Tecnologia da Bosch leva etanol para colhedoras de cana já em operação e mira redução do diesel no campo, sem exigir troca imediata da frota. Sistema em teste em usinas brasileiras combina retrofit, motores pesados e a força do setor sucroenergético.
A Bosch iniciou testes em campo de uma tecnologia que permite a colhedoras de cana-de-açúcar operar com diesel e etanol ao mesmo tempo, em uma tentativa de reduzir o uso de combustível fóssil em máquinas agrícolas já em atividade no Brasil.
A solução, chamada Dual Fuel pela companhia, pode substituir parte do diesel por etanol sem alteração do motor original e sem perda de potência, segundo a empresa.
O sistema está em avaliação durante a safra atual em seis usinas de cana-de-açúcar no país, de acordo com Matheus Pintor, chefe comercial da divisão de inovação e novos negócios da Bosch.
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A substituição pode chegar a 60% do consumo de diesel em determinadas condições, enquanto a média prevista pela companhia para veículos e equipamentos pesados é de até 35%, com variação conforme aplicação, motor e operação.
Retrofit diesel-etanol mantém motor original
A proposta da Bosch é adaptar máquinas que já estão no campo, sem exigir a compra imediata de uma nova frota.
Para isso, a empresa desenvolveu um kit complementar, acoplado ao equipamento original, que injeta etanol de forma independente e preserva os sistemas nativos do motor a diesel.
Na prática, a colhedora não passa a funcionar apenas com etanol.
O motor continua sendo diesel, mas recebe o biocombustível em conjunto, conforme a demanda operacional, o regime de trabalho e a calibração feita para cada aplicação.
Segundo a Bosch, o operador pode ativar ou desativar o modo Dual Fuel durante a operação, o que dá flexibilidade ao uso do sistema.
A tecnologia também foi desenhada para manter autonomia, potência e segurança operacional, pontos considerados críticos em máquinas que trabalham por longas jornadas no campo.
Pintor afirmou ao AgFeed que a limitação da substituição está ligada à preservação do desempenho.
“Nosso objetivo era garantir exatamente a mesma performance do motor. Para isso, chegamos a taxas de substituição de até 60%. Se a gente não estivesse preocupado com a potência, poderia se fazer uma substituição maior”, disse.
Etanol produzido nas próprias usinas ganha espaço no campo

A aposta no setor sucroenergético parte de uma combinação prática: as usinas consomem diesel em grande volume e, ao mesmo tempo, produzem o etanol que pode abastecer parte das próprias operações agrícolas.
Uma colhedora de cana pode consumir entre 100 mil e 120 mil litros de diesel por ano, conforme estimativa citada por Pintor ao AgFeed.
Em operações com grande número de máquinas, a troca parcial do combustível fóssil por etanol pode representar uma mudança relevante na matriz energética usada no campo.
“Eles estão produzindo o próprio combustível que vão utilizar no sistema”, afirmou o executivo.
Em outra declaração, Pintor resumiu a estratégia da companhia ao dizer que “o etanol é o futuro, mas ele também é o presente”.
A lógica do retrofit também busca encurtar o tempo de adoção da tecnologia.
Como a vida útil de uma colhedora pode variar de cinco a dez anos, aguardar a renovação integral da frota retardaria a redução do consumo de diesel em operações já instaladas.
Testes da Bosch começaram em motores da mineração
Embora a aplicação atual esteja concentrada nas colhedoras de cana, a origem do projeto não foi o setor agrícola.
A Bosch começou a desenvolver a solução para veículos pesados usados na mineração, especialmente caminhões fora de estrada, empregados no transporte de grandes cargas em áreas industriais.
Nos primeiros ensaios, a empresa trabalhou com motores de grande porte em bancada.
Segundo Pintor, o motor usado nos testes de mineração tinha 85 litros, enquanto o das colhedoras avaliadas no campo tem cerca de 9 litros.
“O motor de mineração que usamos tinha 85 litros. O da colhedora é de 9 litros. São proporções completamente distintas, mas tendo o know-how da tecnologia a gente consegue fazer adaptações”, afirmou o executivo ao AgFeed.
A migração para as máquinas agrícolas ocorreu depois da validação técnica inicial. Agora, os testes em usinas de diferentes portes buscam medir desempenho em condições reais, com variações de terreno, clima, ritmo de colheita e exigência de potência.
Tratores e colhedoras de grãos estão no radar

A Bosch vê potencial para aplicar o mesmo conceito em outros equipamentos agrícolas e industriais, desde que cada máquina passe por avaliação técnica.
Tratores, colhedoras de grãos, locomotivas e caminhões pesados aparecem entre os exemplos citados pela empresa em sua apresentação da tecnologia Dual Fuel.
“O conceito é altamente replicável”, disse Pintor.
“Quando a gente olha para tecnologia como um todo, ela é altamente replicável em colheita de grãos, em outros tipos de equipamento, inclusive em motores maiores ou até menores.”
Ainda assim, a expansão não é automática.
O próprio executivo afirma que a adoção depende de análise caso a caso, já que motores, ciclos de trabalho, calibração e disponibilidade de etanol variam de acordo com cada operação.
No caso das colhedoras de cana, a disponibilidade do biocombustível dentro das próprias usinas favorece o modelo.
Em outras culturas, a viabilidade econômica tende a depender também da logística de abastecimento e da diferença de preço entre diesel e etanol.
Investimento em descarbonização reforça projeto no Brasil
O desenvolvimento da solução ocorre em meio a investimentos da Bosch no Brasil em pesquisa, desenvolvimento e inovação.
A empresa assinou contratos para captar R$ 521 milhões em recursos de fomento junto à Finep e ao BNDES, com aplicação gradual em projetos de mobilidade sustentável, indústria 4.0, sistemas inteligentes de agricultura, remanufatura e tecnologia diesel-etanol.
Separadamente, o BNDES informou em maio de 2026 a aprovação de R$ 29,7 milhões para apoiar projetos da Bosch Soluções Integradas Brasil, incluindo uma frente de descarbonização baseada no uso combinado de diesel e etanol em veículos pesados.
De acordo com o banco, a tecnologia prevê redução média de 35% no consumo de óleo diesel por meio do uso de etanol, com picos de até 60%.
Os projetos são conduzidos pela unidade da Bosch sediada em Campinas, no interior de São Paulo.
A pressão por redução de emissões também avança entre empresas do setor sucroenergético.
A Tereos, por exemplo, anunciou uma trajetória global para atingir emissões líquidas zero de gases de efeito estufa em toda a cadeia de valor até 2050, meta que inclui atividades agrícolas, industriais e comerciais.
Nesse cenário, o retrofit surge como alternativa para reduzir o consumo de diesel antes do fim da vida útil das máquinas.
A tecnologia ainda está em fase de validação nas usinas, e a Bosch não divulgou os nomes das empresas participantes dos testes.

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