Flávio Silva de Macedo passou em três seleções públicas e escolheu a de gari porque a prefeitura mantinha dois ônibus escolares até Natal. Eram os únicos que o levariam à universidade. Recebeu a carteira da OAB em 31 de março de 2022, aprovado na primeira tentativa.
Ele não escolheu a vassoura por falta de opção. Passou em três seleções públicas e ficou com a de gari em Tibau do Sul por um motivo específico: a prefeitura mantinha dois ônibus escolares que iam até Natal, a 78 quilômetros dali, e era exatamente disso que ele precisava para chegar à universidade, conforme reportagem assinada por Geraldo Jerônimo, da Inter TV Cabugi, publicada pelo G1 Rio Grande do Norte em 7 de abril de 2022.
Flávio Silva de Macedo tinha 39 anos, era casado e pai de dois filhos quando recebeu a carteira da Ordem dos Advogados do Brasil, em 31 de março daquele ano. Foram seis anos de uniforme de gari e seis anos de faculdade de Direito acontecendo ao mesmo tempo. Ele passou na primeira tentativa do exame da Ordem.
A conta que ele fez antes de escolher a vassoura

A lógica veio antes do sacrifício, e ele explica isso sem rodeios. A estratégia era conquistar um cargo público que garantisse o sustento da família sem risco de desemprego, liberando o tempo restante para os estudos, conforme contou em entrevista à TV Migalhas.
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O caminho até ali já tinha sido longo. Ele estudou quatro anos para ser aprovado no serviço público, enquanto trabalhava na assistência administrativa do Detran. As aprovações vieram em série: ficou na suplência do próprio Detran, passou na Guarda Municipal de Tangará e passou para gari em Tibau do Sul. Assumiu a última justamente por causa dos ônibus. Nenhuma das outras vagas oferecia transporte diário até a capital, e sem transporte não havia faculdade.
Um dia que começava às 5h e terminava depois da meia-noite
A rotina não deixa margem para romantização. Flávio acordava todos os dias às 5h. Às 6h já estava varrendo as ruas de Tibau do Sul, sol ou chuva, em jornada de seis horas.
Terminado o expediente, começava o deslocamento. Eram quase duas horas de ônibus escolar até Natal, e o mesmo trajeto na volta. Segundo o relato à TV Migalhas, ele só chegava em casa por volta de meia-noite e meia. Somando ida e volta, o tempo de estrada beirava cinco horas por dia. Com os afazeres domésticos ainda por fazer, restavam cerca de três horas de sono por noite.
O curso era em uma universidade particular de Natal, onde ele entrou depois de ser aprovado em prova. Pagava com parte do salário de gari e contava com a ajuda da mãe.
O primeiro dia de aula quase derrubou tudo
O plano quase desabou logo no início, e por um motivo que não estava na conta. Ele assistiu às primeiras aulas e, no intervalo, percebeu que não estava entendendo nada do que fora dito. Veio o desespero.
O que salvou foi conversar. Ele se aproximou de alguns colegas e ouviu que eles estavam na mesma situação, sem entender a matéria. A descoberta de que a dificuldade era coletiva mudou a leitura do problema. Um colega sugeriu montar um grupo de estudo, e ele aceitou na hora. Não era mais uma questão de capacidade individual, era uma questão de método.
A negociação com o chefe que comprou tempo de biblioteca
O grupo de estudo criou uma nova necessidade: tempo em Natal antes da aula. Flávio procurou o chefe e pediu para começar o expediente mais cedo, de modo a encerrar antes do horário convencional.
O acordo funcionou. Sair antes significava pegar o ônibus antes, e chegar antes significava tempo na biblioteca da universidade com os colegas antes das aulas começarem. Ele não pediu redução de jornada nem folga, pediu para deslocar o próprio horário. É o tipo de arranjo que só funciona quando alguém do outro lado concorda, e a permissão da chefia entrou na conta que produziu o diploma.
Sobre a possibilidade de desistir, ele é categórico: diz que a palavra não existe no dicionário dele e que sempre foi uma pessoa estratégica, empenhada em encontrar saída para os obstáculos que apareciam.
Quarenta minutos de choro na frente do resultado
A ficha caiu quando saiu a aprovação no exame da Ordem, não na formatura. Foi ali que ele entendeu que o objetivo tinha sido cumprido.
Ao ver o próprio nome na lista de aprovados, chorou por quarenta minutos seguidos. Nas palavras dele, veio a lembrança de todo o sacrifício acumulado. Seis anos de madrugadas, estrada e três horas de sono desembocaram em um resultado de tela de computador. A carteira da OAB chegou às mãos dele em 31 de março de 2022.
O que ele ainda não tinha feito quando a reportagem saiu
Aqui vale uma correção que costuma se perder nas versões resumidas dessa história. Flávio não largou a vassoura no dia em que recebeu a carteira. Na data da reportagem, ele seguia como servidor da prefeitura de Tibau do Sul.
Estava de férias e pretendia tirar uma licença para começar a advogar em um escritório. Ou seja, o plano existia, mas ainda não tinha sido executado. A imagem do gari que virou advogado da noite para o dia é mais bonita do que a realidade descrita, que era a de um homem com duas profissões nas mãos e uma transição ainda por fazer.
O que não se sabe quatro anos depois
A reportagem é de abril de 2022. Passados mais de quatro anos, não localizei registro público sobre o desfecho: se a licença foi concedida, se ele efetivamente passou a advogar, em que área atua ou se permanece no quadro da prefeitura.
Há ainda uma divergência de idade entre as fontes. O G1 informa 39 anos em abril de 2022, enquanto a reportagem da Migalhas, publicada doze dias depois, registra 38. Também não constam nas matérias o nome da universidade onde ele se formou, a data do início do curso nem o valor da mensalidade que ele pagava com o salário. O recado que ele deixou, esse permanece: quem tem um sonho não deve desistir dele, esteja em qualquer profissão.
O detalhe mais difícil dessa história não é a madrugada nem a vassoura. É a duração. Seis anos de rotina idêntica, com quase cinco horas diárias de estrada e uma cama que só recebia o dono por três horas.
Conta nos comentários: você conseguiria manter uma rotina dessas por seis anos seguidos, ou acha que existe um limite que o corpo cobra antes? E para quem estuda trabalhando hoje, o que mais atrapalha, o cansaço, o transporte ou a falta de tempo para revisar o que foi visto em aula?
