Francisco Januário de Souza sobreviveu com recursos que conseguiu recuperar do equipamento de emergência e foi recolhido pelo pesqueiro Itamai após uma semana no Atlântico. O pescador chegou ao litoral cearense com sinais de hipotermia, desidratação, inchaço nas pernas e bolhas pelo corpo.
O pescador Francisco Januário de Souza passou oito dias e sete noites à deriva no Atlântico depois de cair no mar e se afastar da embarcação em que trabalhava. Sem conseguir retornar ao pesqueiro, ele sobreviveu primeiro agarrado a uma boia e depois em um bote salva-vidas que inflou apenas parcialmente.
O caso ocorreu em setembro de 2011, durante a primeira viagem de Francisco no pesqueiro Água do Rio Negro, dedicado à pesca de atum nas proximidades de Fernando de Noronha. O próprio pescador relatou a sequência dos acontecimentos em entrevista ao UOL Notícias.
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A situação começou com uma pane no motor do barco. Enquanto a embarcação enfrentava ondas fortes e tinha a capacidade de manobra comprometida, a caixa de um bote salva-vidas se desprendeu e caiu na água levando mantimentos e itens de primeiros socorros.
Francisco entrou no mar para tentar recuperar o equipamento, mas também acabou caindo na água. Os companheiros lançaram uma boia circular e tentaram puxá-lo de volta, porém a corda se rompeu e as ondas começaram a afastá-lo do Água do Rio Negro.
Com o motor avariado, a tripulação não conseguiu alcançar o pescador. Francisco permaneceu durante horas agarrado apenas à boia, levado pelo mar e sem qualquer meio de controlar a direção em que se afastava da embarcação.
O bote reapareceu, mas inflou apenas pela metade

Depois de horas na água, Francisco voltou a encontrar a caixa do bote salva-vidas que havia tentado recuperar. Ele conseguiu abrir o compartimento e acionar o sistema de inflação, mas a estrutura encheu somente pela metade e não ofereceu um abrigo completamente seco ou estável.
Mesmo assim, o bote tornou-se seu principal apoio durante os dias seguintes. A água do mar entrava constantemente na estrutura parcialmente inflada, deixando o pescador molhado durante boa parte do tempo enquanto enfrentava sol, chuva, frio e ondas em alto-mar.
Parte dos suprimentos havia sido perdida. Restaram 16 barras de cereal e dez recipientes de água de 50 mililitros cada, volume que totalizava apenas meio litro e precisava ser administrado sem que Francisco soubesse quando alguma embarcação conseguiria encontrá-lo.
O pescador contou que passou a distribuir a água em pequenos goles ao longo do dia. A comida também foi racionada, porque o estoque disponível precisava durar enquanto ele permanecia isolado e dependente exclusivamente da passagem de outros barcos.
Nos primeiros quatro dias, Francisco afirmou ter ficado sentado e sem conseguir dormir, acompanhando a passagem das horas pelo relógio. Ele só adormeceu no quinto dia e despertou sob chuva forte, ainda dentro do bote incompleto e sem qualquer sinal de que o resgate estivesse próximo.
Durante a deriva, Francisco disse ter visto quatro navios e dois barcos passarem pela região sem que ele fosse recolhido. A possibilidade de salvamento dependia de conseguir ser percebido no mar aberto, onde a distância dificultava chamar a atenção das embarcações.
Comida e água acabaram no oitavo dia
No oitavo dia, os suprimentos chegaram ao fim. Francisco consumiu a última barra de cereal e tomou o último gole da água que havia preservado desde o acidente, quando já completava uma semana exposto ao ambiente marinho.
“Quando tomei o último gole de água, foi que pensei: ‘meu Deus, se ninguém me encontrar hoje, amanhã estarei morto’”, contou o pescador ao UOL ao relembrar o momento em que percebeu que não tinha mais o que comer ou beber.
Ainda naquele dia, ele avistou três embarcações: duas em uma direção e outra no sentido contrário. Uma delas, o pesqueiro Itamai, conseguiu localizá-lo e encerrar a deriva antes que Francisco enfrentasse mais uma noite no oceano sem alimento e água potável.
O resgate ocorreu a aproximadamente 100 quilômetros da praia de Acaraú, no litoral do Ceará, segundo o relato publicado pelo UOL. Francisco havia saído da região próxima a Fernando de Noronha e passou os dias seguintes sendo deslocado pelas correntes sem possibilidade de conduzir o bote de forma convencional.
A exposição prolongada deixou consequências físicas. O pescador apresentava sinais de hipotermia e desidratação, além de inchaço nas pernas e bolhas pelo corpo, e foi encaminhado para atendimento no Hospital Moura Ferreira depois de chegar a Acaraú.
Francisco deixou posteriormente a unidade e seguiu para Natal, onde estava sua família. No Rio Grande do Norte, parentes voltaram a levá-lo a um hospital para avaliação e exames complementares antes que ele continuasse a recuperação em casa.
Natural de Baraúnas, Francisco tinha 61 anos e era pai de seis filhos quando viveu o episódio. Durante os dias em que permaneceu sozinho, afirmou que a fé e o pensamento na família foram referências importantes enquanto esperava ser localizado.
A experiência não encerrou seus planos de trabalhar no mar. Depois do resgate e do retorno a Natal, Francisco disse à Tribuna do Norte que pretendia voltar à atividade da qual dependia para sustentar a família: “Eu não quero passar por outra situação dessa. Mas estou preparado para voltar pro mar”.
