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Após perder a mãe por falta de socorro rápido, um trabalhador de plantação de chá decide transformar a própria moto em ambulância, cria uma maca artesanal, improvisa equipamentos e começa a levar pacientes a hospitais a dezenas de quilômetros

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Escrito por Noel Budeguer Publicado em 08/02/2026 às 22:41 Atualizado em 08/02/2026 às 22:42
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Depois que uma ambulância não chegou a tempo, Karimul amarra um colega na moto e o salva; em seguida, aprimora o veículo com itens de primeiros socorros, amplia rotas de atendimento e inicia um serviço voluntário que já levou milhares de pessoas ao hospital
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Depois que uma ambulância não chegou a tempo, Karimul amarra um colega na moto e o salva; em seguida, aprimora o veículo com itens de primeiros socorros, amplia rotas de atendimento e inicia um serviço voluntário que já levou milhares de pessoas ao hospital

Em comunidades do norte de Bengala Ocidental, na Índia, onde o atendimento de emergência enfrenta barreiras logísticas e a cobertura de ambulâncias é limitada, um trabalhador de plantações de chá se tornou uma referência de socorro para milhares de pessoas.

Uma tragédia que mudou tudo

Em 1995, na aldeia de Dhalabari, distrito de Jalpaiguri, Karimul Haque viveu a pior noite de sua vida. Sua mãe adoeceu gravemente e precisava de atendimento médico urgente. Desesperado, Karimul foi de porta em porta pedindo ajuda aos vizinhos, buscando qualquer veículo que pudesse levá-la ao hospital mais próximo, localizado a cerca de 45 quilômetros de distância. Mas naquela área, marcada por dificuldades de transporte e falta de serviços de emergência na época, não encontrou ambulância nem um meio rápido de deslocamento.

Sua mãe faleceu em casa em decorrência de um ataque cardíaco. A dor foi devastadora, e ainda mais devastadora foi a sensação de não ter conseguido obter o socorro necessário a tempo: “Não consegui encontrar uma ambulância; por isso não pude salvar a vida da minha mãe”, recordaria anos mais tarde, conforme reportagem da Al Jazeera. Naquela noite, Karimul fez um juramento que mudaria a realidade de sua comunidade: ninguém mais morreria por não conseguir chegar a um hospital.

O nascimento da motocicleta-ambulância

Em 1998, um incidente na plantação de chá onde trabalhava acabou por consolidar sua ideia. Um colega de trabalho desmaiou no campo e a ambulância convencional não conseguiu chegar a tempo. Sem pensar duas vezes, Karimul colocou o homem como passageiro em sua motocicleta Bajaj e o levou ao Hospital Sadar de Jalpaiguri. O colega se recuperou completamente, e Karimul compreendeu que sua modesta motocicleta poderia fazer a diferença entre a vida e a morte.

A partir de então, converteu seu veículo em uma ambulância improvisada. Projetou uma maca artesanal, realizou adaptações locais e começou a transportar doentes e feridos de sua aldeia e de comunidades vizinhas até centros hospitalares situados entre 40 e 50 quilômetros de distância. Com o tempo, incorporou um cilindro de oxigênio, uma maca impermeável e equipamentos básicos de primeiros socorros. De acordo com o portal The Better India, Karimul passou a ser uma referência de socorro naquela região.

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Um serviço gratuito 24 horas por dia

O que torna extraordinário o trabalho de Karimul não é apenas o ato físico de transportar pacientes: é a empatia, a urgência e a confiança que deposita em cada viagem. Ele opera a toda hora, em todas as estações do ano, sem cobrar absolutamente nada. Ajuda os pacientes a serem admitidos nos hospitais, providencia medicamentos quando necessário e, em diversas ocasiões, realizou manobras de reanimação em situações críticas.

Karimul oferece cobertura de emergência a mais de 20 aldeias na zona de Dhalabari. Até 2019, havia transportado aproximadamente entre 5.000 e 5.500 pessoas de forma totalmente gratuita, um número que lhe rendeu um lugar no International Bharat World Record.

Mais do que transporte: um sistema de saúde comunitário

Com o passar dos anos, Karimul ampliou sua missão muito além do transporte de pacientes. Treinado por médicos locais, começou a oferecer primeiros socorros básicos e a organizar campanhas de saúde periódicas em diferentes comunidades da região.

Em um canto de sua própria casa, montou uma pequena clínica de emergência onde presta atendimento primário, administra soros intravenosos e, por meio de ligações telefônicas, conecta os pacientes com médicos da cidade que prescrevem tratamentos à distância. Também incorporou tecnologia digital para realizar exames de níveis de glicose, pressão arterial e hemoglobina. Segundo o portal SocioStory, Karimul também passou a ministrar palestras de saúde preventiva nas comunidades.

Karimul Haque posa com sua moto adaptada para atendimentos de emergência — uma “ambulância” sobre duas rodas criada para levar pacientes ao hospital quando cada minuto conta.

Uma família unida pela missão

Karimul vive uma vida modesta na aldeia de Rajadanga, em Malbazar. Compartilha seu lar com sua esposa Anjuya Begum, seus dois filhos Rajesh e Raju, e as esposas deles. A família subsiste graças a uma pequena loja de folhas de betel e uma oficina de conserto de celulares administrada por seus filhos.

Durante o dia, Karimul trabalha como operário na plantação de chá, e a maior parte de seus rendimentos é destinada à compra de combustível e medicamentos para seu serviço de ambulância. Às vezes, os moradores das aldeias contribuem com pequenas doações, mas o esforço é fundamentalmente familiar: seus filhos e parentes se somaram à missão, voluntariamente e sem remuneração.

Reconhecimento nacional e internacional

Em 2017, o Governo da Índia concedeu a Karimul Haque o Padma Shri, a quarta maior condecoração civil do país, em reconhecimento à sua extraordinária contribuição humanitária. No mesmo ano, recebeu o India Star Award.

Sua história transcendeu fronteiras e foi coberta por veículos de comunicação internacionais como a Al Jazeera, que o batizou de “India’s Ambulance Dada”. Em janeiro de 2021, sua vida foi retratada no livro “Bike Ambulance Dada”, publicado pela Penguin Random House India e escrito pelo jornalista Biswajit Jha. Ele também apareceu no programa de televisão Kaun Banega Crorepati ao lado do ator Sonu Sood, em 1º de janeiro de 2021. Além disso, foi anunciado que um filme biográfico sobre sua vida estava em preparação.

Construindo um futuro melhor

Apesar do reconhecimento, Karimul continua com os pés no chão. Com os recursos recebidos após os prêmios, iniciou a construção de um hospital para oferecer serviços médicos gratuitos à sua comunidade. Também criou uma escola gratuita de defesa pessoal e taekwondo para crianças da região.

Durante a pandemia de COVID-19, Karimul liderou campanhas de sanitização na área de Dhalabari, ajudou famílias a realizar os rituais fúnebres quando havia receio generalizado de contato com falecidos, e distribuiu alimentos entre idosos de sua aldeia e comunidades vizinhas.

Um legado de compaixão

Karimul Haque não é apenas um trabalhador social: é um símbolo do que o serviço desinteressado pode alcançar, mesmo sem riqueza, educação formal ou apoio institucional. Em um sistema onde a resposta de emergência ainda enfrenta desafios em diversas localidades, sua vida é uma lição viva.

“Perdi minha mãe porque não consegui salvá-la a tempo. Não quero que isso aconteça com mais ninguém”, diz Karimul Haque. E graças a ele, em comunidades de Jalpaiguri, milhares de pessoas tiveram uma segunda chance de viver.

Karimul Haque tem atualmente cerca de 60 anos e continua prestando seu serviço de ambulância em motocicleta a partir da aldeia de Dhalabari, Bengala Ocidental, Índia.

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Noel Budeguer

Sou jornalista argentino baseado no Rio de Janeiro, com foco em energia e geopolítica, além de tecnologia e assuntos militares. Produzo análises e reportagens com linguagem acessível, dados, contexto e visão estratégica sobre os movimentos que impactam o Brasil e o mundo. 📩 Contato: noelbudeguer@gmail.com

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