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Trabalhadores da fábrica de pás eólicas da Aeris no Pecém (CE) viram as vendas no Brasil caírem de 119 MW para 1 MW em um ano, e a empresa pede recuperação extrajudicial para renegociar R$ 1,52 bilhão

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Escrito por Paulo Nogueira Publicado em 05/11/2026 às 00:30 Atualizado em 05/11/2026 às 00:31
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A Aeris, fabricante de pás eólicas com fábrica no Complexo do Pecém, no Ceará, pediu recuperação extrajudicial para renegociar R$ 1,52 bilhão em dívidas com os credores.

O pedido foi levado à 3ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo, e o plano já tem a adesão de credores donos de 42,18% dos créditos envolvidos.

É a segunda tentativa de reorganizar as contas em pouco mais de um ano.

A empresa diz que a fábrica segue rodando, que os empregos ficam mantidos e que as linhas de fornecimento necessárias para a operação continuam funcionando normalmente.

O tombo das vendas no Brasil.

Entre abril e junho de 2026, a fábrica entregou a clientes brasileiros pás equivalentes a apenas 1 megawatt de potência em aerogeradores, contra 119 MW no mesmo trimestre de 2025, segundo o Movimento Econômico.

No semestre, a venda de pás no mercado interno caiu 91,9%, para R$ 18,3 milhões. No mesmo período do ano anterior, a Aeris tinha faturado R$ 225 milhões com pás vendidas dentro do país.

Na prática, a fábrica quase parou de vender para o próprio país.

Os números estão no balanço do segundo trimestre, que a companhia divulgou em agosto, e mostram o tamanho da freada da energia eólica em terra no Brasil.

O exterior virou o cliente principal.

Enquanto o Brasil sumiu da carteira, os clientes de fora ficaram com 77 MW em pás no segundo trimestre. A venda para o exterior cresceu 47,6% no semestre e chegou a R$ 168,9 milhões.

Com isso, as exportações passaram a responder por cerca de 90% do faturamento da Aeris com pás, pela conta da revista Veja citada pelo Movimento Econômico.

No balanço, o diretor-presidente, Alexandre Sarnes Negrão, descreve para o mercado norte-americano níveis consistentes de demanda em 2026 e 2027, o que ajuda a explicar a virada.

Operária com macacão azul, máscara e luvas verdes trabalha na superfície de uma pá eólica dentro do galpão da Aeris
Trabalho de acabamento numa pá dentro da fábrica da Aeris (Divulgação/Aeris Energy)

Como funciona a recuperação extrajudicial.

Nesse modelo, a empresa fecha o plano direto com os credores e só depois leva o acordo à Justiça para homologação, sem passar pela recuperação judicial, que é mais longa e mais cara.

A Aeris assumiu o compromisso de conseguir, em até 90 dias contados do pedido, a adesão de credores com mais da metade dos créditos, percentual exigido para o plano ser homologado.

O pedido foi aprovado pelo conselho de administração e ainda vai passar por assembleia geral extraordinária, onde os acionistas precisam ratificar a decisão tomada pela direção.

Quais dívidas entram no plano.

Os R$ 1,52 bilhão são créditos quirografários não correntes, ou seja, dívidas sem garantia real ou fiduciária. Ficam fora as dívidas trabalhistas, tributárias e com fornecedores operacionais habituais, segundo o O Povo.

O plano pode mudar prazos e condições de pagamento, trazer dinheiro novo para a empresa e alterar garantias, com o mesmo tratamento para todos os credores atingidos.

Na prática, quem tem verba trabalhista a receber da empresa não entra na negociação da recuperação extrajudicial da Aeris.

Com o pedido, ficaram suspensas as execuções das dívidas abrangidas, o que dá fôlego à companhia enquanto ela busca a adesão que falta.

A fábrica que religou linhas.

A unidade do Pecém, na Região Metropolitana de Fortaleza, chegou ao fim de 2025 com seis das oito linhas de produção desativadas e só duas em operação, de acordo com o balanço da empresa.

No fim de junho, a Aeris começou a reativar outras quatro linhas e investiu R$ 23,9 milhões no segundo trimestre nessa retomada e na preparação para os contratos já fechados.

Em agosto, a fabricante informou ter 2 gigawatts em pás contratados para entregar em 2026 e 2027, além de cerca de 0,5 GW em negociação com clientes.

O rombo que veio antes.

A receita líquida da Aeris caiu 50,8% em 2025, de R$ 1,52 bilhão em 2024 para R$ 746 milhões, e o ano fechou com prejuízo de R$ 901,2 milhões.

No primeiro semestre de 2026, a receita somou R$ 234,9 milhões, 48,1% menos que um ano antes, e o prejuízo chegou a R$ 290 milhões, segundo o balanço citado pelo Movimento Econômico.

O resultado ruim não é novo. No ano passado, o prejuízo da Aeris já tinha mais que dobrado em um ano, num sinal de que a crise do setor vinha se arrastando.

A renegociação de 2025 não bastou.

Em 2025, a empresa já tinha renegociado debêntures e empréstimos com Banco do Brasil, BV e Santander, numa operação de cerca de R$ 1,4 bilhão, perto de 90% do endividamento total, segundo o InvestNews.

Em maio daquele ano, a agência Fitch rebaixou a nota da Aeris para RD(bra), classificação ligada a um default restrito, por considerar a troca de dívida uma reestruturação feita sob estresse.

Dois técnicos pendurados por cordas inspecionam a torre branca de um aerogerador com a praia e outras turbinas ao fundo
Técnicos em inspeção de aerogerador num parque eólico do litoral (Divulgação/Aeris Energy)

Por que o vento parou de vender.

A Aeris atribui a queda ao menor nível de atividade do mercado eólico brasileiro, com demanda doméstica reduzida e sem novos contratos de peso no período analisado no balanço.

Negrão cita os efeitos do curtailment, os cortes de geração que o ONS manda fazer quando falta rede de transmissão ou sobra energia, e o ritmo ainda gradual de contratação de novos projetos.

A concorrência da energia solar instalada em telhados e terrenos também pesa na demanda por novos parques de vento, segundo a reportagem.

O investimento em geração eólica caiu quase 70% entre 2023 e 2026, de R$ 35 bilhões para cerca de R$ 10 bilhões, segundo dados do setor citados pelo InvestNews.

De líder do mercado a devedora.

A Aeris abriu capital na B3 em novembro de 2020, no auge da expansão eólica. Na época, era uma das maiores fabricantes de pás do mundo e tinha cerca de 69% do mercado brasileiro.

Seis anos depois, a mesma fábrica vende quase tudo para fora e depende de bancos e debenturistas para fechar a conta.

Agora, o futuro da fábrica cearense depende de a empresa reunir mais da metade dos credores em 90 dias e de os contratos de exportação manterem as linhas religadas em movimento.

Na sua opinião, o Brasil deveria contratar mais energia eólica para segurar fábricas como a da Aeris no Ceará? Conta pra gente nos comentários.

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Paulo Nogueira

Técnico em Elétrica desde 2008, formado pelo Instituto Federal Fluminense (IFF), antigo CEFET, uma das mais tradicionais instituições de ensino técnico do Brasil. Atuou por diversos anos nas áreas de petróleo e gás offshore, energia e construção, experiência que hoje aplica na produção de conteúdo especializado sobre o setor energético. Com mais de 8 mil publicações em revistas e portais online, dedica-se à cobertura do mercado de trabalho, petróleo e gás, energia, economia, renováveis e empreendedorismo. Para dúvidas, sugestões ou correções, entre em contato pelo e-mail paulohsnogueira@gmail.com. Este canal não recebe currículos.

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