Um novo estudo mostra que, desde 2010, o crescimento dos manguezais supera as perdas, e a perda líquida desde os anos 1980 caiu para cerca de 849 km². O motor principal é a regeneração natural. Mas a recuperação não é uniforme e parte do avanço pode ter um lado obscuro.
Capazes de armazenar até cinco vezes mais carbono que as florestas terrestres e de proteger milhões de pessoas contra tsunamis e tempestades, os manguezais do planeta ressurgem após décadas de destruição e surpreendem cientistas com sua impressionante capacidade natural de regeneração. Segundo a BBC News, divulgada em junho pelo G1 as árvores dos mangues vinham em rápido declínio havia décadas, derrubadas para a construção de casas e a instalação de fazendas de criação de peixes.
A virada, porém, veio acompanhada de uma ressalva importante. De acordo com um novo estudo divulgado pela BBC News, desde 2010 o crescimento dos manguezais pelo mundo passou a superar as perdas anuais, graças ao reforço das proteções legais em vários países e à maior consciência das pessoas após desastres como o tsunami de 2004 no Oceano Índico. Segundo os pesquisadores, porém, o principal fator é a notável capacidade de regeneração natural desses ambientes quando os seres humanos param de destruir os mangues.
Por que os manguezais são tão valiosos

Esses ecossistemas costeiros prestam serviços que poucos percebem. Os manguezais são heróis pouco reconhecidos do meio ambiente, porque armazenam até cinco vezes mais dióxido de carbono por área que as florestas terrestres, e suas raízes emaranhadas reduzem a velocidade das ondas e protegem comunidades litorâneas contra marés de tempestade e tsunamis. Não é à toa que aparecem como peça central na proteção das costas.
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As mesmas raízes sustentam a vida marinha. De acordo com o estudo, esses emaranhados formam um berçário perfeito para muitas espécies de peixes e outros animais marinhos, que ficam abrigados dos predadores e encontram alimento em abundância. Segundo a reportagem, todos esses benefícios ficaram seriamente ameaçados no século passado, quando o avanço da criação de peixes, da agricultura e das cidades litorâneas levou muitos manguezais a serem derrubados.
De 12 mil km² destruídos à virada desde 2010
A escala da destruição foi enorme. Segundo o estudo, de 1980 a 2010 mais de 12 mil quilômetros quadrados de manguezais foram destruídos na Ásia, na África e no continente americano, uma área equivalente a duas vezes o tamanho do Distrito Federal. De acordo com a BBC News, o novo trabalho mostra uma reversão dessa tendência, sobretudo na última década, com a perda líquida total desde os anos 1980 reduzida para cerca de 849 km².
A maior parte da recuperação não foi plantada, e sim natural. Segundo os pesquisadores, o trabalho de restauração ajudou as florestas degradadas a se recuperarem, mas a grande mudança veio da expansão natural dos manguezais depois da queda do desmatamento, com as áreas se estabilizando na Indonésia e crescendo em Mianmar, dois dos países com mais mangues do mundo. De acordo com o estudo, na Indonésia o tsunami de 2004 ajudou a mudar a mentalidade sobre a importância dessas florestas, enquanto em Mianmar o ciclone Nargis, em 2008, e a proibição nacional do desmatamento, em 2016, tiveram efeito parecido.
Satélites, regeneração natural e a ressalva dos cientistas
A tecnologia ajudou a enxergar o que antes passava despercebido. Segundo os pesquisadores, o estudo usou um sistema diferente de imagens de satélite, com os dados do Landsat, para mapear as florestas em mais detalhe, o que revelou muito mais árvores novas do que os trabalhos anteriores. “Este é um avanço considerável em relação às avaliações globais anteriores”, afirmou Elizabeth Robinson, diretora do Instituto de Pesquisa Grantham, em Londres, que não participou do estudo.
Mas parte da expansão tem dois lados. Em muitos países, incluindo o Brasil, novos manguezais tomaram conta das margens dos rios e dos litorais por causa da grande quantidade de nutrientes nos sedimentos, fruto da destruição de florestas e da mineração no interior, que levaram nutrientes como o nitrogênio aos cursos d’água. “Existem mais manguezais do que pensávamos e eles estão demonstrando sua resiliência”, disse Pete Bunting, da Universidade de Aberystwyth, no Reino Unido, que ponderou que isso só é realmente uma boa notícia se não houver desordem rio acima.
Onde a destruição continua e o que ainda ameaça os manguezais

A recuperação não é igual no mundo todo. Segundo o estudo, a combinação de restauração e queda da destruição foi um sucesso, mas de forma desigual, e a África central e oriental aparece como foco de perda. De acordo com Bunting, o delta do rio Níger virou símbolo dos impactos da poluição sobre os manguezais, com a poluição por petróleo causando danos em massa e oleodutos abrindo linhas retas em meio às florestas, visíveis até no Google Earth.
Os ciclones seguem como uma ameaça constante. Os ciclones tropicais respondem por algumas das maiores perdas anuais de manguezais registradas pelo estudo, da Austrália ao mar do Caribe. Ainda assim, os autores concordam que a recuperação é uma boa notícia, e o trabalho mostrou que muitos mangues existentes estão se fortalecendo, com a proporção de florestas de dossel fechado, as mais densas em carbono, crescendo cerca de 20% desde os anos 1980. “Estamos seguindo na direção certa”, resumiu o principal autor, Zhen Zhang, da Universidade Tulane, nos Estados Unidos.
Os manguezais do planeta, capazes de armazenar até cinco vezes mais carbono que as florestas terrestres e de proteger comunidades inteiras contra tsunamis e tempestades, voltaram a crescer após décadas de destruição, com a perda líquida desde os anos 1980 reduzida a cerca de 849 km² e o crescimento superando as perdas desde 2010.
O motor principal é a regeneração natural, somada às proteções legais, à consciência reforçada após o tsunami de 2004 e ao mapeamento mais preciso por satélite. Ainda assim, a recuperação não é uniforme, já que a África central e oriental e o delta do rio Níger, poluído pelo petróleo, seguem perdendo mangues, os ciclones continuam ameaçando, e parte do avanço, inclusive no Brasil, pode refletir danos ambientais rio acima.
E você, achava que os manguezais eram tão importantes para o clima e para a proteção do litoral, ou se surpreendeu com a capacidade de recuperação dessas florestas? Comente a sua opinião e troque ideias com outros leitores sobre o tema, com respeito às diferentes visões.

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