Construção artesanal, disputa judicial prolongada e impasse ambiental mantêm embarcação de 34 metros fora d’água nos Estados Unidos, mesmo após décadas de trabalho e tentativas de liberação para lançamento em área costeira de Maine.
Uma escuna de aço com 113 pés, cerca de 34 metros, passou mais de três décadas sendo montada em um terreno residencial de Freeport, no estado americano do Maine, e virou um caso raro em que ambição náutica, proposta educacional e conflito urbano avançam lado a lado.
Batizada de Island Rover, a embarcação foi concebida por Harold Arndt para atuar em programas de formação ligados ao mar e à conservação de recursos, mas segue fora d’água por causa de uma longa disputa sobre zoneamento, licenças e o método de lançamento até a costa.
A origem do projeto ajuda a explicar por que ele nunca foi tratado apenas como uma curiosidade de quintal.
-
Maior reservatório de água tratada em túnel da América Latina fica escondido sob morros do litoral de São Paulo e guarda 110 milhões de litros em rocha parecida com a do Pão de Açúcar
-
Pescador japonês passa 18 horas sozinho num ‘abrigo móvel’ que flutua no mar, um barco cartop leve que cabe no teto do carro e dispensa reboque, e lança o modelo Trout Ranger Wild em financiamento coletivo limitado a apenas 500 unidades
-
Aos 73 anos, engenheiro químico decidiu empreender com restauração de sapatos, bolsas e jaquetas de luxo: oficina aberta em São Paulo virou negócio de família e mostra como um ofício antigo pode ganhar valor com couro, pintura e peças raras
-
Jardineiros começam a trocar item que fez história por alternativa mais leve e silenciosa, impulsionada por regra ambiental, desempenho surpreendente e previsão de dominar 85% das vendas
No site do Island Rover Institute, a organização informa que o navio foi pensado como plataforma para atividades educativas com jovens, com ênfase em conservação, redução de resíduos e aprendizagem prática.
A mesma apresentação descreve a escuna como uma embarcação de 113 pés, deslocamento de 110 toneladas e capacidade para 25 pessoas, construída com materiais excedentes da indústria naval militar.
Projeto educacional e construção com aço reciclado
Arndt começou a obra no início da década de 1990, transformando a própria propriedade em estaleiro improvisado.
Reportagens situam o começo da construção entre 1992 e 1993, enquanto outro registro descreveu a Island Rover como uma escuna de dois mastros erguida com aço reaproveitado de navios da Marinha dos Estados Unidos.
Em outro relato, foi apontado que o interior havia sido planejado para receber cozinha, dormitórios, laboratório de pesquisa e área de convivência, reforçando o caráter de uso coletivo e formativo do barco.
Mais do que o tamanho, o que tornou a embarcação incomum foi a combinação entre construção artesanal e finalidade institucional.
Segundo o instituto, a ideia era usar o navio em programas de educação sob vela, aproximando estudantes da navegação, do reaproveitamento de materiais e de oportunidades ligadas ao setor marítimo.
Essa proposta foi o eixo usado por Arndt ao longo dos anos para defender que a embarcação não nasceu como um iate de lazer, mas como ferramenta de ensino com ênfase ambiental.
Disputa de zoneamento travou avanço do projeto
O impasse começou a ganhar dimensão pública quando a iniciativa passou a ser vinculada formalmente a uma entidade sem fins lucrativos.
Foi informado que Arndt criou o Island Rover Institute em 2001 para facilitar programas educativos e ajudar a financiar a obra.

A mudança alterou a forma como o projeto era enquadrado pela cidade, que deixou de vê-lo apenas como empreendimento particular e passou a tratá-lo como uso incompatível com a zona residencial onde estava instalado.
A disputa entrou de vez na esfera administrativa e judicial a partir dos anos 2000.
Relatos indicam que o município começou a contestar o projeto em 2004, alegando violação de regras locais para aquela área, e que acordos posteriores estabeleceram prazos para a retirada da embarcação.
Documentos públicos mostram a existência de compromissos firmados em 2005 e 2014 exigindo a remoção definitiva do barco, com a previsão de transferência de propriedade ao município caso as obrigações não fossem cumpridas.
Tentativas de remoção e custos legais elevados
Nem mesmo quando houve deslocamento físico da estrutura a controvérsia desapareceu.
Em 2018, a Island Rover foi movida do local original para um terreno próximo, mas continuou em área residencial e permaneceu sob contestação.
Naquele mesmo ano, a Justiça determinou que os responsáveis pagassem mais de 36 mil dólares em honorários e custos legais ao município, num processo que mantinha aberta a discussão sobre permanência, remoção e propriedade da escuna.
Enquanto isso, a vizinhança ao redor do casco mudou bastante.
Uma reportagem exibida em 2024 mostrou a embarcação ainda cercada por mata e por residências de alto padrão erguidas ao longo do tempo na região costeira de Freeport.
Também foram registradas reclamações de moradores sobre barulho, sujeira e impacto no entorno, além da avaliação de que a retirada até a água é tecnicamente possível, mas travada por entraves legais.
Impasse ambiental e entraves para lançamento no mar
A tentativa mais concreta de destravar o caso voltou a aparecer nos registros públicos de Freeport.
Documentos da Coastal Waters Commission analisaram um pedido para criar acesso temporário e uma estrutura provisória de lançamento em Shore Drive.
O plano incluía estrada de apoio, rampas e esteiras para levar o casco até o rio Harraseeket.
A análise técnica discutiu exigências de licenciamento ambiental e destacou a necessidade de avaliar estabilidade do solo, comportamento das marés e riscos para áreas úmidas.
Apesar desse avanço processual, o lançamento temporário não foi liberado.
Foi informado que o pedido foi negado após preocupações ambientais envolvendo a enseada de Raspberry Cove, incluindo possíveis impactos sobre marismas, aves e populações de caranguejos-ferradura.
A discussão passou a incluir propostas de referendo local para tentar mudar regras municipais e abrir caminho para uma autorização excepcional.
Disputa judicial continua após mais de três décadas
O caso ganhou novos desdobramentos recentes. Foi registrado que Arndt, então com 83 anos, abriu nova frente de disputa ao processar a cidade, alegando bloqueios sucessivos ao longo de mais de duas décadas.
Ao mesmo tempo, autoridades locais buscaram avaliação adicional do Departamento de Proteção Ambiental do Maine, indicando que qualquer solução depende também de análises técnicas estaduais.
Mesmo com as incertezas, a finalidade original continua sendo o principal argumento dos defensores da escuna.
O instituto sustenta que a Island Rover pode servir a programas educativos, aproximando jovens da navegação, da conservação ambiental e de carreiras ligadas à indústria marítima.
Também foi destacado que o projeto sempre esteve associado à ideia de ensinar reaproveitamento de materiais e cultura oceânica.
Ao longo do tempo, a embarcação deixou de ser apenas uma obra incomum para se tornar um símbolo de impasse entre projeto individual, transformação urbana e limites regulatórios.
O casco quase pronto permanece próximo da água, mas sua chegada ao mar depende de decisões administrativas e judiciais que ainda não produziram um desfecho definitivo.

