar a pureza do produto, hoje acima de 92%, para 98%, com a instalação de equipamentos adicionais.
“Neste momento, nosso foco começa com a retomada das exportações de monazita e aprimoramento de sua pureza com instalação de equipamentos adicionais para atingir 98%. Já estamos acima de 92%”, disse Adelina Lee, em entrevista ao Estadão.
Além da operação no Rio de Janeiro, a empresa mantém atividades no sul da Bahia, nas regiões de Alcobaça e Belmonte, onde possui concessões de pesquisa e lavra de minerais pesados.
Segundo a ADL, as áreas somam 29 mil hectares vinculados a licenças e pesquisas, além de 200 empregos diretos e 400 indiretos gerados pela operação.
Plano prevê concentrado e separação no Brasil
O primeiro projeto industrial da ADL prevê produzir cloreto de terras raras, um concentrado que reúne diferentes elementos antes da etapa de separação individual.
O investimento estimado é de US$ 70 milhões, cerca de R$ 350 milhões, e a previsão informada pela companhia é chegar a essa fase até o fim de 2027, condicionada à disponibilidade de capital.
Lee afirma que a empresa já dispõe de tecnologia para essa etapa, mas reconhece que a entrada de investidores pode acelerar a execução.
“A tecnologia já temos dentro da ADL. O que pode acelerar esse processo é capital, mas com recursos próprios pode demorar três anos”, declarou.
O projeto de maior escala, estimado em US$ 600 milhões, busca instalar no Brasil uma unidade de separação de elementos terras raras.
A planta teria capacidade para processar 20 mil toneladas mensais de minério pesado, com uso de robótica e inteligência artificial no processo, segundo a executiva.
A ADL informa que mantém conversas com investidores dos Estados Unidos, China, Canadá, Austrália, Coreia do Sul e Japão.
A companhia também afirma ter memorandos de entendimento com uma empresa estrangeira para transferência de tecnologia, mas não divulgou o nome da parceira nem detalhes contratuais.
“Nosso objetivo é ter esse projeto aqui no Brasil, onde temos o minério, com tecnologia em fase de desenvolvimento. Criar uma cadeia produtiva no País”, disse Lee.
Controle nuclear acompanha a produção de monazita
A exploração de monazita exige controle específico porque o minério costuma estar associado a tório e urânio.
Esses materiais devem ser separados e monitorados pela Comissão Nacional de Energia Nuclear, o que torna a cadeia sujeita a regras próprias de fiscalização.
No caso da monazita da ADL, Campos afirma que o teor de urânio é baixo, de 0,3%, enquanto o de tório chega a 6%.
A empresa informa que todo o estoque existente no país permanece armazenado sob controle da INB, responsável pela gestão dos materiais nucleares associados.
Atualmente, a receita da ADL vem sobretudo da venda no mercado interno de minerais pesados usados em pigmentos, tintas, revestimentos, plásticos, cosméticos, cerâmica, vidro, materiais refratários, fundição, saúde e odontologia.
A monazita, por sua vez, é destinada à exportação, de acordo com a estratégia comercial informada pela companhia.
Para a ADL, o avanço para etapas industriais de maior valor pode reduzir a dependência de compradores externos de minério bruto.
O desenvolvimento dessa cadeia no Brasil, no entanto, depende de tecnologia, escala de produção, financiamento e controle regulatório sobre materiais associados à monazita.

Seja o primeiro a reagir!