Operando já na primeira fase, o primeiro centro de dados subaquático em Xangai coloca servidores sob o oceano e usa água do mar para trocar calor em circuitos de tubos de cobre, reduzindo até 90% da energia de refrigeração e sendo abastecido em mais de 95% por eólicas offshore locais.
A China inaugurou em 2025 o primeiro centro de dados subaquático do mundo movido a energia eólica, com investimento total de 1,6 bilhão de yuan e a promessa de mudar o principal gargalo energético da computação: a refrigeração. Em vez de salas cheias de ar-condicionado, a proposta é simples e ousada: deixar o oceano trabalhar.
A iniciativa aparece no momento em que a infraestrutura de TI chinesa cresce e pressiona energia, espaço e eficiência. A pergunta central não é só “funciona?”, mas também “o que muda quando a base física da internet desce para baixo da superfície do mar?”.
Por que submergir centros de dados virou um atalho para eficiência
Centros de dados tradicionais, em terra, aquecem durante a operação e precisam ser mantidos frios para funcionar de forma eficiente. Nessa conta, o sistema de ar-condicionado pode representar até 50% do consumo total de energia, o que transforma a refrigeração em um alvo imediato para qualquer projeto que busque sustentabilidade e escala.
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Ao colocar parte da infraestrutura abaixo da superfície do oceano, o primeiro centro de dados subaquático tenta atacar essa fraqueza estrutural com uma mudança de ambiente, não apenas de equipamento. Em vez de “lutar” contra o calor com ar gelado, a lógica é transferir o calor para um meio naturalmente frio e abundante, reduzindo a demanda elétrica que, em terra, tende a crescer junto com a capacidade computacional.
Como a água do mar vira “ar-condicionado” natural na prática
Na primeira fase, já operacional, os servidores ficam submersos e o resfriamento ocorre por um circuito de troca térmica em tubos de cobre. A comparação usada no próprio desenho do sistema ajuda a visualizar: tubos maiores funcionam como artérias, tubos menores como capilares, levando o fluido refrigerante por caminhos estreitos e controlados, próximos às fontes de calor.
Os servidores de alta potência são descritos como “aquecedores elétricos” pela quantidade de calor gerada. Esse calor é absorvido pelo fluido refrigerante dentro dos tubos menores, provocando mudança de fase de líquido para gás. Depois, o gás sobe pelos tubos maiores até um trocador de calor do tipo casco e tubos, onde troca calor com a água do mar; ao liberar esse calor, o refrigerante volta ao estado líquido e retorna aos tubos menores, reiniciando o ciclo. O resultado prometido é direto: redução de até 90% na energia dedicada à refrigeração.
Energia eólica offshore e a conta elétrica por trás do projeto
Além do resfriamento natural, o projeto se apresenta como ambientalmente mais sustentável por causa da origem da eletricidade: mais de 95% da energia viria de turbinas eólicas offshore. A proposta conecta dois pontos críticos de centros de dados, refrigeração e fornecimento elétrico, tentando reduzir tanto o consumo quanto a pegada energética associada à operação.
Há também um recado sobre escala industrial e custo: o plano cita turbinas a cerca de 30 km do litoral e, em linha com políticas nacionais, a movimentação das eólicas para águas mais profundas com objetivo de desenvolvimento em larga escala. Dentro desse contexto, aparece a afirmação de que, graças às capacidades industriais do país, o custo de geração eólica no mar teria passado a ter retorno em menos de 3 anos e ficado abaixo de 5 centavos por kWh. Mesmo sem entrar em detalhes de metodologia, o ponto é claro: reduzir custo e estabilizar a fonte para sustentar expansão computacional.
Capacidade, fases e a métrica de eficiência que tenta chegar perto do “perfeito”
A primeira fase do primeiro centro de dados subaquático foi apresentada com capacidade de 2,3 MW, enquanto a segunda fase elevaria a capacidade para 24 MW. Essa diferença de escala é importante porque indica que a operação inicial funciona como vitrine técnica e base de aprendizado, enquanto a expansão é onde a proposta de impacto real costuma ser cobrada.
Para medir eficiência, foi citada uma escala de uso de energia chamada escala PE, em que 1,0 representa perfeição. A primeira fase teria sido projetada para alcançar 1,15, um valor descrito como incrivelmente próximo do ideal.
Na prática, esse tipo de indicador reforça a ambição do projeto: não basta funcionar; precisa funcionar com perdas mínimas, especialmente quando a demanda por computação tende a crescer mais rápido do que a oferta “fácil” de energia.
Menos terra ocupada, mais computação na costa e o efeito Xangai
Outra promessa associada ao primeiro centro de dados subaquático é reduzir o uso de terra, tocando em um problema comum de instalações em solo: escassez de recursos terrestres, especialmente em regiões que concentram atividade econômica.
Em uma cidade costeira como Xangai, a ideia de deslocar parte da infraestrutura para o ambiente marinho também conversa com o planejamento urbano e com a pressão por áreas para moradia, indústria e serviços.
O projeto se encaixa no movimento local de fortalecer computação inteligente. Segundo o governo municipal, Xangai já possui mais de 160 instalações ligadas à ciência da computação, e 19 adotariam soluções de fornecimento de energia mais verde.
Nesse cenário, o centro subaquático não aparece isolado, mas como peça de uma estratégia maior: aumentar capacidade computacional, reduzir custo relativo de operação e mostrar um caminho para expandir sem “consumir” ainda mais espaço em terra.
O primeiro centro de dados subaquático combina três promessas que raramente andam juntas em projetos de computação em larga escala: resfriamento com água do mar como mecanismo natural, eletricidade majoritariamente eólica offshore e redução de pressão sobre o uso do solo.
Ao mesmo tempo, ele muda o endereço físico de uma infraestrutura crítica, o que naturalmente coloca novas perguntas em jogo sobre operação, manutenção e expansão para 24 MW.
Se esse modelo se provar consistente, ele pode redesenhar o mapa de onde a computação vive: menos preso a terrenos caros e mais conectado a fontes renováveis e a ambientes capazes de absorver calor de forma eficiente.
E você, olhando para a sua cidade ou região: faria sentido levar parte da infraestrutura digital para o mar para economizar energia e espaço?
Você confiaria mais em centros de dados em terra, onde tudo é “visível”, ou em uma solução submersa que promete eficiência, mas exige outra lógica de manutenção e controle?


This is the colonization of the ocean, treating it as mere real estate. As usual, humans are ignoring the trauma inflicted on the living systems of the sea. Anthropocentrism and hubris are the demise of humanity.