Shigeru Ban mostrou que tubos de papel podem sustentar construções reais e agora aplica madeira laminada cruzada produzida na Ucrânia em uma ampliação cirúrgica na cidade de Lviv, unindo atendimento hospitalar, engenharia simples e fortalecimento da indústria local.
Tubos de papel aparentemente frágeis já serviram como colunas de igrejas, paredes de moradias e divisórias de abrigos. O responsável por transformar esse material comum em arquitetura é Shigeru Ban, arquiteto japonês reconhecido por criar soluções para pessoas atingidas por terremotos, deslocamentos e guerras.
A informação foi publicada por The Guardian, jornal britânico de alcance internacional especializado em notícias e cultura, em 17 de fevereiro de 2026. A publicação apresentou Ban como vencedor da Medalha de Ouro do Instituto Americano de Arquitetos em 2026 e mostrou como o trabalho dele combina materiais descartados, engenharia e ajuda humanitária.
Na Ucrânia, essa experiência ganhou outra escala. Ban trabalha na ampliação de uma área cirúrgica em Lviv, no oeste do país, com madeira laminada cruzada fabricada em território ucraniano. Na apuração de fevereiro de 2026, o edifício aparecia como obra em execução, não como hospital já concluído.
-
Após receber orçamento de US$ 63 mil, casal sem experiência aprende pela internet e ergue casa de 37 m² para a mãe por US$ 33 mil em oito semanas
-
Casas modulares ganham espaço com modelos básicos de 18 m² entregues por cerca de R$ 10,3 mil, enquanto construções tradicionais chegam a R$ 9,3 mil por m² e versões industrializadas podem reduzir custos em até 60%, em mercado que já soma cerca de 13 mil obras em execução na Argentina
-
Torre brutalista de 17 andares erguida em apenas 18 dias com concreto despejado sem parar começa a ser desmontada em seções numa operação planejada para durar 10 meses
-
Duas colunas de aço entortaram no 21º andar do antigo prédio da Pfizer durante conversão para 1.600 apartamentos, fizeram pisos ceder e provocaram evacuações em Manhattan
Como tubos de papel podem sustentar uma construção real
O papel usado nessas obras não é uma folha comum. São tubos grossos, rígidos e fabricados em camadas, semelhantes aos cilindros utilizados como suporte para rolos de tecido. Ban começou a estudar esse material em 1985, depois de perceber que os tubos descartados pela indústria eram muito mais resistentes do que pareciam.
A capacidade de sustentação depende do conjunto. O diâmetro, a espessura, a distância entre os tubos e o tipo de união são definidos para cada construção. Revestimentos também podem proteger o papel contra água e fogo. Por isso, o resultado não nasce de uma improvisação, mas de testes, cálculos e conexões planejadas.
Ban desenvolveu o sistema com o engenheiro estrutural japonês Gengo Matsui. A técnica chegou a receber aprovação do Ministério da Construção do Japão. Esse processo ajuda a entender por que papel não significa estrutura descartável e por que a resistência de um prédio depende tanto do projeto quanto do material escolhido.
Abrigos simples que devolvem privacidade a famílias deslocadas
Depois do terremoto de Kobe, no Japão, em 1995, Ban criou casas modulares para integrantes da comunidade vietnamita que haviam perdido suas moradias. Os tubos formavam as paredes, enquanto caixas de bebidas cheias de sacos de areia funcionavam como base. Uma cobertura leve completava a estrutura.
Os materiais eram baratos, disponíveis e simples de montar. Isso permitia construir espaços com rapidez em um momento de escassez. Ainda assim, a solução não se limitava a oferecer teto. Ela criava uma área protegida para pessoas que precisavam reorganizar a vida depois do desastre.
O arquiteto também desenvolveu divisórias de tubos de papel e tecido para grandes ginásios usados como alojamentos. As peças criam pequenos espaços separados onde famílias podem dormir, trocar de roupa e conversar sem exposição constante. O sistema passou a ser usado em abrigos no Japão e também atendeu refugiados que deixaram a Ucrânia após a invasão em grande escala.
A escolha revela uma ideia central da arquitetura humanitária de Ban: privacidade é uma necessidade básica, inclusive durante uma emergência. Erguer uma parede leve entre camas pode parecer pouco, mas muda a experiência de quem perdeu casa, rotina e segurança de uma só vez.
Da catedral de papel ao hospital de madeira em Lviv
O uso mais simbólico dos tubos apareceu em construções religiosas. Após o terremoto de Kobe, Ban projetou uma igreja temporária para substituir a Igreja Católica de Takatori, destruída pelo tremor. Voluntários ergueram o edifício em cinco semanas, com materiais doados e tubos reciclados usados como colunas.

A igreja virou centro comunitário e recebeu casamentos, concertos, reuniões e exibições de filmes. Dez anos depois, foi desmontada e enviada para Taomi, em Taiwan, outra comunidade atingida por terremoto. O caso mostrou que uma construção temporária pode ganhar nova função, nova cidade e vida muito mais longa do que o prazo inicial sugeria.
Em Christchurch, na Nova Zelândia, tubos com 60 centímetros de diâmetro, reforçados com madeira laminada, formaram a grande estrutura em formato de A da Catedral de Papelão. O templo foi criado depois que o terremoto de 2011 danificou gravemente a antiga catedral da cidade.
Agora, o arquiteto aplica a experiência com sistemas leves e madeira a uma necessidade hospitalar. O projeto de Lviv prevê uma estrutura de madeira laminada cruzada, material formado por camadas de madeira posicionadas em sentidos diferentes e coladas para criar painéis resistentes.
Madeira laminada ucraniana ajuda a manter valor dentro do país
A estrutura do hospital foi planejada principalmente com madeira laminada cruzada produzida na Ucrânia. Núcleos de concreto armado nos quatro cantos dão apoio a partes essenciais do edifício, enquanto os grandes painéis de madeira formam o restante do sistema estrutural.
Essa escolha não responde apenas a uma questão de construção. The Guardian, jornal britânico de alcance internacional especializado em notícias e cultura, registrou que a Ucrânia possui uma das maiores fábricas de madeira laminada do leste europeu. Antes da guerra, parte da produção seguia para Canadá e Estados Unidos, mas as exportações foram afetadas.
Usar o produto no próprio país cria uma saída para uma indústria que perdeu acesso a mercados externos. O dinheiro investido na estrutura pode circular entre fabricantes, transportadores e trabalhadores ucranianos. Assim, a obra hospitalar também se conecta à manutenção de empregos e capacidade produtiva local.
A madeira laminada cruzada ainda permite fabricar grandes elementos antes da chegada ao canteiro. Os painéis prontos seguem para montagem, o que reduz etapas realizadas no local. Em uma cidade pressionada pelos efeitos da guerra, essa organização pode tornar o trabalho mais direto, embora o prazo final da obra não tenha sido informado na fonte usada nesta publicação.
Arquitetura humanitária continua depois que a emergência passa
Shigeru Ban criou a Rede de Arquitetos Voluntários para desenvolver moradias temporárias e outros edifícios destinados a vítimas de desastres e conflitos. A organização utiliza materiais locais, recicláveis e de baixo custo, além de mão de obra disponível nas próprias comunidades.
O objetivo é preencher a distância entre o socorro imediato e a reconstrução permanente. Uma barraca pode proteger alguém por poucos dias, mas famílias deslocadas precisam de privacidade, locais de encontro, escolas, igrejas e hospitais. A arquitetura entra justamente nesse intervalo, quando a emergência continua mesmo depois que as equipes de resgate vão embora.

Ban também questiona a ideia de que uma construção feita com material simples precisa durar pouco. A igreja de Kobe permaneceu por uma década antes de ser transferida. A catedral de Christchurch recebeu reforços de madeira e se tornou uma construção permanente. A duração nasce do cuidado, do cálculo e do uso, não apenas do preço do material.
O hospital de Lviv amplia essa lógica. Em vez de levar uma estrutura pronta de outro país, o projeto utiliza madeira produzida na Ucrânia e combina o recurso local com núcleos de concreto. O edifício atende uma necessidade médica enquanto ajuda a preservar conhecimento industrial dentro do território ucraniano.
Dos tubos descartados pela indústria têxtil aos grandes painéis de madeira, a trajetória de Shigeru Ban mostra que materiais comuns podem assumir funções decisivas quando recebem projeto adequado. Igrejas, abrigos e hospitais surgem como partes de uma mesma ideia: construir para devolver segurança, privacidade e continuidade.
Você confiaria em uma igreja sustentada por tubos de papel ou em um hospital feito principalmente de madeira? Deixe sua opinião e compartilhe esta história com quem se interessa por construção e soluções inesperadas.

