Ferramentas de pedra encontradas em três camadas arqueológicas no Quênia revelam uma tradição tecnológica que resistiu a 300 mil anos de mudanças ambientais profundas
Arqueólogos revelaram novas evidências sobre a antiga tecnologia de fabricação de ferramentas após encontrarem artefatos de pedra da cultura Olduvaiense no sítio de Namorotukunan, localizado na Formação Koobi Fora, no nordeste da Bacia de Turkana, no distrito de Marsabit, Quênia.
A equipe identificou conjuntos de ferramentas distribuídos em três horizontes arqueológicos que abrangem aproximadamente 300 mil anos, datados entre 2,75 e 2,44 milhões de anos atrás.
Esses achados reforçam a continuidade das práticas de produção de utensílios de pedra e mostram escolhas sistemáticas dos tipos de rocha utilizadas.
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Contexto das primeiras tecnologias
As fases mais antigas das tecnologias de fabricação de ferramentas remontam a mais de 3 milhões de anos e destacam a importância da percussão. Essa técnica aparece amplamente nos registros de hominídeos e também em alguns primatas atuais, que usam instrumentos para extrair alimentos.
A produção sistemática de artefatos de pedra com bordas afiadas, característica do período Olduvaiense, surge em sítios da África Oriental como Ledi Geraru e Gona, na Bacia de Afar, na Etiópia, com idade estimada de 2,6 milhões de anos, além de Nyayanga, no oeste do Quênia, que reúne registros entre 2,6 e 2,9 milhões de anos.
No novo estudo, o professor David R. Braun, antropólogo da Universidade George Washington e do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva, liderou a descoberta de múltiplos conjuntos de ferramentas em três horizontes datados de 2,75, 2,58 e 2,44 milhões de anos.
“Este sítio arqueológico revela uma história extraordinária de continuidade cultural”, afirmou Braun. Ele destacou que a tradição tecnológica observada não representa uma inovação isolada, mas sim um ofício duradouro transmitido por longas gerações.
Um retrato de adaptação
Para a pesquisadora Susana Carvalho, diretora de ciência do Parque Nacional da Gorongosa, em Moçambique, as descobertas indicam que o uso de ferramentas pode ter sido uma adaptação mais comum entre ancestrais primatas do que se imaginava.
Segundo ela, Namorotukunan oferece uma visão singular de um ambiente em constante mudança, marcado por rios móveis, incêndios frequentes e crescente aridez, enquanto as ferramentas encontradas permanecem como testemunhos estáveis desse passado distante.
O pesquisador Dan V. Palcu Rolier, do GeoEcoMar, da Universidade de Utrecht e da Universidade de São Paulo, observou que a tradição técnica persistiu ao longo de 300 mil anos.
Ele destacou que os hominídeos produziram ferramentas com bordas afiadas de forma consistente, demonstrando habilidade refinada e conhecimento preservado ao longo das gerações.
Mudanças ambientais e sobrevivência
A equipe utilizou diferentes métodos de datação e análise ambiental, como cinzas vulcânicas, assinaturas químicas de rochas, sinais magnéticos preservados em sedimentos e restos microscópicos de plantas.
Esses elementos ajudaram a reconstruir mudanças profundas na paisagem, oferecendo um panorama das transformações que impactaram os fabricantes das ferramentas.
As evidências mostram que esses hominídeos enfrentaram mudanças significativas.
A tecnologia que desenvolveram permitiu explorar novas dietas, incluindo carne, o que favoreceu sua sobrevivência em meio às alterações ambientais.
De acordo com o pesquisador Niguss Baraki, os instrumentos encontrados indicam que, por volta de 2,75 milhões de anos, os hominídeos já dominavam a produção de lâminas afiadas, sugerindo que a origem da tecnologia Olduvaiense pode ser ainda mais antiga.
A pesquisadora Frances Forrest, da Universidade de Fairfield, acrescentou que marcas de corte associam as ferramentas ao consumo de carne, revelando que a dieta diversificada persistiu enquanto o ambiente mudava.
A paisagem, segundo a pesquisadora Rahab N. Kinyanjui, transformou-se profundamente, passando de pântanos densos a pastagens secas e semidesertos atingidos por incêndios.
Mesmo com essas mudanças, a fabricação de ferramentas continuou inalterada, evidenciando forte resiliência.
Os resultados completos da pesquisa foram divulgados na revista Nature Communications.
