Missão Shenzhou-23 levou sementes inéditas de arroz para a estação Tiangong, onde a China vai acompanhar duas gerações do grão em órbita para investigar como a microgravidade prolongada pode afetar sua genética, sua adaptação ambiental e sua capacidade de manter identidade biológica fora da Terra
A China iniciou um dos experimentos agrícolas mais ambiciosos já conduzidos em órbita. Na madrugada de segunda-feira (25), a espaçonave Shenzhou-23 atracou na estação espacial Tiangong, a cerca de 400 quilômetros da superfície terrestre, com três astronautas e 54 quilos de experimentos científicos.
A missão levou sementes de arroz sem histórico de voo espacial para um teste inédito. Agora, os pesquisadores chineses querem cultivar duas gerações consecutivas do grão no espaço e observar como a microgravidade prolongada interfere nos genes da planta.
Experimento mira a genética do arroz em órbita
A pesquisa recebeu o nome técnico de “Estudo dos mecanismos moleculares da estabilidade genética multi-geração do arroz e da regulação de sua adaptabilidade ambiental no espaço”. Segundo Cang Huaixing, pesquisador do Centro de Tecnologia e Engenharia para Utilização Espacial, o estudo busca esclarecer os efeitos da microgravidade sobre a estabilidade genética do arroz.
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A iniciativa também dá sequência a estudos iniciados pela China em 1987. Em 2022, durante a missão Shenzhou-14, cientistas completaram o primeiro ciclo de vida do arroz em órbita. Na ocasião, as sementes germinaram, cresceram, floresceram e produziram novas sementes em 120 dias, com brotos de até 30 centímetros.
Grão sustenta parte da segurança alimentar chinesa
O experimento ganhou relevância porque o arroz ocupa papel central na alimentação da China. Atualmente, o país lidera a produção e o consumo mundial do grão, com consumo aproximado de 210 milhões de toneladas.

Junto com a Índia, a China responde por 57% do consumo e 59% da produção global de arroz. Segundo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos USDA, sem a reserva estratégica chinesa, a relação global entre estoque e consumo cairia para 19,7%, perto do limite de 17% associado à segurança alimentar pela FAO.
China cultiva arroz há cerca de 9 mil anos
A ligação chinesa com o arroz atravessa uma longa história agrícola. Escavações ao longo do Rio Yangtzé indicam que o país cultiva o grão há pelo menos 9 mil anos.
Na atual província de Zhejiang, o povo de Hemudu, por volta de 5.000 a.C., já construía paióis para armazenar grãos. Também usava ferramentas de osso para trabalhar áreas alagadas. Desde então, o arroz organizou paisagens, calendários agrícolas e estruturas sociais de vilarejos.
Tiangong se torna laboratório agrícola fora da Terra
A missão Shenzhou-23 tenta responder uma pergunta que ficou aberta após 2022: o que acontece com os descendentes do arroz cultivado no espaço? Para acompanhar esse processo, um dos astronautas ficará 12 meses consecutivos na estação Tiangong, tempo suficiente para observar duas gerações completas.
Os resultados podem dialogar com pesquisas anteriores sobre sementes irradiadas em missões espaciais. Esses estudos já contribuíram para o desenvolvimento do chamado arroz do mar, voltado a solos salinos e alcalinos. Em quatro anos, essas variedades ocuparam 6,67 milhões de hectares antes improdutivos.
A estação Tiangong, cujo nome significa Palácio Celestial, agora funciona como um improvável arrozal científico. A China, que domesticou o arroz nas planícies do Yangtzé, leva o grão para fora da Terra em busca de respostas sobre alimentação, adaptação e futuro agrícola.
Afinal, se o arroz atravessou 9 mil anos de história na China, até onde ele poderá chegar nas próximas gerações?
