A Holanda convive com a água há séculos, um quarto do país está abaixo do nível do mar e sem diques e bombas a região de Amsterdã estaria debaixo d’água
A Holanda é provavelmente o único país do mundo que existe porque seus habitantes decidiram que o mar não mandava neles. Um quarto do território holandês está abaixo do nível do mar. Sem o sistema de diques, barragens e estações de bombeamento construído ao longo de séculos, cidades como Amsterdã, Roterdã e Haia simplesmente não existiriam.
Os holandeses são, desde sempre, engenheiros da água.
Mas com as mudanças climáticas elevando o nível do mar e intensificando as chuvas, até os diques mais sofisticados têm limites.
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A pergunta que os arquitetos holandeses se fizeram foi: e se, em vez de lutar contra a água, a gente morasse em cima dela?
O bairro Waterbuurt em Amsterdã: casas que boiam de verdade
Em IJburg, um bairro construído em ilhas artificiais no leste de Amsterdã, existe o Waterbuurt, o bairro da água.
São dezenas de casas que flutuam sobre o lago IJ.
Cada casa é construída sobre uma fundação de concreto oca que funciona como um barco.
Essa base é amarrada a estacas no fundo, mas tem liberdade para subir e descer conforme o nível da água muda.
Quando a maré sobe, as casas sobem junto. Quando desce, elas descem.
Os moradores nem percebem o movimento. É suave como o balanço de um barco grande.

O arquiteto que projeta cidades sobre a água
O maior nome da arquitetura flutuante no mundo é o holandês Koen Olthuis, fundador do escritório Waterstudio.
Olthuis projeta não apenas casas, mas bairros, parques e até fazendas que flutuam.
Um dos seus projetos mais conhecidos é uma fazenda flutuante em Roterdã que produz leite e iogurte sobre a água do porto.
A ideia de Olthuis é que as cidades do futuro terão uma parte em terra firme e outra sobre a água.
Ele chama isso de cidades anfíbias.
Funciona como uma casa normal, mas flutua
Por dentro, uma casa flutuante holandesa é idêntica a qualquer casa em terra.
Tem banheiro, cozinha, quartos, aquecimento central, eletricidade e internet.
A diferença está na fundação.
Em vez de alicerce de concreto enterrado no solo, a base é um caixão de concreto leve e impermeável que boia.
As conexões de água, esgoto e eletricidade são flexíveis, como mangueiras, para acompanhar o movimento.
O custo de uma casa flutuante é cerca de 10 a 25% mais alto que uma casa convencional equivalente em terra.
Mas para quem mora num país ameaçado por enchentes, esse custo extra pode ser a diferença entre ter casa ou perder tudo.
Por que o mundo inteiro está olhando para a Holanda
Com o nível do mar subindo e chuvas extremas ficando mais frequentes, cidades costeiras do mundo inteiro enfrentam o mesmo problema.
Miami, Jacarta, Bangkok, Veneza, Recife, todas correm risco de inundação nas próximas décadas.
A Holanda, por ter enfrentado esse problema há 800 anos, está décadas à frente na solução.
Delegações de urbanistas de mais de 30 países já visitaram o Waterbuurt para estudar o modelo.
As Maldivas, um país que pode desaparecer com a elevação do mar, está desenvolvendo uma cidade flutuante com tecnologia holandesa.
As limitações da vida sobre a água
Nem tudo é perfeito na vida flutuante.
As casas dependem de amarras e estacas que precisam de manutenção.
Em tempestades fortes, o balanço pode ser perceptível.
Animais de estimação precisam se adaptar, cães não podem simplesmente correr para o quintal.
E a revenda é mais complexa, porque nem todos os compradores aceitam viver sobre a água.
Mas para um país que literalmente inventou terra onde antes havia mar, morar sobre a água é só mais um capítulo de uma história de 8 séculos.
E talvez, para o resto do mundo, seja o próximo capítulo.

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