Jeison Orlando Rodríguez Hernández tem 2,20 m de altura e calça o equivalente ao número 69 europeu. Na cidade natal, na Venezuela, nenhum sapato servia, e ele improvisava calçado com pneu e tecido. Hoje cada par sai de uma sapataria em Vreden, na Alemanha.
O venezuelano Jeison Orlando Rodríguez Hernández, morador de Maracay, tem o maior pé do mundo entre pessoas vivas, com 40,55 centímetros no pé direito e 40,47 centímetros no esquerdo, medidas registradas em 2018 e reconhecidas pelo Guinness World Records, segundo publicação da própria organização em 4 de junho daquele ano, assinada por Rachel Swatman. O tamanho equivale ao número 26 dos Estados Unidos.
O recorde não é novidade para ele. Jeison detém o título desde 2014, quando o pé direito media 40,1 centímetros e o esquerdo, 39,6 centímetros. Quatro anos depois, os pés continuaram crescendo, e ele recebeu um novo certificado justamente enquanto buscava um par de sapatos feito sob medida em uma sapataria alemã.
Os números por trás do recorde

As medidas oficiais do maior pé do mundo entre pessoas vivas são precisas e datadas. Segundo o registro do Guinness World Records, o pé direito tem 40,55 centímetros e o esquerdo, 40,47, com aferição realizada em 3 de junho de 2018, no Parc Saint Paul, em Beauvais, na França. A entrega do certificado ocorreu no dia seguinte, na loja de calçados Wessels, em Vreden, na Alemanha.
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A tradução desses centímetros para numeração de calçado ajuda a dimensionar o problema prático. O sapateiro Georg Wessels, responsável pelos pares dele, informa que Jeison precisa de um sapato número 69 na escala europeia. Na numeração americana, é o tamanho 26. Nenhuma dessas medidas existe em prateleira de loja comum, em nenhum país.
Ele mede 2,20 metros de altura e é um jogador de basquete entusiasmado. A juíza do Guinness World Records Lucia Sinigagliesi participou da cerimônia na Alemanha e afirmou que o fato de ele ter batido o próprio recorde e viajado até lá foi a oportunidade certa para entregar o certificado pessoalmente.
Como tudo começou, em 2014

O contato inicial com a organização partiu dele mesmo. Jeison procurou o Guinness World Records pela página da entidade no Facebook, e a partir daí foram organizadas uma avaliação oficial e uma sessão de fotos para a edição daquele ano do livro de recordes.
A certificação aconteceu em Maracay, no estado de Aragua, na Venezuela, em 7 de outubro de 2014, quando ele tinha 20 anos. Um rapaz que não conseguia comprar sapato na própria cidade virou recordista mundial por causa exatamente disso. Há uma divergência nos registros sobre o ano de conquista: o texto do Guinness World Records informa que ele detém o título desde 2014, enquanto a juíza da organização menciona 2015 na declaração sobre a cerimônia.
Já naquela época ele avisava que os pés continuavam crescendo, e o tempo confirmou. Entre a medição de 2014 e a de 2018, o pé direito ganhou quase meio centímetro e o esquerdo, quase um centímetro.
As sandálias de pneu velho

A parte mais dura da história é anterior ao recorde. Em Maracay, Jeison não encontrava calçado no próprio número, e a solução foi improvisar com o que havia à mão.
Ele passou a usar sandálias feitas de pneus velhos e tecido. O material que sobra de uma borracharia virou solado para o maior pé do mundo, porque nenhuma fábrica produzia nada no tamanho dele. Segundo relatos da imprensa internacional, a partir dos 14 anos ele usava calçados de pano que duravam apenas duas ou três semanas, e havia períodos em que precisava andar descalço.
O relato dele sobre esse período é direto e sem autopiedade. Ele conta que encontrar sapatos do próprio número nunca foi fácil, e que já enfrentava esse problema aos 16 anos. Em entrevista, descreveu a sensação de olhar para outras pessoas e desejar simplesmente ter um par de sapatos.
O sapateiro alemão que calça gigantes
A virada veio de fora do país. O sapateiro Georg Wessels, que tem oficina em Vreden, na Alemanha, se ofereceu para ajudar e passou a fabricar os calçados de Jeison sob medida.
Wessels é especializado em produzir sapatos sob encomenda para pessoas de estatura excepcional em várias partes do mundo. Ele também faz os calçados de Sultan Kösen, recordista do homem vivo mais alto do planeta, cujos pés são ligeiramente menores que os de Jeison. É uma clientela pequena, específica e espalhada por continentes, atendida por uma oficina em uma cidade de porte médio no oeste alemão.
Foi na loja de Wessels que aconteceu a entrega do certificado atualizado, durante uma visita em que Jeison buscava sapatos novos. A reação dele foi de satisfação com as duas coisas ao mesmo tempo, o calçado e o documento.
A causa está na hipófise
O crescimento fora do padrão tem explicação médica documentada. Exames a que Jeison foi submetido identificaram uma hipófise hiperativa, glândula que passou a produzir hormônio de crescimento em excesso.
É a mesma condição que está por trás de vários casos de estatura muito acima da média registrados pelo Guinness World Records. O recorde dele não é fruto de treino, dieta ou escolha, é consequência de uma condição de saúde. Esse é o contexto que separa o caso de uma curiosidade e o coloca no terreno da medicina.
Ele percebeu a diferença por volta do nono aniversário. Costumava comparar o tamanho do pé com o dos amigos, e sempre saía ganhando na brincadeira. O que começou como comparação divertida entre crianças logo virou outra coisa.
Das piadas na escola ao orgulho
O tamanho dos pés fez de Jeison alvo frequente de piadas. Registros da cobertura internacional sobre o caso apontam que ele enfrentou agressões verbais e físicas na escola por causa da aparência, e voltava para casa abalado com a discriminação.
O que mudou essa relação, segundo o próprio relato dele, foi o reconhecimento formal. Ele afirma que o Guinness World Records o fez se valorizar mais, especialmente quanto ao tamanho dos próprios pés, e diz sentir orgulho de ter o maior pé do mundo. É uma inversão completa de sentido: a mesma característica que servia de motivo para humilhação virou motivo de identidade.
Não se trata de conforto físico resolvido. Ele continua dependendo de fabricação sob medida, de encomenda internacional e de um único fornecedor especializado do outro lado do Atlântico. O que mudou foi a forma como ele passou a se enxergar.
Wadlow, o recorde que ninguém alcançou
Vale esclarecer um ponto de nomenclatura que costuma confundir. O título de Jeison é de maior pé do mundo entre pessoas vivas, e não de maior pé de todos os tempos.
O recorde absoluto pertence a Robert Wadlow, o homem mais alto que já existiu, nascido nos Estados Unidos em 1918 e morto em 1940. Wadlow calçava o equivalente a 47 centímetros, cerca de seis centímetros e meio a mais que Jeison. Na numeração americana, era o tamanho 37AA, correspondente ao 36 britânico.
A diferença entre os dois é considerável e ajuda a entender por que a categoria dos vivos existe separadamente. Nenhuma pessoa viva registrada até agora chegou perto da marca de Wadlow.
O que essa história mostra além do número
A parte que costuma passar despercebida nesse tipo de manchete é o custo prático de existir fora da escala industrial. Roupa, calçado, cama, transporte, cadeira, porta: nada é fabricado pensando em alguém de 2,20 metros que calça 69.
No caso de Jeison, a solução foi construída aos pedaços. Primeiro veio a improvisação com pneu e tecido, depois o calçado de pano que durava semanas, depois um sapateiro alemão disposto a fabricar sob encomenda e, por fim, um certificado que transformou o problema em título. Entre a sandália de borracha reaproveitada e o sapato feito à mão na Europa há uma distância que não é só de quilômetros.
E você, imaginava que existisse alguém que precisa mandar fazer cada par de sapato do outro lado do mundo? Conta nos comentários qual é o seu número e o quanto você já sofreu para achar calçado no seu tamanho.
