A trajetória de Agafya Lykova revela como crescer na floresta siberiana moldou sua sobrevivência por mais de 70 décadas, apesar das perdas familiares e das limitações estruturais
Permanecer afastada da sociedade por tanto tempo sempre fez parte da realidade de Agafya Lykova, nascida em 1944 no interior da Sibéria. Ela é a última integrante da família Lykov, que se retirou para a floresta na década de 1930 após perseguições religiosas na União Soviética. Por consequência, ela passou 35 ciclos da própria vida sem qualquer contato com outras pessoas e sem acesso a eletricidade, infraestrutura ou serviços básicos.
Fuga religiosa e início da reclusão na taiga
A retirada da família Lykov ocorreu devido à perseguição contra os Velhos Crentes, dissidência da Igreja Ortodoxa Russa. Após o assassinato do tio de Agafya pela polícia soviética, seus pais decidiram construir um pequeno assentamento a centenas de quilômetros de áreas urbanas. Por essa razão, toda a família permaneceu afastada da civilização durante grande parte do século XX. Geólogos soviéticos registraram, na década de 1970, que Agafya nasceu e cresceu completamente separada do restante do país. Além disso, a moradia não possuía eletricidade, aquecimento moderno ou qualquer recurso tecnológico.
Rotina diária sem energia elétrica e baseada em sobrevivência
A rotina de Agafya sempre dependeu de tarefas manuais. Ela cultiva vegetais, cuida dos animais e utiliza fogão à lenha para preparar alimentos. Além disso, dedica parte do dia à oração, prática fundamental para sua família. Durante o período diurno, ela usa apenas luz natural. No período noturno, ela recorre a tochas e velas. Pesquisadores soviéticos que a encontraram na década de 70 observaram que ela seguia métodos tradicionais de sobrevivência, sem qualquer forma de eletricidade.
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Perdas familiares ao longo das décadas de reclusão
Agafya era a mais jovem de quatro irmãos. A mãe faleceu por falta de alimentos em 1961, o que agravou ainda mais a situação da família. Seus irmãos morreram cerca de vinte ciclos depois, devido a falha renal e pneumonia. Em 1988, com a morte do pai, ela passou a permanecer totalmente sozinha no assentamento. Esses fatos foram relatados pelo jornalista Vasily Peskov no livro Lost in the Taiga, publicado após reportagens produzidas na década de 1970.
Descoberta da família por geólogos na década de 1970
A presença da família permaneceu desconhecida até a década de 1970, quando geólogos sobrevoaram a área e avistaram a cabana. A descoberta gerou reportagens em jornais soviéticos, o que despertou grande interesse público. Além disso, Agafya participou de uma viagem de um mês pela União Soviética, oportunidade em que viu carros, aviões e dinheiro pela primeira vez. Ela também só tomou conhecimento da Segunda Guerra Mundial ao redor dos 30 ciclos da própria vida.
Ajuda de voluntários e limitações físicas na velhice
Com o avanço da idade, Agafya enfrentou dificuldades crescentes para desempenhar tarefas essenciais. Ela relatou possuir um “caroço no peito”, o que limitou parte de suas atividades. Por essa razão, voluntários passaram a levar alimentos e auxiliá-la. Também foi divulgado que o empresário russo Oleg Deripaska arcaria com a reforma da cabana. Além disso, a administração da reserva ambiental informou, em comunicado de maio, que Agafya tinha conhecimento básico sobre a pandemia de Covid-19 e orava pela população.

70 decades? That is 700 years