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Etanol brasileiro promete retirar mais carbono do que emite: Usina calcula emissões negativas e revela nova tecnologia que combina biogás, biometano, biofertilizantes e captura de carbono

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Escrito por Noel Budeguer Publicado em 31/10/2026 às 11:01 Atualizado em 31/10/2026 às 11:02
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Fotografia aérea real da planta de biogás e biometano da Cocal em Paraguaçu Paulista (SP)
Planta de biogás e biometano da Cocal em Paraguaçu Paulista (SP), em operação desde 2025. Fotografia de divulgação da Geo bio gas e carbon, recortada para formato horizontal; a captura geológica de CO₂ citada na reportagem permanece em estudo.
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A Cocal calcula que seu etanol poderá alcançar emissões negativas de 11 g CO₂e/MJ ao combinar biogás, biometano, biofertilizantes e captura de carbono. Entenda o que já existe nas usinas e o que ainda falta implantar.

Uma usina de etanol brasileira apresentou um cálculo que parece contrariar a lógica de qualquer combustível: em vez de apenas diminuir a poluição, seu produto poderia chegar a um saldo negativo de 11 gramas de CO₂ equivalente por megajoule de energia. A projeção é da Cocal, produtora de açúcar e etanol no interior paulista, e depende de uma etapa que ainda não entrou em operação na empresa: capturar e armazenar carbono que hoje pode acabar liberado na atmosfera.

O dado foi apresentado pelo diretor-presidente Abel Uchoa na 26ª Conferência Internacional Datagro sobre Açúcar e Etanol, realizada nos dias 26 e 27 de outubro de 2026, em São Paulo. Há, porém, uma diferença fundamental entre o que a companhia já faz e o que pretende alcançar. A Cocal tem plantas de biogás e biometano funcionando; o resultado negativo de –11 g CO₂e/MJ é uma simulação para o futuro, não uma medição certificada do etanol comercializado hoje.

O número surpreendente começa em 20,46 e só fica negativo na etapa que ainda está em estudo

Para chegar ao cenário anunciado, a Cocal mostrou uma sequência de reduções da chamada intensidade de carbono, indicador que estima as emissões de gases de efeito estufa associadas a cada unidade de energia do combustível ao longo de sua cadeia de produção. Não se trata do peso de CO₂ emitido por um carro a cada quilômetro, nem da quantidade de gás capturada em um litro de etanol.

Segundo os cálculos apresentados por Uchoa e publicados pelo portal especializado NovaCana em 30 de outubro, o ponto de partida é de 20,46 g de CO₂ equivalente por megajoule (g CO₂e/MJ). Quando a indústria incorpora uma planta de biogás, a conta projetada recua para 15,01 g. Com biofertilizantes no campo e substituição de diesel por biometano na frota, cairia a 2,69 g.

A última etapa leva o indicador para –11 g CO₂e/MJ, desde que a captura de carbono seja implantada e reconhecida na metodologia aplicável. Para comparação apresentada pela reportagem, a intensidade de referência do combustível fóssil brasileiro é de aproximadamente 87,4 g CO₂e/MJ. A diferença ajuda a entender a ambição do projeto, mas não autoriza afirmar que a tecnologia já tornou o etanol da Cocal um produto de emissões negativas.

Resíduos da cana deixam de ser descarte e alimentam uma segunda indústria dentro da usina

A transformação começa em materiais que já saem do processamento da cana. A vinhaça, líquido gerado após a destilação do etanol, e a torta de filtro, resíduo separado do caldo da cana, entram em biodigestores. Nesses equipamentos, microrganismos degradam a matéria orgânica em condições sem oxigênio e produzem biogás, uma mistura que contém metano e dióxido de carbono.

Após tratamento e purificação, o gás pode virar biometano, combustível renovável usado em indústrias, caminhões e sistemas energéticos. A fração restante do tratamento dos resíduos pode ser aproveitada como biofertilizante, devolvendo nutrientes ao solo. Essa combinação reduz a dependência de insumos e combustíveis fósseis e ajuda a explicar como a intensidade de emissões do etanol poderia diminuir ainda antes de qualquer captura geológica de carbono.

Na Cocal, o processo não é apenas uma ideia de laboratório. A unidade de Narandiba (SP) possui uma planta de biogás instalada, e a empresa também iniciou em setembro de 2025 a operação de uma segunda planta, em Paraguaçu Paulista (SP). As duas instalações pertencem ao sistema industrial de aproveitamento de resíduos da companhia. A captura permanente de carbono planejada para buscar o número negativo é uma etapa distinta, ainda em estudo.

Vista aérea da planta de biogás da Cocal em Narandiba, São Paulo, mostrando estruturas de produção e armazenamento do gás renovável
Unidade de biogás e biometano da Cocal em Narandiba (SP), operação real de aproveitamento de resíduos da cana-de-açúcar. Foto: Geo bio gas&carbon/Divulgação.

Planta de R$ 216 milhões transforma resíduos em até 60 mil metros cúbicos de biometano por dia

O tamanho dessa operação pode ser visto em Paraguaçu Paulista, onde a Cocal inaugurou sua segunda planta de biogás em 27 de setembro de 2025. Segundo a comunicação oficial da companhia, o investimento foi de R$ 216 milhões, com participação do BNDES, e a capacidade alcança até 60 mil metros cúbicos de biometano por dia durante a safra.

Além de vinhaça e torta de filtro, a operação recebe resíduos orgânicos de uma granja parceira. O biogás é purificado e distribuído em cilindros transportados por carretas até consumidores industriais e comerciais. O parceiro tecnológico Geo bio gas&carbon detalha a estrutura da planta e o uso do combustível fora das usinas. A integração permite que duas cadeias, a sucroenergética e a pecuária, aproveitem materiais antes considerados subprodutos.

Em Narandiba, a cadeia é diferente em parte da logística: o biometano também chega a clientes por gasoduto. Em comunicado divulgado em 2021, a Copersucar informou capacidade projetada de 33,5 milhões de metros cúbicos normais de biogás ao ano na unidade. São exemplos concretos de infraestrutura existente que ajuda a explicar a primeira parte da redução de emissões apresentada em outubro.

O diesel dos caminhões entra na conta: biometano avança no transporte de resíduos e açúcar

Produzir um biocombustível renovável é apenas uma parte do desafio ambiental. Caminhões que levam matéria-prima, fertilizantes ou cargas industriais ainda podem queimar diesel, e essas emissões precisam ser contabilizadas quando se calcula a intensidade do produto. Por isso, a Cocal também procura substituir combustível fóssil em operações de transporte.

Uma reportagem da CNN Brasil publicada em 27 de outubro de 2026 informa que uma parceria prevê o uso de 44 caminhões abastecidos com biometano nas operações de Narandiba e Paraguaçu Paulista. O objetivo inclui o transporte de vinhaça e outras movimentações da companhia. O número se refere à operação prevista na parceria, não a uma frota que a reportagem tenha verificado integralmente em circulação.

A Copersucar, por sua vez, mantém a iniciativa BioRota com transportadoras parceiras. Entre abril de 2024 e março de 2026, o programa realizou mais de 13 mil viagens, percorreu cerca de 11 milhões de quilômetros e movimentou aproximadamente 600 mil toneladas de açúcar. Segundo os organizadores, a troca do diesel por gás renovável evitou mais de 8 mil toneladas de CO₂ no período. Esses resultados são do projeto logístico mais amplo, não exclusivamente de uma única usina.

Falta instalar a peça mais ambiciosa: capturar o CO₂ e comprovar seu destino

As plantas de biogás e a troca de combustíveis conseguem reduzir emissões, mas o passo anunciado por Uchoa exige outra tecnologia. Durante a fermentação do etanol, há liberação de dióxido de carbono de origem biogênica, associado ao carbono que a planta absorveu enquanto crescia. Um sistema de captura e armazenamento de carbono pode recolher esse CO₂ antes de sua liberação, comprimi-lo e enviá-lo a formações geológicas apropriadas para estocagem monitorada.

A diferença é decisiva: trocar diesel por biometano evita parte das emissões fósseis; armazenar permanentemente carbono de origem biológica pode gerar uma remoção contabilizável no ciclo do combustível, dependendo dos critérios de medição. Isso não significa que o escapamento de um automóvel movido a etanol deixe de emitir CO₂. A expressão “carbono negativo” diz respeito ao balanço do ciclo de vida considerado no método de cálculo, e não a um motor que elimina toda emissão durante o uso.

Registro do painel sobre etanol com intensidade de carbono neutra ou negativa na Conferência Datagro de outubro de 2026 em São Paulo
Painel sobre etanol rumo à intensidade de carbono neutra ou negativa, realizado na 26ª Conferência Internacional Datagro em São Paulo, outubro de 2026. Foto: Datagro/Divulgação, via Uagro.

Na apresentação de outubro, a Cocal explicou que o projeto de captura ainda depende de avanços técnicos e ambientais. No Brasil, a ANP é responsável pela regulamentação federal da atividade de captura, transporte e estocagem geológica de CO₂ sob o marco detalhado pelo Decreto nº 13.095/2026, publicado em agosto. Projetos também devem observar exigências de licenciamento ambiental, inclusive na esfera estadual, conforme a localização e a natureza da instalação.

O próprio dirigente citou o papel da Cetesb, órgão ambiental paulista, na evolução do empreendimento. A empresa ainda não apresentou uma data definitiva de entrada em operação da captura nem uma medição independente que comprove ter atingido os –11 g CO₂e/MJ em escala comercial.

Outra fabricante brasileira já desenvolve armazenamento geológico, mas o método pode mudar o resultado

O setor brasileiro experimenta caminhos diferentes para o mesmo desafio. No Mato Grosso, a produtora de etanol de milho FS desenvolve um projeto de captura e armazenamento de carbono em sua unidade de Lucas do Rio Verde. A CNN Brasil relatou que a empresa identificou estrutura geológica com potencial de estocar aproximadamente 12 milhões de toneladas de CO₂ ao longo de 30 anos, segundo estimativas apresentadas pela companhia.

O projeto da FS recebeu enquadramento como piloto pela ANP e contempla estudos geológicos, monitoramento e etapas de licenciamento. A fabricante estima que a tecnologia poderia atender aproximadamente 650 milhões de litros anuais de etanol com intensidade de carbono negativa. O resultado final, porém, varia conforme a metodologia de cálculo, o escopo considerado e a comprovação do armazenamento. Isso explica por que projeções de diferentes usinas não devem ser tratadas como números diretamente intercambiáveis.

Etanol com pegada negativa não significa automaticamente combustível mais barato na bomba

Para o brasileiro que abastece o carro, a novidade tem uma consequência possível, mas indireta. Se a remoção de carbono for comprovada e reconhecida por programas de certificação, o etanol poderá alcançar consumidores e mercados interessados em combustíveis de menor impacto climático. Essa vantagem pode criar valor para produtores e abrir novos negócios, inclusive para segmentos difíceis de eletrificar.

Isso não garante queda imediata de preço no posto. A implantação de sistemas de captura, compressão, transporte, monitoramento e armazenamento exige investimentos, e o preço final do etanol também depende de safra, distribuição, tributos e demanda. A RenovaCalc, ferramenta oficial da ANP para calcular a intensidade de carbono dos biocombustíveis, mostra a importância de critérios padronizados na certificação.

Durante o painel de outubro, representantes da Embrapa também destacaram alternativas de redução de emissões, como o uso de biocarvão no solo e a consideração de mudanças no uso da terra. São caminhos diferentes, sujeitos a estudos e regras próprias. Na prática, a discussão deixa de ser apenas sobre fabricar etanol e passa a incluir como ele foi produzido, quais emissões foram evitadas e quanto carbono realmente ficou fora da atmosfera.

O próximo passo da Cocal é transformar projeção ambiental em operação comprovada

A Cocal já possui parte importante da cadeia funcionando: usa resíduos da cana para produzir biogás e biometano, opera estruturas industriais no interior de São Paulo e procura reduzir o consumo de diesel em sua logística. O que separa esse sistema do índice negativo anunciado são, sobretudo, a implantação da captura de carbono, as autorizações necessárias, a medição do armazenamento e a validação da conta ambiental.

Quando essas etapas avançarem, será possível avaliar se a projeção de –11 g CO₂e/MJ se sustenta nos critérios adotados. Até lá, o número funciona como sinal do potencial tecnológico — e de como a disputa por combustíveis renováveis pode passar a envolver não apenas litros produzidos, mas também o carbono que cada usina consegue evitar ou retirar do ciclo.

Você acredita que o etanol brasileiro poderá competir também pela quantidade de carbono que deixa de emitir? Compartilhe sua opinião nos comentários e acompanhe no CPG os próximos passos dessa tecnologia.

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Noel Budeguer

Sou jornalista argentino baseado no Rio de Janeiro, com foco em energia e geopolítica, além de tecnologia e assuntos militares. Produzo análises e reportagens com linguagem acessível, dados, contexto e visão estratégica sobre os movimentos que impactam o Brasil e o mundo. 📩 Contato: noelbudeguer@gmail.com

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