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Baterias velhas, painéis solares e até pás eólicas viram novas fontes de metais, e reciclagem pode fornecer até 30% de lítio, níquel e cobalto em 2050

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Escrito por Carla Teles Publicado em 02/10/2026 às 11:10 Atualizado em 02/10/2026 às 11:30
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Baterias velhas, painéis solares e até pás eólicas viram novas fontes de metais, e reciclagem pode fornecer até 30% de lítio, níquel e cobalto em 2050 (1)
Reciclagem na transição energética já recupera mais de 95% de alguns metais e pode suprir até 30% da demanda em 2050. Veja de onde eles virão.
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Tecnologias já recuperam mais de 95% de metais de algumas baterias, até 99,7% da prata de painéis solares e transformam pás eólicas descartadas em matéria-prima para cimento e construção.

Baterias de carros elétricos, painéis solares aposentados, pás de turbinas eólicas e equipamentos antigos da rede elétrica estão começando a assumir uma função inesperada: virar fontes de materiais para a própria transição energética. Em vez de depender apenas de novas minas, empresas e pesquisadores desenvolvem processos para recuperar lítio, níquel, cobalto, cobre, prata, silício, alumínio e aço já incorporados à infraestrutura existente.

A análise foi publicada pela Reuters em 2 de outubro de 2026, em coluna de Gavin Maguire. O autor ressalta que mineração continuará sendo indispensável, mas dados da Agência Internacional de Energia e exemplos industriais indicam que a reciclagem poderá ocupar uma parcela crescente do fornecimento de minerais necessários à eletrificação.

Baterias usadas já permitem recuperar mais de 95% de quatro metais

As baterias oferecem um dos exemplos mais avançados dessa transformação. Durante anos, a preocupação da indústria esteve concentrada em garantir novas fontes minerais de lítio, níquel, cobalto e grafite para atender ao crescimento dos veículos elétricos e dos sistemas estacionários de armazenamento.

Agora, parte dessa atenção começa a se voltar para os materiais que já estão circulando. A norte-americana Redwood Materials afirma recuperar mais de 95% do lítio, níquel, cobalto e cobre presentes em baterias usadas e em resíduos industriais.

A empresa processa anualmente mais de 20 GWh de baterias de íon-lítio e produz acima de 60 mil toneladas métricas de materiais críticos. Esses metais recuperados voltam a representar uma fonte de suprimento sem depender exclusivamente de novas extrações.

A mudança entra em uma nova fase à medida que a primeira geração de grandes baterias de veículos elétricos se aproxima do fim da vida útil, aumentando o volume potencialmente disponível para reciclagem.

Reciclagem pode fornecer até 30% de lítio, níquel e cobalto em 2050

A escala futura pode deixar de ser marginal. Segundo a Agência Internacional de Energia, entre 20% e 30% da demanda mundial por lítio, níquel e cobalto poderá ser atendida por iniciativas ampliadas de reciclagem em 2050.

Na Europa, onde as políticas de reciclagem de materiais estão entre as mais ambiciosas, estudos citados pela Reuters estimam que cerca de 15% do lítio, níquel e manganês e aproximadamente 25% do cobalto utilizados poderão vir da reciclagem já em 2030.

Esses números são projeções e não significam que a mineração deixará de ser necessária. A própria análise destaca que o crescimento da demanda global será grande demais para que a recuperação de materiais consiga suprir tudo.

O efeito esperado é diferente: criar uma segunda fonte de matérias-primas que complemente novas minas, importações e refinarias, reduzindo parte da pressão sobre cadeias consideradas estratégicas.

Painéis solares podem formar mercado de reciclagem de US$ 80 bilhões

A energia solar enfrenta um desafio semelhante. A instalação acelerada de novos painéis exige grandes quantidades de prata, silício e outros materiais, enquanto uma geração mais antiga de módulos começa a chegar ao final de sua vida útil.

Até agora, a reciclagem de painéis concentrou-se principalmente em vidro e alumínio. Recuperar materiais de maior valor, como prata e silício, frequentemente era difícil ou economicamente pouco atraente.

Novos processos começam a alterar essa relação. Pesquisadores da Organização Holandesa para Pesquisa Científica Aplicada demonstraram uma tecnologia assistida por laser capaz de recuperar silício com pureza de até 99,998% e prata com pureza de 99,7%, alcançando rendimento próximo de 97%.

Na Austrália, pesquisadores da Universidade de Newcastle demonstraram recuperação de quase 100% da prata de painéis solares no fim da vida útil utilizando técnicas de flotação já conhecidas pela indústria de mineração.

Valor dos materiais recuperáveis pode saltar de US$ 2 bilhões para US$ 80 bilhões

A dimensão econômica desse estoque deverá aumentar conforme milhões de painéis instalados hoje forem retirados de operação.

A consultoria Rystad Energy estima que o valor global dos materiais recicláveis presentes nos painéis solares pode passar dos cerca de US$ 2 bilhões atuais para aproximadamente US$ 80 bilhões em 2050.

Antes disso, em 2035, a reciclagem de painéis instalados em 2020 poderá fornecer até 8% do polissilício, 11% do alumínio, 2% do cobre e 21% da prata necessária para fabricar novos módulos, segundo os cálculos citados pela Reuters.

Esse cenário permitiria que parte da expansão futura dependesse menos de novos materiais extraídos, utilizando componentes retirados de gerações anteriores de instalações solares.

Pás eólicas que não eram recicláveis começam a substituir carvão e calcário

As turbinas eólicas apresentam um problema diferente. Grande parte de uma turbina já pode ser reciclada, mas as pás permaneceram durante anos como um dos componentes mais difíceis devido aos materiais compostos usados em sua fabricação.

A francesa Veolia desenvolveu um processo que tritura pás de fibra de vidro e transforma o material em pellets utilizados em fornos de cimento. Esses resíduos podem substituir parte do carvão, sílica e calcário empregados na produção.

Uma análise da consultoria ambiental Quantis US calculou que uma pá triturada de 7 toneladas utilizada em um forno de cimento pode reduzir o consumo de carvão em 5 toneladas e evitar o uso de 2,7 toneladas de sílica, 1,9 tonelada de calcário e quase uma tonelada de outros minerais.

Nesse caso, a pá não retorna como matéria-prima para fabricar uma nova turbina, mas substitui recursos virgens utilizados em outros setores industriais.

Transformadores antigos também viram uma espécie de “mina” de cobre

A própria rede elétrica contém outro estoque pouco discutido. A expansão necessária para conectar renováveis, veículos elétricos e novas cargas demanda grandes quantidades de cobre, alumínio e aço.

Ao mesmo tempo, concessionárias estão retirando transformadores, subestações e equipamentos de transmissão antigos que possuem grandes volumes desses mesmos materiais já refinados.

A siderúrgica norte-americana Nucor opera instalações especializadas para processar equipamentos aposentados e ampliar a recuperação de cobre e outros metais não ferrosos utilizados posteriormente em novos componentes de transmissão.

A Reuters destaca que esse estoque tende a crescer conforme a modernização das redes avança. A infraestrutura construída nas últimas décadas começa, assim, a se transformar em fonte secundária de matérias-primas para os equipamentos que irão substituí-la.

Mineração continuará necessária apesar do avanço da reciclagem

O crescimento da reciclagem não significa o desaparecimento de novas minas. A demanda esperada por minerais é grande demais para ser atendida somente por materiais recuperados.

A mudança está na composição do fornecimento. Baterias usadas, painéis aposentados, pás eólicas e equipamentos da rede começam a formar um estoque crescente de matérias-primas que anteriormente terminariam principalmente como resíduos.

Quanto maior for a infraestrutura de eletrificação implantada, maior será também o volume que eventualmente chegará ao fim de sua primeira vida útil e poderá retornar às cadeias industriais.

A próxima etapa dependerá da ampliação industrial dessas tecnologias e de sua viabilidade econômica. Pelas projeções citadas, porém, a reciclagem poderá chegar a atender 20% a 30% da demanda global por lítio, níquel e cobalto em 2050, mantendo a mineração como parte necessária da oferta.

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Carla Teles

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