1. Início
  2. Ciência e Tecnologia
  3. Centro da Terra se move alguns milímetros ao longo do ano à medida que neve, chuvas da Amazônia e monções redistribuem trilhões de toneladas de água pelo planeta
Faça um comentário 6 min de leitura

Centro da Terra se move alguns milímetros ao longo do ano à medida que neve, chuvas da Amazônia e monções redistribuem trilhões de toneladas de água pelo planeta

Imagem de perfil do autor Ana Alice
Escrito por Ana Alice Publicado em 20/09/2026 às 23:51
Estudo da Nasa mostra como neve, chuvas na Amazônia, oceanos e monções fazem o centro de massa da Terra oscilar alguns milímetros. - Imagem: Ilustrativa
Estudo da Nasa mostra como neve, chuvas na Amazônia, oceanos e monções fazem o centro de massa da Terra oscilar alguns milímetros. – Imagem: Ilustrativa
Seja o primeiro a reagir!
Reagir ao artigo
Prefira o CPG no Google

Um novo estudo da Nasa mostra como neve, chuva, oceanos e atmosfera redistribuem enormes massas pelo planeta e fazem o centro de massa da Terra oscilar alguns milímetros ao longo das estações.

Pode parecer estranho imaginar que a neve acumulada a milhares de quilômetros do Brasil ou a água das chuvas na Amazônia consiga deslocar o centro de massa de todo o planeta.

Mas um novo estudo divulgado pela Nasa nesta semana mostra que é exatamente isso que acontece, ainda que o movimento seja medido em poucos milímetros.

A pesquisa foi publicada em 14 de setembro de 2026 no Geophysical Journal International e ganhou divulgação da Nasa dois dias depois.

Liderado pelo Laboratório de Propulsão a Jato (JPL), o trabalho apresenta uma nova maneira de calcular com maior precisão como água, gelo e até o ar redistribuem o enorme peso da Terra ao longo das estações.

A Amazônia aparece em uma das partes mais curiosas do estudo.

Em abril, quando a quantidade de água acumulada na Bacia Amazônica chega ao pico sazonal de aproximadamente 2.400 gigatoneladas, essa massa é suficiente para deslocar o centro de massa da Terra cerca de 2,2 milímetros em direção à América do Sul.

O número parece minúsculo, especialmente diante das dimensões do planeta.

Para sistemas que dependem de medições extremamente precisas, porém, alguns milímetros fazem diferença.

É por isso que cientistas acompanham o chamado geocentro, usado como referência em áreas que vão do posicionamento por satélite ao mapeamento, navegação e agricultura de precisão.

O centro da Terra realmente muda de lugar?

Antes de imaginar o interior da Terra mudando fisicamente de lugar, é importante entender o que os pesquisadores estão medindo.

O estudo trata do centro de massa do planeta em relação ao seu centro geométrico, e não do núcleo terrestre se deslocando dentro da Terra.

Se o planeta fosse uma esfera completamente rígida e com a massa distribuída de maneira uniforme, os dois pontos praticamente coincidiriam.

A Terra real é diferente: oceanos se movimentam, rios enchem e esvaziam, neve se acumula e derrete, a água permanece temporariamente nos continentes e até a atmosfera muda sua distribuição conforme as estações.

Toda essa matéria tem peso.

Quando bilhões de toneladas de água deixam uma região e chegam a outra, a distribuição da massa do planeta muda ligeiramente.

Foi justamente essa espécie de “balança planetária” que a equipe tentou medir com mais precisão.

Água, gelo e atmosfera alteram o equilíbrio do planeta

Os cientistas dividiram as principais causas da oscilação em três grandes componentes: oceanos, atmosfera e água armazenada nos continentes.

Este último grupo inclui neve, gelo terrestre, rios, lagos, umidade do solo e águas subterrâneas.

O movimento segue um ritmo ao longo do ano.

Em março, o acúmulo de neve na América do Norte e na Eurásia chega ao máximo sazonal.

O peso adicional desloca o centro de massa da Terra aproximadamente 3 milímetros em direção ao Polo Norte.

Um mês depois, a Amazônia ganha protagonismo.

O pico de água acumulada na bacia ocorre em abril e provoca aquele deslocamento de cerca de 2,2 milímetros na direção da América do Sul.

Oceano Pacífico também participa da oscilação

Entre agosto e outubro, parte da água proveniente das chuvas e do derretimento retorna aos oceanos.

Nesse período, o centro de massa se desloca em direção ao Pacífico Sul.

O tamanho do Oceano Pacífico ajuda a explicar por que ele exerce tanta influência.

As alterações de massa ali são grandes o suficiente para superar sazonalmente as mudanças registradas em outros oceanos, embora mares menores também contribuam para a oscilação.

No Sudeste Asiático acontece outro fenômeno importante.

A água associada às monções chega a aproximadamente 600 gigatoneladas no período de máxima concentração considerado pelo estudo, acrescentando mais uma contribuição ao movimento anual do geocentro.

Até a atmosfera entra nessa conta

A atmosfera também participa dessa redistribuição de massa.

Os pesquisadores utilizaram um modelo do Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo para estimar a movimentação da massa atmosférica.

O ar frio e mais denso durante o inverno contribui para redistribuir peso entre diferentes regiões do planeta conforme os hemisférios atravessam suas estações.

Descobrir que o centro de massa da Terra se move não é novidade.

Cientistas trabalham há décadas para localizar esse ponto usando técnicas de geodésia espacial.

O problema é descobrir exatamente quanto ele se desloca.

Diferença de 7 milímetros intrigava os pesquisadores

Duas estimativas internacionais publicadas em 2017 e 2023 apresentaram uma diferença de aproximadamente 7 milímetros.

Para o cotidiano, isso seria praticamente invisível.

Para uma oscilação planetária que também acontece na escala de milímetros, a diferença é grande.

A equipe liderada pelo geocientista Donald Argus, do JPL, tentou diminuir essa incerteza combinando diferentes formas de acompanhamento por satélite.

Satélites ajudam a localizar o centro de massa

Uma das técnicas tradicionais utiliza os satélites LAGEOS-1 e LAGEOS-2.

São equipamentos densos revestidos por refletores que permitem medições com laser a partir de estações espalhadas pelo planeta.

Como os satélites orbitam o centro de massa da Terra devido à gravidade, pequenas alterações nas distâncias medidas ajudam os pesquisadores a localizar esse ponto.

O método possui uma dificuldade: as estações terrestres não estão distribuídas uniformemente pelo mundo.

Na nova abordagem, os pesquisadores adicionaram informações de GPS e dados orbitais de outros satélites em órbita baixa.

Também levaram em consideração algo fácil de esquecer: o próprio peso da água e do gelo consegue deformar levemente a crosta terrestre, movimentando inclusive as estações usadas para fazer as medições.

O resultado sugere que a oscilação anual do centro de massa pode ser menor do que se imaginava anteriormente.

Segundo Argus, a nova estimativa indica um movimento anual de aproximadamente metade do valor considerado oito anos atrás.

Mudanças na gravidade revelam onde está a água

Os cálculos também foram comparados com observações da missão GRACE-FO, parceria entre Nasa e o Centro Alemão de Pesquisa em Geociências.

Dois satélites dessa missão voam juntos e conseguem detectar pequenas mudanças na gravidade terrestre.

O funcionamento é curioso.

Quando um dos satélites passa sobre uma região com maior concentração de massa, como uma bacia hidrográfica cheia, a atração gravitacional muda ligeiramente sua trajetória.

Essa alteração modifica a distância em relação ao segundo satélite e permite medir mudanças na distribuição de água pelo planeta.

Por que alguns milímetros importam tanto?

É nesse ponto que aqueles poucos milímetros deixam de parecer apenas uma curiosidade científica.

O centro de massa da Terra funciona como referência para sistemas de posicionamento extremamente precisos.

Quanto melhor os pesquisadores entendem sua movimentação, mais confiáveis podem se tornar os sistemas de referência usados em mapas, navegação, acompanhamento do nível do mar, logística e agricultura de precisão.

No Brasil, a pesquisa ainda revela uma dimensão pouco intuitiva do ciclo de águas da Amazônia.

A cheia da bacia não altera apenas rios e paisagens locais: durante algumas semanas do ano, a quantidade de água acumulada é grande o bastante para participar de uma redistribuição de massa detectável na escala do planeta.

A mudança continua sendo microscópica diante dos aproximadamente 12.700 quilômetros de diâmetro da Terra.

Ainda assim, os instrumentos atuais conseguem enxergar aquilo que seria impossível perceber olhando para o chão: ao longo do ano, neve, chuva, oceanos e atmosfera fazem o ponto de equilíbrio do planeta oscilar silenciosamente por alguns milímetros.

Inscreva-se
Notificar de
guest
0 Comentários
Mais recente
Mais antigos Mais votado
Ana Alice

Redatora e analista de conteúdo. Escreve para o site Click Petróleo e Gás (CPG) desde 2024 e é especialista em criar textos sobre temas diversos como economia, empregos e forças armadas.

Compartilhar em aplicativos
Baixar aplicativo
0
Adoraríamos sua opnião sobre esse assunto, comente!x