Bancos projetam até 22 bilhões de litros de etanol de milho em 2030/31, mas alertam para outro insumo essencial: madeira e biomassa para as caldeiras. Em Mato Grosso, a expansão pode exigir novas áreas de eucalipto.
O Brasil pode dobrar de tamanho sua indústria de etanol de milho nos próximos anos e chegar à marca de 22 bilhões de litros em 2030/31. Para transformar essa perspectiva em combustível nas bombas, porém, não bastará colher mais grãos. Uma parte decisiva da expansão dependerá de algo que costuma ficar fora das manchetes: madeira de eucalipto e outras fontes de biomassa para produzir o vapor e a energia usados dentro das usinas.
As contas expostas por especialistas durante a Conferência NovaCana 2026 apontam uma necessidade estimada de 51,2 milhões de toneladas de milho para abastecer a produção projetada. Ao lado desse volume gigantesco de cereal, surge uma segunda corrida industrial, por florestas plantadas, contratos de fornecimento e transporte de madeira. A consequência é surpreendente: uma fábrica pode ter milho e equipamentos, mas enfrentar dificuldade para funcionar de maneira competitiva se faltar combustível para suas caldeiras.
Mais etanol exige 51,2 milhões de toneladas de milho — e uma fonte de energia que não nasce do próprio grão
O alerta foi feito por analistas do Itaú BBA e do Rabobank em debate sobre o avanço do etanol de milho. Segundo reportagem publicada pelo NovaCana em 29 de outubro de 2026, Guilherme Theodoro, gerente de crédito de agronegócio do Itaú BBA, apresentou a projeção de 51,2 milhões de toneladas de milho utilizadas pelo setor na safra 2030/31. O encontro da Conferência NovaCana ocorreu em setembro; a análise foi publicada no fim de outubro.
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Desse total projetado, 25,7 milhões de toneladas estariam concentradas em Mato Grosso, ante uma demanda atualmente estimada em 16,7 milhões no estado. É um salto de 9 milhões de toneladas na compra de grãos pelas unidades industriais mato-grossenses. Os números são estimativas para o horizonte de expansão, não um volume já consumido nem uma meta obrigatória estabelecida pelo governo.
O milho passa por moagem, transformação do amido em açúcares, fermentação e destilação até virar etanol. Essas etapas exigem calor, vapor, secagem e eletricidade. Nas usinas tradicionais de cana, o próprio processamento entrega um combustível abundante: o bagaço. Já as plantas que trabalham exclusivamente com milho precisam organizar uma fonte externa de energia, frequentemente cavacos e lenha de eucalipto cultivado, além de resíduos vegetais quando disponíveis e adequados à tecnologia da unidade.
Essa diferença aparentemente pequena muda a equação de um investimento bilionário. O terreno, os silos e as torres de processamento não resolvem, sozinhos, o problema do fornecimento energético. É preciso garantir madeira colhida de forma regular, transporte, armazenamento e preço previsível durante muitos anos.
Faltariam 218 mil hectares de eucalipto em Mato Grosso num cenário de maior dependência da madeira
Um levantamento da Consultoria Agro do Itaú BBA dimensionou o desafio de forma concreta. Se a expansão projetada fosse atendida com grande dependência da madeira de eucalipto, Mato Grosso necessitaria de aproximadamente 383 mil hectares de florestas plantadas voltadas ao suprimento das usinas até 2030. O estudo compara essa necessidade a uma base estadual de cerca de 165 mil hectares no recorte utilizado e encontra uma diferença potencial de 218 mil hectares.

O cálculo foi detalhado pela Aprosoja/MS em 25 de setembro e divulgado também em cobertura da Forbes Agro. É um cenário técnico, não um diagnóstico de que toda usina está sem combustível ou de que as novas áreas já foram aprovadas para plantio. O resultado dependerá da eficiência das fábricas, de fontes alternativas de biomassa e da disponibilidade efetiva da madeira já plantada.
Para financiar a expansão das florestas energéticas mato-grossenses, o mesmo estudo estima investimentos entre R$ 7,6 bilhões e R$ 14,3 bilhões, conforme a eficiência operacional considerada. Ou seja, o crescimento do etanol pode criar uma nova frente bilionária de plantio florestal, colheita, máquinas, transporte e contratos de fornecimento, além do dinheiro aplicado nas próprias refinarias de grãos.
Há também um obstáculo de calendário: o milho pode ser colhido a cada safra, enquanto o eucalipto normalmente exige um ciclo de vários anos até o corte, frequentemente da ordem de seis a sete anos, dependendo do sistema adotado. Uma usina cuja inauguração está próxima não pode simplesmente plantar todas as árvores que consumirá e esperar que elas estejam prontas no mês seguinte.
A madeira não precisa apenas existir: ela tem de estar perto da fábrica
O custo do frete aparece como outro ponto decisivo. Um grande plantio de eucalipto em determinada região não significa fornecimento barato a uma unidade localizada centenas de quilômetros dali. Madeira para energia tem valor por volume e precisa circular continuamente em caminhões; a distância e a qualidade das estradas podem encarecer uma operação que, no papel, parecia viável.
Raphael Gimenes, analista de Economia da Aprosoja/MS, chamou atenção para esse problema no levantamento da entidade. A expansão das indústrias exige olhar para localização, produtividade, finalidade da madeira, contratos e logística, não apenas para a superfície total plantada. Em Mato Grosso do Sul, por exemplo, a cadeia de celulose já ajudou a formar uma grande base de fornecedores florestais, mas parte dessa madeira tem compradores e contratos próprios; não está automaticamente livre para abastecer etanol.
A Aprosoja/MS apontou 1,985 milhão de hectares de eucalipto no estado na safra 2025/26, conforme os dados utilizados pelo projeto SIGA-MS. O número expressa a dimensão da silvicultura sul-mato-grossense, muito associada ao papel e à celulose. Não deve ser confundido com área destinada exclusivamente às caldeiras das usinas de milho, nem usado para afirmar que Mato Grosso do Sul teria toda a biomassa necessária sem investimentos adicionais.
Há um componente ambiental: ampliar a produção de madeira energética precisa respeitar licenciamento, regras de uso da terra e rastreabilidade. O objetivo não é substituir floresta nativa por um combustível que passaria a ser chamado de limpo. A origem dos materiais também influencia a credibilidade ambiental e o acesso a mercados que exigem comprovação de sustentabilidade.
O cavaco ficou mais caro e reacendeu a disputa por energia no Centro-Oeste
A pressão já aparece em relatos de mercado. Em apresentação do setor repercutida pelo Portal do Agronegócio em 2 de outubro, Plínio Nastari, presidente da Datagro, relatou que o preço de referência do cavaco de eucalipto havia passado de cerca de R$ 60 por metro cúbico para uma faixa de R$ 150 a R$ 250 em condições observadas pelo mercado.
Esses valores são relatos de um dirigente e não uma cotação uniforme válida para todos os municípios, contratos ou momentos. A dimensão da diferença, contudo, ajuda a entender por que o custo energético entrou no radar dos bancos. Uma usina precisa calcular o gasto com madeira durante todo o funcionamento, e não apenas o investimento inicial na construção da caldeira.

Na avaliação publicada pela Brasil Energia em agosto, o analista Filipi Cardoso, do Bradesco, já destacava a origem da energia como uma das primeiras perguntas feitas ao analisar crédito para novos projetos de etanol de milho. O problema não se restringe ao preço da matéria-prima agrícola: falta de fornecimento estável pode afetar custo, rentabilidade e a própria viabilidade de uma indústria.
O Brasil produzia cerca de 10 bilhões de litros; agora há projeções de 22 bilhões e planos ainda maiores
Para dimensionar a velocidade das mudanças, basta olhar a safra em curso. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) projetou em agosto uma produção de 11,91 bilhões de litros de etanol de milho em 2026/27, crescimento de cerca de 17% frente ao ciclo anterior. A estimativa integra um mercado total de etanol, somando cana e milho, de aproximadamente 41,88 bilhões de litros.
Outro estudo do Itaú BBA trabalha com a capacidade industrial instalada: de 10,9 bilhões de litros anuais em 2025 para até 25,3 bilhões em 2030, conforme os cenários apresentados no ano. Não são números diretamente intercambiáveis. Capacidade é quanto as instalações poderiam fabricar; produção é quanto efetivamente fabricam. Por isso, uma perspectiva de 22 bilhões de litros em 2030/31 não equivale a afirmar que 22 bilhões já estejam contratados, vendidos ou garantidos.
As projeções tampouco são consensuais. No Plano Decenal de Expansão de Energia 2036, divulgado em 29 de outubro, o Ministério de Minas e Energia e a Empresa de Pesquisa Energética estimam oferta nacional de 53,1 bilhões de litros de etanol de todas as matérias-primas em 2036, com cerca de 40% provenientes do milho. O documento combina hipóteses e horizonte distintos dos utilizados pelos bancos.
O mesmo plano estima R$ 25,3 bilhões em investimentos em etanol de milho e outros cereais entre 2027 e 2036, dentro de uma previsão mais ampla de R$ 142 bilhões em biocombustíveis. Também é importante separar o investimento nas fábricas do gasto com novas áreas florestais: são frentes econômicas relacionadas, mas não necessariamente contempladas nos mesmos cálculos.
Uma alternativa já está nas usinas de cana: aproveitar o bagaço para fabricar etanol de milho
Não existe apenas um caminho para gerar calor nas refinarias de milho. Os novos projetos podem recorrer, de acordo com as condições locais e o equipamento instalado, a bagaço de cana, capim-elefante, casca de arroz, resíduos agrícolas e outras fontes renováveis. Uma estratégia é aproveitar estruturas já existentes nas usinas que processam cana.
Na Unidade Santa Luzia, em Nova Alvorada do Sul (MS), por exemplo, a Atvos desenvolve uma integração entre o processamento de milho e as operações sucroenergéticas. Conforme descreveu a Brasil Energia, a empresa pretende utilizar bagaço de cana como fonte de calor para a nova linha de etanol de milho. Trata-se de um projeto específico, não de uma solução automaticamente disponível para todas as plantas dedicadas a cereais.
A diversidade é importante porque cada alternativa tem custos, sazonalidade, requisitos de processamento, transporte e emissões próprias. Material próximo à usina pode ser atraente do ponto de vista logístico, mas é necessário avaliar a disponibilidade real e evitar concorrência com usos já estabelecidos para o resíduo.
O crescimento pode beneficiar produtores de milho, florestas plantadas e alimentação animal
Os efeitos da expansão vão além dos tanques de combustível. Usinas compram grãos, contratam fretes e geram coprodutos, como DDG e DDGS, ingredientes utilizados na alimentação animal, além de óleo de milho. Esses materiais podem reforçar relações comerciais com criadores de aves, suínos e bovinos, abrindo outro destino para parte da safra.
Um exemplo concreto dessa escala foi apresentado pelo BNDES em 15 de junho de 2026. O banco aprovou R$ 500 milhões para financiar uma nova planta da FS em Campo Novo do Parecis (MT). O projeto prevê processamento de até 1,2 milhão de toneladas de milho por ano e produção de até 540 milhões de litros de etanol, além de 390 mil toneladas anuais de DDG. São capacidades anunciadas para a unidade projetada, não produção já realizada.
O BNDES também registrou que a FS opera fábricas em Lucas do Rio Verde, Sorriso e Primavera do Leste e utiliza biomassa para sua geração de energia. São exemplos da cadeia produtiva real que precisa ser ampliada e abastecida para atingir as projeções nacionais. O fortalecimento da indústria, entretanto, dependerá da demanda efetiva, dos custos dos grãos e da viabilidade de energia e logística em cada região.
O desafio até 2030 é plantar e transportar energia na mesma velocidade em que as fábricas crescem
O mercado ganhou um horizonte ambicioso: bilhões de litros adicionais de etanol de milho e dezenas de milhões de toneladas de grãos a serem transformados. Mas a maior surpresa está no fato de que o principal gargalo de uma fábrica de biocombustível pode estar fora da fábrica — nos viveiros de mudas, nos talhões de eucalipto e nas estradas por onde circula a biomassa.
Nos próximos anos, os indicadores a acompanhar serão a autorização e entrada em operação das usinas, a oferta de madeira por região, a ampliação de áreas florestais, a evolução do frete e a capacidade de aproveitar fontes energéticas alternativas. Se esses elementos avançarem juntos, o país poderá transformar mais milho em combustível. Se não avançarem, parte da expansão anunciada poderá enfrentar custos maiores ou cronogramas mais longos.
