A BP anunciou a venda do controle da Castrol por US$ 6 bilhões como parte de sua estratégia para reduzir a dívida e reforçar o foco no petróleo, em meio a pressões de investidores e mudanças na liderança.
A BP, uma das maiores companhias globais de petróleo e gás, anunciou a venda de uma participação majoritária de 65% da Castrol, sua divisão de lubrificantes, para a gestora americana Stonepeak Partners. A operação faz parte de um movimento mais amplo da empresa para reduzir seu endividamento e ajustar o modelo de negócios diante de um cenário desafiador para o petróleo no mercado internacional.
Com o acordo, a BP deve arrecadar cerca de US$ 6 bilhões. Esse valor inclui não apenas o pagamento pela participação vendida, mas também a antecipação de parte dos dividendos futuros referentes à fatia que continuará sob controle da companhia britânica. Apesar de o montante ficar abaixo das expectativas iniciais de analistas, o negócio é visto como um passo relevante dentro da atual estratégia corporativa.
Pressão de investidores e mudança de rumo estratégico
A venda da Castrol ocorre após um período considerado turbulento para a BP. Sob forte pressão da gestora ativista Elliott Investment Management, a companhia foi levada a revisar profundamente seus planos estratégicos no início do ano. Em fevereiro, a empresa anunciou a redução da exposição a projetos de energias renováveis e a retomada do foco no negócio central de petróleo e gás.
-
Adeus, combustível de petróleo: Qantas e Airbus investem em empresa que quer transformar sacos de lixo doméstico sem separação prévia em gás para abastecer aviões
-
A ANP abre a porteira de 86 novos blocos de petróleo na Margem Equatorial e amplia a fronteira da Foz do Amazonas
-
A OPÉP+ acelerou o retorno de 188 mil barris por dia ao mercado em julho de 2026 e o petróleo caiu de US$ 112 para US$ 89 o barril em menos de dois meses
-
A TotalEnergies assinou um acordo de 20 anos para comprar 2 milhões de toneladas de GNL do Alaska LNG e deu ao projeto a demanda que faltava para sair do papel
Esse reposicionamento, no entanto, não ocorreu sem obstáculos. Além das cobranças por resultados mais rápidos, a BP enfrenta preços do petróleo abaixo das premissas utilizadas em seus modelos financeiros. Esse cenário limita a geração de caixa e aumenta a urgência por medidas que reforcem o balanço.
Ativos à venda e metas ainda distantes
O programa de desinvestimentos da BP prevê a venda de ativos no valor total de US$ 20 bilhões até o fim de 2027. Com a operação envolvendo a Castrol, a empresa informou que já levantou aproximadamente US$ 11 bilhões. Ainda assim, o valor representa pouco mais da metade da meta anunciada.
Diante disso, investidores tendem a manter a pressão por novos avanços. Desde que assumiu o cargo de chairman, em outubro, Albert Manifold conduz uma ampla revisão do portfólio da companhia. Embora o acordo com a Stonepeak seja um sinal concreto de avanço, o ritmo das vendas anteriores foi considerado lento pelo mercado.
Mudanças na liderança e diálogo com investidor ativista
O novo chairman já deixou sua marca ao promover alterações significativas na liderança. Manifold substituiu o então CEO Murray Auchincloss por Meg O’Neill, atual presidente da Woodside Energy Group. A executiva assumirá o comando da BP em abril, em um movimento que busca sinalizar renovação e maior alinhamento estratégico.
Paralelamente, Manifold manteve conversas privadas com a Elliott Investment Management. Segundo informações divulgadas pela Bloomberg News, os encontros foram considerados construtivos. Ainda assim, a expectativa é de que o investidor ativista continue atento à execução do plano e à disciplina financeira da companhia de petróleo.
Castrol vai além dos lubrificantes tradicionais
Embora amplamente conhecida pelos lubrificantes automotivos e industriais, a Castrol também vem investindo em novas frentes tecnológicas. Entre elas, destaca-se o desenvolvimento de soluções de resfriamento líquido para data centers de inteligência artificial, um segmento em crescimento acelerado.
Pelos termos do acordo, a BP manterá uma participação de 35% na Castrol por meio de uma joint venture. Essa fatia permitirá à empresa continuar exposta ao potencial de crescimento do negócio, mesmo após a venda do controle. Além disso, a BP terá a opção de reduzir essa participação após um período de lock-up de dois anos.
Avaliação do negócio e impacto financeiro
A transação avalia a Castrol em US$ 10,1 bilhões, considerando dívida. No entanto, após a dedução de participações minoritárias, o valor implícito do capital próprio cai para cerca de US$ 8 bilhões. Analistas observam que o preço ficou aquém das projeções iniciais, que chegavam a estimar até US$ 10 bilhões pelo negócio.
Segundo a BP, todos os recursos obtidos com a venda serão destinados à redução da dívida, que ultrapassava US$ 26 bilhões ao final do terceiro trimestre. Essa prioridade reflete a necessidade de fortalecer o balanço em um contexto de volatilidade nos preços do petróleo.
“Dividendos acelerados agora ajudarão a reduzir a dívida, mas claramente às custas do fluxo de caixa no médio prazo”, escreveu o analista Biraj Borkhataria, do RBC, em relatório.
“A melhor alternativa de longo prazo teria sido cortar a recompra de ações, já que ela vem sendo financiada pelo balanço, ou vender alguns ativos de exploração e produção em desenvolvimento.”
Reação do mercado e próximos passos
As ações da BP chegaram a subir até 1,4% na quarta-feira (24), antes de passarem a operar praticamente estáveis no meio da manhã em Londres. O movimento reflete uma leitura cautelosa do mercado, que reconhece o esforço da companhia, mas ainda aguarda sinais mais claros de execução consistente.
A conclusão da transação envolvendo a Castrol está prevista para ocorrer até o fim do próximo ano. O fechamento depende de aprovações regulatórias, o que pode influenciar o cronograma final do negócio e os próximos passos da BP no competitivo mercado global de petróleo.
