Mercado de trabalho do varejo vive paradoxo com desemprego baixo e recorde de vagas temporárias, enquanto empresas ampliam salários e mudam escalas sem conseguir atrair candidatos.
O varejo brasileiro chega ao fim de ano com recorde de vagas temporárias e, ao mesmo tempo, dificuldade inédita para encontrar gente disposta a ocupá-las.
Mesmo com a taxa de desemprego em 5,4% no trimestre encerrado em outubro, o menor nível desde 2012, empresas como Magazine Luiza e Supermercados BH mantêm milhares de postos em aberto e vêm ampliando salários, bônus e mudando escalas para tentar atrair trabalhadores.
Segundo a Confederação Nacional do Comércio (CNC), o setor abriu 112,6 mil vagas temporárias, o maior volume em 12 anos.
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Mais da metade está concentrada em supermercados, vestuário e calçados, segmentos que sentem com mais força a falta de mão de obra.
Hestivenis e a disputa por trabalhadores no Magazine Luiza
Segundo matéria publicada pelo jornal Folha de S. Paulo, no Magazine Luiza, a resposta à disputa por trabalhadores passa por salários reajustados, metas e um pacote de benefícios mais agressivo na área de logística.
É o caso de Hestivenis Alves de Oliveira, o Nino, de 21 anos, auxiliar de movimentação em um centro de distribuição em Guarulhos.
Ele foi contratado como temporário em outubro e efetivado em novembro.
Recebe cerca de R$ 2.200 mensais, valor que pode subir em 15% com bônus por assiduidade e metas, chegando a 30% no Natal.
Além disso, participa da “Black Box”, sorteio interno que distribui prêmios como televisores, smartphones, geladeiras e valores em dinheiro para quase 13 mil trabalhadores da área de logística, incluindo 2.900 temporários.
Nino afirma que os incentivos ajudam, mas destaca que o respeito no ambiente de trabalho pesa tanto quanto o ganho adicional.
O Magalu, que concentra 70% das vendas no online e opera também pelo Magalog, destinou todos os temporários à área de logística, responsável por abastecer cerca de 1.200 lojas físicas.
A companhia afirma ter reajustado salários da logística acima da inflação.
Em polos como Extrema (MG), oferece cursos de capacitação para a comunidade.
Em grandes centros urbanos, usa plataformas de emprego, enquanto no interior aposta em redes sociais como WhatsApp, Instagram e TikTok.
Crescimento das vagas e salários pressionados pelo fim de ano
A combinação de Black Friday e Natal, períodos que podem representar 30% das vendas anuais, faz as empresas aumentarem suas equipes em torno de 20% nos dois últimos meses do ano.
Mesmo assim, o setor enfrenta dificuldade inédita para atrair mão de obra.
O salário médio de admissão, estimado em R$ 1.983,54, registrou ganho real de 2,7%.
Ainda assim, não tem sido suficiente para preencher as vagas.
O economista Fábio Bentes, da CNC, relaciona a alta salarial à escassez de mão de obra.
Além de vendedores, há demanda crescente por operadores de caixa, técnicos de vendas, almoxarifes e armazenistas, especialmente por causa da expansão do e-commerce.
Em funções que exigem maior qualificação, como telemarketing, analistas de mercado, analistas de negócios, demonstradores e motoristas, os salários também sobem acima da média.
Entre as cem profissões mais contratadas pelo varejo, 57% mostram indícios de escassez.
Rotatividade aumenta pressão em supermercados
No varejo alimentar, a falta de trabalhadores aparece tanto na contratação quanto na retenção.
A rede Supermercados BH, quarta maior do país, emprega 44 mil pessoas, mas mantém 4.000 vagas em aberto.
Na Plurix, a rotatividade chega a 50%.
Para Daniel Sakamoto, da Confederação Nacional dos Dirigentes Lojistas, trabalhadores têm hoje mais opções e priorizam jornadas flexíveis, o que pressiona o varejo, ainda baseado na escala 6×1, com trabalho em fins de semana e feriados.
Empresas testam novas escalas e folgas adicionais
Algumas redes tentam responder ao cenário oferecendo mais equilíbrio entre vida pessoal e trabalho.
A Cobasi, líder do varejo pet e em processo de fusão com a Petz, adotou dois domingos de folga por mês, ampliando o mínimo exigido pela legislação.
Também criou o “short saturday”, antecipando a entrada e reduzindo o expediente de gerentes aos sábados quando vão folgar no domingo.
A empresa fornece ainda vale-refeição diário de R$ 24, acima da obrigação legal.
Já a sueca H&M, que abriu sua primeira loja no Brasil em agosto, implantou a escala 5×2, oferecendo dois dias de descanso semanais a todos os funcionários de loja.
Debate sobre custos e impacto no consumidor
O presidente do Instituto para Desenvolvimento do Varejo (IDV), Jorge Gonçalves Filho, afirma que alterar jornadas e escalas aumenta custos e que esses valores acabam repassados ao consumidor.
Segundo ele, embora o setor queira melhorar salários, a carga tributária e o peso da folha dificultam avanços estruturais.
Espírito Santo vai testar varejo fechado aos domingos
No Espírito Santo, supermercados e lojas de material de construção deverão fechar aos domingos entre março e outubro de 2026, conforme convenção coletiva assinada em novembro.
A decisão busca reduzir um déficit de 20% de mão de obra.
O acordo prevê ainda aumento salarial de 7%.
Para o vice-presidente da Fecomércio-ES, José Carlos Bergamin, a medida pode reduzir custos e melhorar a qualidade de vida dos trabalhadores, já que muitas lojas permanecem abertas por longos períodos mesmo com a expansão das vendas online.
Setor de supermercados mantém milhares de vagas abertas
Em todo o país, a Associação Brasileira de Supermercados (Abras) estima cerca de 350 mil a 357 mil vagas em aberto.
O economista Leandro Rosadas avalia que a automação deve ganhar espaço como resposta parcial, com expansão de self-checkouts e vendas assistidas por IA em canais como WhatsApp.
Para funções físicas, como reposição e corte de carnes, ele afirma que a saída será aumento salarial e compensação do custo extra com eficiência em energia, embalagens, aluguel e negociações com a indústria.
Qualidade de vida supera salário para parte dos trabalhadores
Pesquisa do EDC Group, realizada com 476 profissionais, revelou que 30% priorizam qualidade de vida.
Trabalho remoto e híbrido aparecem na sequência, somando 23,5%, seguidos de plano de carreira, mencionado por 16,8%.
O pacote de benefícios foi lembrado por apenas 8%.
Para o presidente do grupo, Daniel Machado de Campos Neto, aumentos salariais têm efeito curto e não sustentam a permanência de profissionais se o ambiente de trabalho não oferecer boas condições.
Num mercado em que sobram vagas, falta mão de obra e cresce a exigência por jornadas mais humanas, até onde o varejo conseguirá equilibrar custos, escala e remuneração para não perder de vez quem já não aceita ganhar R$ 2.900 com bônus em troca de fins de semana inteiros na loja?


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