Uma rotina que começava antes do amanhecer e terminava tarde da noite acabou inspirando uma mobilização inesperada entre alunos, famílias e apoiadores, que transformaram meses de organização em uma surpresa capaz de mudar o dia a dia de um professor.
Durante meses, Julio Castro repetiu uma rotina que começava antes do amanhecer.
Saía de casa por volta das 4h30, seguia parte do caminho em uma scooter, pegava transporte público e enfrentava um deslocamento que podia consumir cerca de quatro horas entre ida e volta.
Seus alunos sabiam que ele morava longe.
-
Enfermeira adota filho de paciente em seus últimos dias de vida, cumpre a promessa feita à mãe solo de 45 anos com câncer terminal e, anos depois, continua criando o menino como um de seus próprios filhos
-
Com 101 anos, americana que já havia se aposentado três vezes, chega às 6h dirigindo sozinha para trabalhar como caixa e diz que voltou à ativa pelo contato com pessoas
-
Bola de fogo cruza o céu de pequena cidade do Rio, meteorito se despedaça e transforma Varre-Sai em destino de caçadores de pedras espaciais, prefeito oferece bicicletas a estudantes que acharem fragmentos e casal boliviano acaba detido no aeroporto tentando levar três pedaços
-
Adolescente pede comida a um desconhecido em supermercado e oferece carregar suas compras em troca; ao descobrir que ele e a mãe com deficiência viviam quase sem nada, homem cria campanha que arrecada mais de R$ 1,75 milhão mil e ajuda a família a recomeçar em uma nova casa
O que não imaginavam, até perceberem a dimensão daquela jornada, era quanto tempo o professor sacrificava todos os dias apenas para chegar à escola.
Em agosto de 2022, estudantes da YULA Boys High School, em Los Angeles, decidiram transformar essa descoberta em uma surpresa.
Depois de uma campanha organizada durante o verão americano, com participação de famílias e apoiadores, eles reuniram cerca de US$ 30 mil em recursos e benefícios e entregaram ao professor um Mazda 2019, além de um ano de combustível e seguro.
Castro tinha 31 anos e ensinava matemática na escola judaica particular localizada no bairro de Pico-Robertson.
Ele vivia no Vale de Santa Clarita, a dezenas de quilômetros do trabalho, e não possuía carro.
O presente não nasceu simplesmente da distância entre sua casa e a escola.
Os estudantes diziam ter percebido que, mesmo depois de enfrentar aquela viagem todos os dias, o professor frequentemente abria mão do intervalo do almoço e permanecia após as aulas para ajudar quem ainda tinha dúvidas.
O dia começava às 4h30 antes de uma longa viagem até a escola
O percurso de Castro envolvia diferentes meios de transporte.
Segundo o Los Angeles Times, ele começava saindo de seu apartamento e percorrendo aproximadamente sete milhas, pouco mais de 11 quilômetros, de scooter até um ponto de transporte público.
Depois, embarcava em um ônibus que levava cerca de 90 minutos até Century City e ainda precisava completar aproximadamente uma milha até o campus da YULA.
Dependendo das conexões e do trânsito, o trajeto podia chegar perto de duas horas em cada sentido.
A ABC7 registrou que Castro considerava cerca de duas horas uma estimativa normal para um único trecho, mas perder um ônibus podia acrescentar outros 30 minutos ou até uma hora à viagem.
Em alguns dias, ele só voltava para casa por volta das 21h30, quando seus três filhos pequenos já estavam dormindo.
Mesmo assim, Castro dizia tentar aproveitar o tempo dentro do ônibus.
Parte do trajeto servia para dormir um pouco; em outros momentos, ele corrigia trabalhos e preparava atividades.

Um aluno percebeu que o professor procurava carros baratos
A ideia começou a ganhar força quando Joshua Gerendash, um dos estudantes, viu Castro observando carros na internet.
O professor procurava algo que pudesse comprar por aproximadamente US$ 1.500, valor muito abaixo do preço de muitos veículos usados em condições melhores naquele período.
Para Joshua, aquele detalhe se somou ao que os alunos já observavam na escola.
“Ele pula o intervalo do almoço para ajudar um aluno e fica depois da escola”, contou o estudante ao Los Angeles Times.
O jovem acrescentou que Castro também auxiliava estudantes que nem sequer faziam parte de suas turmas.
A partir daí, alunos e pais começaram a organizar uma arrecadação sem contar ao professor.
A campanha incluiu publicações em redes sociais, doações e eventos promovidos pelos próprios estudantes.
Campanha reuniu alunos, famílias e uma organização
A mobilização não ficou limitada ao grupo de alunos.
Daphna Nissanoff, mãe de Joshua e então gerente de programa da organização sem fins lucrativos The Change Reaction, ajudou a levar o projeto adiante.
A instituição ofereceu uma contribuição equivalente às doações, limitada a US$ 10 mil, segundo o Los Angeles Times.
Outra mãe, Sarah Pachter, publicou um artigo sobre a iniciativa e ajudou a estruturar uma plataforma para receber contribuições.
As doações feitas por pessoas de diferentes lugares chegaram a aproximadamente US$ 13 mil.
Os estudantes ainda promoveram um torneio de basquete três contra três e uma sessão do filme “Ratatouille”, vendendo alimentos doados e organizando rifas.
Essas ações renderam cerca de US$ 3 mil adicionais.
Na etapa de compra do automóvel, alunos também negociaram com a Galpin Motors.
O estabelecimento concedeu um desconto de aproximadamente US$ 5 mil no veículo escolhido.

Professor pensou que havia chegado atrasado a uma festa
A entrega aconteceu em 25 de agosto de 2022, dentro da própria YULA Boys High School.
Para esconder o verdadeiro motivo da reunião, os estudantes montaram uma falsa celebração de reconhecimento aos professores.
Castro entrou no evento acreditando ter chegado perto do fim.
Havia até uma caixa de sorteio, e ele lamentou não ter conseguido participar.
Na realidade, praticamente tudo havia sido preparado para ele.
Primeiro vieram depoimentos em vídeo.
Depois, os estudantes formaram um corredor, houve confetes e Castro foi conduzido até o pátio.
Do lado de fora estava o automóvel azul-escuro que mudaria sua rotina diária.
As fontes da época apresentam uma pequena divergência na identificação exata do veículo.
O Los Angeles Times descreveu o automóvel como um Mazda 3 hatchback 2019, enquanto a ABC7 o identificou como um Mazda CX-3 2019.
Ambas concordam que se tratava de um Mazda usado de 2019 entregue ao professor juntamente com seguro e combustível por um ano.
Carro significava mais tempo com os filhos
Para Castro, a mudança mais importante não estava nos equipamentos do veículo.
Com o carro, ele calculava que poderia levar os filhos pela manhã, chegar à escola com mais tempo para preparar aulas e, principalmente, voltar para casa antes.
“Agora que tenho um carro, posso deixar meus filhos todas as manhãs”, afirmou à ABC7.
O professor também disse que, apesar do trânsito de Los Angeles continuar existindo, conseguiria chegar em casa a tempo para o jantar.
A rotina anterior tornava esses momentos difíceis.
Quando saía de casa às 4h30 e retornava somente por volta das 21h30, havia dias em que os filhos já estavam dormindo.
O presente dos estudantes, portanto, não significava apenas trocar ônibus e scooter por um automóvel.
Ele devolvia horas que antes eram consumidas diariamente pelo deslocamento.
Castro foi o primeiro da família a concluir faculdade
A trajetória profissional do professor também ajuda a explicar por que os alunos destacavam tanto sua dedicação.
Nascido no Peru e criado em diferentes regiões do sudeste do condado de Los Angeles, Castro concluiu o ensino médio na Downey High School.
Desde a época de estudante, já ajudava colegas com matemática.
Depois de passar por uma faculdade comunitária, formou-se em biologia molecular, celular e do desenvolvimento pela Universidade da Califórnia em Santa Cruz, em 2015.
Castro contou ao Los Angeles Times que foi o primeiro integrante de sua família a concluir tanto o ensino médio quanto a universidade.
Antes de chegar à YULA, trabalhou como professor adjunto em uma faculdade comunitária e depois procurou um emprego mais estável.
Ao se candidatar para a escola judaica, deixou claro que não era judeu e pouco conhecia sobre judaísmo.
Sua especialidade, disse, era matemática.
A contratação funcionou.
Segundo os próprios estudantes, ele ganhou espaço por uma abordagem baseada menos em simplesmente fornecer respostas e mais em ensinar como chegar a elas.
O presente veio depois de meses de organização escondida
Castro já sabia que os alunos conheciam sua rotina de deslocamento.
O que ele não esperava era que transformassem essa informação em uma campanha.
Depois de receber o carro, afirmou que nunca havia encarado as dificuldades diárias esperando qualquer recompensa.
“Não faça isso porque está esperando um prêmio. Faça porque vem do seu coração”, disse na ocasião, ao comentar a surpresa preparada pelos estudantes.
A frase combinava com um conselho que, segundo ele, costumava repetir em sala: quando a vida não segue o planejado, a resposta não precisa ser reclamar, mas continuar avançando com aquilo que já está disponível.
Naquele agosto de 2022, a lógica acabou se invertendo.
Durante meses, Castro havia percorrido quilômetros de scooter, esperado ônibus e atravessado Los Angeles para ensinar matemática.
Quando os estudantes perceberam quanto tempo existia por trás da presença diária do professor em sala, passaram o verão inteiro tentando encurtar justamente esse caminho.

