Com a taxa de desemprego no menor nível da série histórica, o mercado nacional recorre à mão de obra imigrante para suprir a demanda industrial, gerando um recorde de contratações formais lideradas por venezuelanos que buscam estabilidade e direitos trabalhistas na região Sul do país
Entre janeiro e outubro de 2025, o Brasil registrou saldo positivo de 73,4 mil vagas formais para estrangeiros, impulsionado pela baixa taxa de desemprego de 5,4% e liderado por imigrantes venezuelanos que ocupam lacunas industriais e de serviços no Sul e Sudeste.
Crescimento exponencial da força de trabalho estrangeira
O total de estrangeiros empregados com carteira assinada no Brasil apresentou um aumento significativo nos últimos anos. Dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) revelam que o saldo ficou positivo em 73,4 mil contratações apenas nos dez primeiros meses de 2025.
Esse volume supera os números registrados em todo o ano anterior, quando o saldo foi de 71,1 mil vagas. O cenário atual representa um salto expressivo de 196,2% em relação a 2020, ano em que a série histórica do Caged começou a utilizar a metodologia atual.
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Os trabalhadores de outras nacionalidades já respondem por cerca de 4% de todas as contratações no mercado formal brasileiro. O total de novas vagas geradas no país no período analisado foi de 1,8 milhão, evidenciando a relevância crescente da mão de obra imigrante na composição da força de trabalho.
A evolução histórica mostra que a participação desses trabalhadores vem crescendo de forma consistente. Em 2020, mesmo com a eliminação geral de postos devido à pandemia, foram contratados 24,8 mil estrangeiros.
No ano seguinte, em 2021, o saldo caiu para 5.200 vagas, representando 0,19% do total. Contudo, a recuperação foi rápida. Em 2022, o número saltou para 35,9 mil contratações, equivalendo a 1,78% do saldo total. Já em 2023, o volume subiu para 47,3 mil, atingindo 3,2%.
Nacionalidades e setores predominantes na economia
Entre as nacionalidades que mais ocupam postos de trabalho formal no Brasil, os venezuelanos lideram com ampla margem. Eles representam 47,8% do total de estrangeiros admitidos em 2025. Esse grupo é seguido pelos haitianos, que ocupam 8,2% das vagas.
Os argentinos aparecem em terceiro lugar, com 4,8% das contratações, seguidos de perto pelos paraguaios, com 4,3%.
O movimento migratório desses grupos impacta diretamente diversos setores da economia nacional, suprindo demandas específicas do mercado.
Esses trabalhadores estão inseridos principalmente no setor de serviços, no comércio e, com grande destaque, nas indústrias. As vagas mais ocupadas por estrangeiros incluem funções operacionais onde há dificuldade de contratação de brasileiros.
A função de alimentador de linha de produção lidera as estatísticas, com um saldo positivo de 13,8 mil contratações até o mês de outubro. Outras ocupações de destaque incluem faxineiros, com 5.300 vagas preenchidas, açougueiros, com 4.700, e serventes de obras, totalizando 4.100 postos.
Contexto econômico e escassez de mão de obra local
O aumento na contratação de estrangeiros ocorre em um cenário de taxa de desemprego em queda histórica. No trimestre encerrado em outubro de 2025, a desocupação ficou em 5,4%, o menor patamar da série histórica iniciada pelo IBGE em 2012.
Essa redução é progressiva: a taxa era de 12,1% em 2021, caiu para 8,3% em 2022, atingiu 7,6% em 2023 e chegou a 6,2% em 2024. A escassez de mão de obra disponível impulsiona a busca por trabalhadores de fora.
Bruno Imaizumi, economista da 4intelligence especializado em mercado de trabalho, afirma que o principal motivo para a absorção dessa mão de obra é o aquecimento do mercado. Segundo ele, o Brasil ganha com a chegada de estrangeiros, compensando a saída de brasileiros em termos líquidos.
A rotatividade no mercado de trabalho também atingiu níveis recordes, chegando a 36,1% dos trabalhadores formais nos últimos 12 meses. No período pré-pandemia, no início de 2020, esse índice estava abaixo de 25%.
Um levantamento da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) corrobora essa visão. O estudo mostra que 20,5% das indústrias paulistas que buscaram novos empregados entre o início de 2024 e março de 2025 não conseguiram preencher as vagas.
Concentração geográfica e perfis de adaptação
A maior parte dos venezuelanos está sendo contratada nos estados da região Sul. Entre janeiro e outubro, 25,9 mil conseguiram emprego formal nessa localidade. Santa Catarina lidera com 10,8 mil contratações.
O Paraná aparece na sequência, com 9.300 vagas preenchidas, seguido pelo Rio Grande do Sul, com 5.600. São Paulo também figura como um estado relevante na absorção dessa força de trabalho, sendo o destino de muitos imigrantes após a chegada ao país.
O venezuelano Miguel, que vive no Brasil há oito anos, é um exemplo dessa integração. Ele escolheu Porto Alegre para morar e trabalha com carteira assinada em um banco privado. Miguel começou sem noção da área comercial, mas aprendeu através dos treinamentos oferecidos pela empresa.
Segundo ele, o esforço vale a pena para alcançar seus objetivos. Além dele, seus pais e irmã também já residem no estado gaúcho. Miguel planeja aprofundar estudos em outros idiomas, como francês ou mandarim, mas pretende permanecer no Brasil.
Para grande parte dos imigrantes, a maior dificuldade é a língua, desconhecendo palavras simples como “copo” e “toalha”. No Brasil, eles conseguem estabilidade ao trabalhar por vários meses consecutivos em empregos formais.
Histórias de qualificação e reconstrução de vida
Muitos imigrantes chegam com qualificações que excedem as vagas iniciais que ocupam. O imigrante venezuelano é visto como alguém que se adapta rápido e cumpre a jornada, sendo considerado uma mão de obra qualificada para os setores que ocupa.
A estratégia comum é se estruturar financeiramente no primeiro momento para, posteriormente, trazer os familiares da Venezuela.
Dados demográficos e fluxo migratório
O movimento migratório recente é explicado em parte por crises humanitárias e políticas. O número de haitianos no Brasil, por exemplo, saltou 106.294% em 12 anos até 2022, passando de 54 para 57.453 indivíduos, reflexo do terremoto de 2010.
No caso da Venezuela, o agravamento das dificuldades socioeconômicas durante a ditadura de Nicolás Maduro impulsionou o êxodo.
O Censo 2022 do IBGE mostra que, entre 2010 e 2022, o número de venezuelanos chegando ao Brasil aumentou de 2.900 para 271,5 mil.
Dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública apontam que, de 2010 a 2025, 182,2 milhões de estrangeiros entraram no Brasil pelos postos de fronteira. No mesmo período, 184,2 milhões deixaram o país.
Isso resultou em um saldo negativo de mais de 2 milhões de pessoas no fluxo geral de entradas e saídas. Apesar desse saldo negativo total, a permanência de estrangeiros para trabalho formal segue uma curva ascendente, preenchendo lacunas vitais na economia brasileira.

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