Experimento GAPS na Antártida coleta 16 TB de dados de antimatéria cósmica e pode revelar a primeira assinatura direta de matéria escura.
Segundo a UCLA Division of Physical Sciences, o experimento GAPS, sigla para General AntiParticle Spectrometer, pousou no Ross Ice Shelf, a 100 km de McMurdo Station, em 10 de janeiro de 2026, após 25 dias voando dois círculos completos ao redor da Antártida no vórtice polar estratosférico. O balão que transportava o instrumento tinha o tamanho de um campo de futebol americano, enquanto o detector suspenso abaixo dele tinha o tamanho de uma casa.
O instrumento foi lançado em 16 de dezembro de 2025 da base NASA Long Duration Balloon em McMurdo Station e atingiu altitude de cruzeiro de 37 quilômetros, acima de 99% da atmosfera da Terra, onde a antimatéria cósmica chega sem ser destruída pelas colisões com moléculas de ar. Durante o voo, parte dos dados foi transmitida por satélite, mas a maior parte, 16 terabytes de leituras brutas, ficou armazenada no sistema de memória do próprio equipamento para recuperação posterior.
Antimatéria cósmica e matéria escura: por que o experimento GAPS procura essa assinatura
A antimatéria cósmica é o espelho da matéria comum. Cada partícula possui uma antipartícula com a mesma massa e carga oposta.
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O elétron tem o pósitron, o próton tem o antipróton e o núcleo de deutério tem o antideutério. Quando partícula e antipartícula se encontram, elas se aniquilam mutuamente e convertem massa em energia.
O universo observável é composto quase inteiramente por matéria comum. A antimatéria natural presente no espaço é produzida por processos conhecidos, como colisões de raios cósmicos de alta energia com o gás interestelar. Esses processos geram antimatéria em faixas de energia previstas pelos modelos já consolidados da física de partículas.
O problema é que a matéria escura pode produzir antimatéria de forma diferente. Como ela não emite, não absorve e não reflete luz, sua presença só pode ser inferida por efeitos gravitacionais.
Se houver produção de antideuterons de baixa energia em quantidade acima do esperado, o sinal pode indicar um processo físico novo e uma possível assinatura direta de matéria escura.
Matéria escura, WIMPs e antideuterons de baixa energia: a faixa que interessa ao GAPS
Se a matéria escura for formada por partículas chamadas WIMPs, duas dessas partículas podem colidir, aniquilar-se e produzir, entre outros produtos, antideuterons de baixa energia.
A assinatura decisiva está justamente na energia dessas partículas, e esse é o ponto central da busca conduzida pelo experimento GAPS na Antártida.

Os antideuterons produzidos por matéria escura devem ter energia cinética abaixo de 0,25 GeV/n, uma faixa em que os processos convencionais de colisão de raios cósmicos produzem quantidades muito menores.
Isso torna essa região do espectro especialmente valiosa para quem tenta separar um sinal comum de um possível indício de nova física.
Detectar um único antideuteron com a energia certa nessa faixa já teria enorme relevância científica. Isso porque a física convencional encontra dificuldade para explicar esse tipo de evento sem recorrer a uma nova fonte. Nesse cenário, a matéria escura deixaria de ser apenas inferida por gravidade e passaria a ter uma assinatura física mensurável.
Como o experimento GAPS detecta antimatéria com a técnica do átomo exótico
O GAPS não usa o método convencional de detecção de antimatéria. Os grandes detectores anteriores trabalham com espectrômetros magnéticos, que usam campos magnéticos intensos para curvar a trajetória das partículas. A partir dessa curvatura, os cientistas inferem carga e momento.
Para antinúcleos de muito baixa energia, como os antideuterons procurados pelo GAPS, esse método perde eficiência.
Seria necessário um campo magnético muito intenso e um instrumento muito mais pesado, o que inviabilizaria a missão em uma plataforma de balão estratosférico. Por isso, o projeto precisou seguir um caminho tecnológico diferente.
O experimento usa a técnica do átomo exótico. Quando um antideuteron entra no detector, ele desacelera e substitui um elétron orbital de um átomo do material detector. Forma-se então um átomo exótico temporário.
Em seguida, o antideuteron cai para níveis orbitais mais internos, emitindo raios X característicos, e depois se aniquila no núcleo do átomo hospedeiro, produzindo uma chuva de píons que o detector registra.
Voo do GAPS na Antártida: 25 dias no vórtice polar a menos 35°C
A razão de o GAPS voar sobre a Antártida está no vórtice polar estratosférico, uma corrente de ventos circulares que gira ao redor do polo sul entre 15 e 45 km de altitude durante o verão austral, entre dezembro e fevereiro. Esse sistema atmosférico cria um loop natural que mantém o balão em circulação ao redor do continente.
Durante o voo, o experimento completou duas voltas completas ao redor da Antártida em 25 dias, cobrindo dezenas de milhares de quilômetros.
A altitude de 37 km colocou o instrumento acima de mais de 99% da massa atmosférica da Terra, o que é essencial porque a antimatéria de baixa energia seria destruída se o detector voasse em camadas atmosféricas mais densas.

A temperatura no detector permaneceu em torno de menos 35°C, condição importante para manter operacionais os 160 detectores de silício.
Esse controle térmico foi garantido por um sistema de tubos capilares de transferência de calor por multifase, sem bomba, desenvolvido especificamente para essa missão científica de alta altitude.
16 terabytes de dados sobre antimatéria e o que a análise do GAPS pode revelar
O dado mais concreto já divulgado sobre o resultado do voo é o volume de informação coletada. O GAPS armazenou 16 terabytes de dados brutos durante os 25 dias da missão. Esse material exigirá meses de análise antes que qualquer resultado científico definitivo seja publicado.
Para dimensionar o volume, 16 terabytes equivalem a cerca de 16 milhões de fotos em alta resolução ou aproximadamente 8.000 horas de vídeo em HD. Cada evento registrado, cada partícula detectada, cada raio X emitido e cada píon gerado por aniquilação precisa ser reconstruído individualmente a partir das leituras dos detectores de silício e dos cintiladores.
A equipe terá de determinar se cada evento é compatível com a assinatura de um antideuteron, de um antipróton ou até de um antihelium, além de separar sinais reais do ruído de fundo. Esse ruído inclui principalmente os prótons dos raios cósmicos, que são bilhões de vezes mais abundantes do que qualquer núcleo de antimatéria.
Antiprótons, antideuterons e a chance de encontrar uma assinatura direta de matéria escura
O GAPS foi projetado para detectar cerca de 500 antiprótons cósmicos por voo, número suficiente para produzir o espectro de energia mais preciso já medido para antiprótons de baixa energia. Esses antiprótons serão essenciais para validar o funcionamento do instrumento antes que a equipe avance para a busca pelos antideuterons, muito mais raros.
Se nenhum antideuteron for encontrado, o resultado ainda terá enorme valor científico. Nesse caso, os pesquisadores poderão estabelecer um limite superior para a quantidade de matéria escura compatível com as propriedades previstas pelos modelos de WIMP, restringindo hipóteses e refinando a física teórica.
Mas, se um ou mais antideuterons forem encontrados na faixa de energia esperada, o impacto será muito maior. Isso significaria a primeira observação de um tipo de antimatéria que a física convencional não consegue produzir em quantidade compatível, o que abriria caminho para a primeira assinatura direta de matéria escura.
Por que a Antártida foi escolhida em vez da Estação Espacial Internacional
A comparação mais óbvia é com a Estação Espacial Internacional. Afinal, se o objetivo é captar antimatéria antes que ela colida com a atmosfera, parece natural imaginar um detector em órbita. Mas a resposta envolve principalmente custo e massa do instrumento.
O AMS-02, maior detector de raios cósmicos já enviado ao espaço e instalado na ISS em 2011, custou cerca de US$ 2 bilhões e pesa 8,5 toneladas.

Já o GAPS tem custo de projeto na casa de dezenas de milhões de dólares, uma diferença de duas ordens de magnitude, o que torna a missão muito mais acessível para universidades e agências nacionais.
O balão a 37 km não oferece as mesmas condições do espaço, porque ainda existe atmosfera residual que pode degradar um pouco as medições de baixa energia. Mesmo assim, o ambiente é suficientemente favorável, já que menos de 1% da massa atmosférica permanece acima do instrumento. Isso faz da Antártida uma solução tecnicamente eficiente e economicamente viável.
Próximos voos do GAPS e o que os dados podem mostrar sobre a matéria escura
A equipe do experimento GAPS planeja realizar pelo menos mais dois voos antárticos após essa primeira missão.
Cada novo voo significa mais dados, mais estatística e mais sensibilidade para identificar eventos extremamente raros no espectro de baixa energia da antimatéria cósmica.
O primeiro voo, com seus 16 terabytes de dados, seus 25 dias no vórtice polar e sua operação a 37 km de altitude, representa apenas o começo do projeto. O valor científico dessa etapa inicial está justamente em abrir uma faixa de observação que nenhum outro instrumento havia explorado com esse tipo de abordagem.
Agora, tudo depende da análise. Se os dados revelarem apenas antiprótons e fundo conhecido, o GAPS já terá produzido uma medição inédita.
Mas, se surgir o sinal certo no ponto certo do espectro, o experimento pode entregar algo que a física busca há décadas: uma evidência observável e direta da matéria escura.


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