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Para salvar crocodilos que morriam envenenados no norte da Austrália, cientistas cortam 2.400 sapos-cururu, removem glândulas letais, injetam substância que provoca náusea e penduram iscas nos rios para ensinar predadores a rejeitar o invasor, reduzindo mortes em até 95%

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Escrito por Ana Alice Publicado em 16/07/2026 às 20:00 Atualizado em 16/07/2026 às 20:03
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Cientistas na Austrália usaram iscas com sapos-cururu para ensinar crocodilos no Kimberley a evitar o invasor e reduzir mortes em até 95%. (Imagem: Ilustrativa)
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Estratégia testada no Kimberley une ciência comportamental, conhecimento indígena e manejo ambiental para reduzir mortes de crocodilos-de-água-doce provocadas por sapos-cururu invasores no norte da Austrália.

Na região de Kimberley, no noroeste da Austrália, cientistas e guardas indígenas testaram uma estratégia incomum para proteger crocodilos-de-água-doce de sapos-cururu invasores: transformar carcaças do próprio anfíbio em iscas que provocam náusea, mas não matam, para ensinar os répteis a rejeitar esse alimento antes que o encontro real seja fatal.

O estudo, publicado em 2024 na revista Proceedings of the Royal Society B, relatou queda de até 95% nas mortes em áreas onde os sapos já estavam presentes havia alguns anos.

A pesquisa foi conduzida por cientistas da Macquarie University, em parceria com os rangers indígenas Bunuba e o Departamento de Biodiversidade, Conservação e Atrações da Austrália Ocidental, o DBCA.

Entre 2019 e 2022, o grupo distribuiu 2.400 iscas feitas com carcaças de sapos-cururu em quatro grandes sistemas de gargantas no Kimberley, usando uma técnica conhecida como aversão condicionada ao sabor.

O método chama atenção porque não tenta erradicar todos os sapos-cururu, tarefa considerada difícil em áreas abertas e extensas do norte australiano.

A lógica é outra: preparar os predadores nativos para reconhecer o invasor como algo que causa mal-estar, sem permitir que eles recebam uma dose letal da toxina.

No caso dos crocodilos-de-água-doce, esse treinamento pode ser decisivo.

A espécie Crocodylus johnstoni não tem defesa natural contra o veneno dos sapos-cururu, importados da América do Sul na década de 1930 para tentar controlar besouros em plantações de cana-de-açúcar.

A medida falhou como controle agrícola e abriu caminho para uma das invasões biológicas mais conhecidas da Austrália.

Sapos-cururu e risco para crocodilos

Os sapos-cururu, conhecidos em inglês como cane toads, carregam toxinas fortes em glândulas localizadas atrás da cabeça.

Quando um predador tenta engolir o animal, pode receber veneno suficiente para morrer em pouco tempo.

A ameaça afeta diferentes espécies nativas, como lagartos, serpentes e crocodilos-de-água-doce.

Sapo-cururu, espécie invasora venenosa que ameaça predadores nativos no norte da Austrália, incluindo crocodilos-de-água-doce. Imagem: Macquarie University/Adobe Stock.
Sapo-cururu, espécie invasora venenosa que ameaça predadores nativos no norte da Austrália, incluindo crocodilos-de-água-doce. Imagem: Macquarie University/Adobe Stock.

Na estação seca do norte tropical australiano, o risco aumenta.

Entre maio e outubro, rios e cursos d’água podem se fragmentar em poças isoladas.

Com menos alimento disponível, crocodilos se concentram em áreas menores, enquanto os sapos procuram os mesmos pontos para se reidratar.

A bióloga Georgia Ward-Fear, autora principal do estudo, afirmou à Macquarie University que os crocodilos-de-água-doce podem ser fortemente impactados no fim da estação seca.

Segundo ela, os animais se reúnem em grande número, encontram pouco alimento e passam a dividir as poças com sapos-cururu, cenário que pode produzir muitas mortes em poucos meses.

Para evitar esse contato fatal, os pesquisadores criaram uma experiência controlada de “comida ruim”.

As carcaças tiveram cabeças, órgãos internos e glândulas tóxicas removidos.

Depois, os restos foram tratados com cloreto de lítio, substância usada no estudo para causar náusea temporária nos crocodilos que comessem a isca.

Crocodilo-de-água-doce, espécie nativa afetada pela expansão dos sapos-cururu no norte da Austrália. Imagem: Macquarie University/Adobe Stock.
Crocodilo-de-água-doce, espécie nativa afetada pela expansão dos sapos-cururu no norte da Austrália. Imagem: Macquarie University/Adobe Stock.

Como funciona a aversão condicionada

A técnica usada no experimento é chamada de aversão condicionada ao sabor.

Em termos simples, ela se baseia em uma associação aprendida: o animal prova algo, passa mal e evita comer aquilo de novo.

Esse mecanismo não é exclusivo dos crocodilos.

Muitas espécies aprendem a rejeitar alimentos depois de uma experiência negativa.

No estudo australiano, os cientistas tentaram aplicar esse comportamento natural a uma situação de conservação: ensinar predadores a evitar um invasor tóxico antes que o encontro com um sapo vivo fosse letal.

Georgia Ward-Fear comparou o processo, em entrevista ao Guardian, a uma refeição ruim que fica marcada na memória.

A ideia era fazer o crocodilo associar o sabor do sapo a uma sensação desagradável, mas sem receber veneno suficiente para morrer.

As iscas eram penduradas sobre as margens dos rios e substituídas ao longo dos dias.

Para medir se os crocodilos estavam apenas evitando qualquer alimento novo ou se realmente rejeitavam os sapos, a equipe também usou pedaços de frango como iscas de controle, sem substância causadora de náusea.

Nos primeiros dias, os crocodilos comeram parte das carcaças.

Depois, passaram a cheirá-las antes de rejeitá-las.

Ao mesmo tempo, continuaram aceitando as iscas de frango, sinal de que a aversão estava ligada aos sapos e não ao sistema de iscas em geral.

Câmera de monitoramento registra crocodilo-de-água-doce investigando uma estação de isca usada no treinamento de aversão ao sabor no Kimberley. Imagem: G. Ward-Fear et al./Science News.
Câmera de monitoramento registra crocodilo-de-água-doce investigando uma estação de isca usada no treinamento de aversão ao sabor no Kimberley. Imagem: G. Ward-Fear et al./Science News.

Rangers Bunuba no manejo dos rios

A operação exigiu presença constante em campo.

Rangers Bunuba e equipes do DBCA coletaram sapos, prepararam iscas, instalaram estações nas margens dos rios, usaram canoas para trocar carcaças e monitoraram o comportamento dos crocodilos.

O coordenador Paul Bin Busu relatou à Macquarie University que, nos primeiros três dias, os crocodilos pegavam os sapos e depois se afastavam.

Mais tarde, segundo ele, os animais começaram a cheirar as carcaças antes de comer; no fim do processo, a maioria das iscas consumidas era de frango, não de sapo.

A participação dos rangers também teve importância cultural.

Para os proprietários tradicionais da região, os crocodilos-de-água-doce têm valor nas histórias do Dreamtime, conjunto de narrativas espirituais de povos aborígenes australianos.

Além disso, fazem parte do equilíbrio ecológico dos rios.

Paul Bin Busu afirmou que perder esses crocodilos para os sapos-cururu poderia alterar a cadeia alimentar local.

Segundo ele, sem os predadores, animais que se alimentam no fundo dos rios consumiriam recursos como judembah, um grande camarão de água doce, e lardy, um peixe estuarino, reduzindo alimento disponível para barramundi e arraias.

Ranger Bunuba participa de monitoramento noturno ligado ao estudo com sapos-cururu e crocodilos-de-água-doce no Kimberley. Imagem: DBCA, via ABC News.
Ranger Bunuba participa de monitoramento noturno ligado ao estudo com sapos-cururu e crocodilos-de-água-doce no Kimberley. Imagem: DBCA, via ABC News.

Redução de mortes no Kimberley

A equipe acompanhou crocodilos e sapos com levantamentos noturnos, usando luzes para localizar os olhos dos animais, além de câmeras acionadas por movimento.

A comparação foi feita entre áreas com treinamento e áreas de controle sem a mesma intervenção.

Os resultados indicaram uma mudança forte no padrão de mortalidade.

Em áreas onde os sapos-cururu estavam chegando, o uso das iscas evitou mortes em massa.

Em locais onde os anfíbios já estavam estabelecidos havia alguns anos, a mortalidade dos crocodilos caiu em até 95%, segundo a Macquarie University e o estudo divulgado pela Royal Society.

O Science News registrou dados de campo que ajudam a dimensionar a diferença.

Em Danggu Geikie Gorge National Park, onde os sapos já haviam chegado, rangers encontraram 63 crocodilos mortos em 2020; após o treinamento aplicado ao grupo que usava a mesma área em 2021, três mortes por ingestão de sapos foram registradas.

Em outro ponto, no Bandilngan National Park, a reportagem informou que nenhum crocodilo comeu sapos após o treinamento.

Já em uma área de controle próxima, sem o mesmo tratamento, entre 20% e 40% dos crocodilos morreram após comer sapos recém-chegados.

Manejo de espécies invasoras

A experiência australiana ajuda a explicar uma mudança de abordagem em alguns projetos de manejo de espécies invasoras.

Quando a remoção total do invasor é inviável, uma alternativa é reduzir o impacto sobre animais nativos vulneráveis.

Isso não elimina o problema dos sapos-cururu.

Os anfíbios continuam se espalhando por regiões do norte da Austrália, e seus efeitos sobre predadores nativos permanecem relevantes.

O treinamento, porém, oferece uma ferramenta específica para locais onde os sapos estão prestes a chegar ou onde os crocodilos ainda podem aprender a evitá-los.

Sara McAllister, do programa estadual de sapos-cururu do DBCA, afirmou que os resultados oferecem uma ferramenta para gestores usarem antes da invasão e também atrás da frente de expansão dos sapos.

A declaração foi publicada pela Macquarie University ao apresentar o estudo.

A própria técnica já havia sido testada em outros predadores.

A equipe de Ward-Fear e Rick Shine usou abordagem semelhante com lagartos-monitores, empregando sapos menores e menos tóxicos para ensinar os animais a evitar adultos letais.

No caso dos crocodilos, a estratégia precisou mudar porque esses répteis caçam de forma diferente e tendem a engolir presas inteiras.

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Ciência comportamental na conservação

O estudo mostra como comportamento animal pode ser usado como ferramenta de conservação.

Em vez de construir barreiras, capturar todos os invasores ou remover predadores de risco, os pesquisadores tentaram alterar a decisão do próprio crocodilo no momento em que ele encontra a presa.

Rick Shine, coautor e biólogo evolutivo da Macquarie University, afirmou que, em um período de globalização e aumento da disseminação de espécies invasoras, a ecologia comportamental pode ajudar a proteger ecossistemas vulneráveis.

A proposta depende de repetição, monitoramento e adaptação ao ambiente local.

Também exige colaboração com quem conhece os rios, os ciclos de seca e os pontos onde crocodilos e sapos se encontram.

Por isso, o estudo destacou a atuação conjunta entre universidade, rangers indígenas e agência pública de conservação.

A imagem das carcaças penduradas sobre rios pode parecer incomum, mas o raciocínio por trás do experimento é direto.

Se o crocodilo aprende que sapo tem gosto de mal-estar, pode evitar o invasor quando ele aparecer vivo na margem da água.

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Ana Alice

Redatora e analista de conteúdo. Escreve para o site Click Petróleo e Gás (CPG) desde 2024 e é especialista em criar textos sobre temas diversos como economia, empregos e forças armadas.

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