O retrato final captado pela Voyager, a bilhões de quilômetros do Sol, reúne planetas alinhados, marca o fim das câmeras em 1990 e permanece como a única tentativa já realizada de fotografar o Sistema Solar a partir de suas fronteiras externas
O último olhar das sondas Voyager para o Sistema Solar ocorreu entre 1989 e 1990, quando as câmeras foram desligadas para economizar energia, resultando em um retrato único feito a 6 bilhões de quilômetros do Sol.
Encerramento progressivo dos instrumentos científicos
As espaçonaves Voyager, lançadas décadas atrás, passam por desligamentos graduais de instrumentos para preservar energia e prolongar a coleta de dados científicos ainda possíveis nas regiões externas do Sistema Solar.
Em março, a missão desativou o experimento do subsistema de raios cósmicos da Voyager 1 e os instrumentos de partículas carregadas de baixa energia da Voyager 2, seguindo a estratégia de priorização energética adotada pela NASA.
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As câmeras, consideradas instrumentos de alto consumo energético, haviam sido desligadas muito antes, pois exigiam energia significativa e memória computacional, recursos redirecionados para medições do vento solar e do espaço interestelar.
O desligamento das câmeras após Netuno
Em 1989, logo após as primeiras observações e fotografias em close do gigante de gelo Netuno, a Voyager 2 desligou suas câmeras de grande angular e de ângulo estreito.
Os engenheiros decidiram preservar energia e capacidade de memória do computador de bordo, priorizando instrumentos capazes de coletar dados contínuos sobre partículas, campos e condições além dos planetas.
A Voyager 1 manteve suas câmeras operacionais por mais algum tempo, até que, em 14 de fevereiro de 1990, as crescentes necessidades energéticas obrigaram a missão a desligar definitivamente o sistema de imagem.
O retrato final a 6 bilhões de quilômetros
Antes do desligamento, a Voyager 1 apontou suas câmeras de volta para o Sistema Solar e registrou um retrato histórico a cerca de 6 bilhões de quilômetros, equivalente a 4 bilhões de milhas, do Sol.
O chamado Retrato de Família do Sistema Solar reuniu 60 imagens combinadas, capturando Vênus, Terra, Júpiter, Saturno, Urano e Netuno alinhados ao redor do Sol em uma única composição.
Segundo a NASA, essa é a única série de imagens que mostra esses planetas juntos nessa configuração, e a espaçonave nunca mais se aproximaria o suficiente de qualquer objeto astronômico para novas fotografias.
Planetas ausentes e limitações técnicas
Alguns corpos ficaram fora do retrato final por limitações geométricas e ópticas inevitáveis durante a captura das imagens a grandes distâncias do Sol.
Mercúrio estava próximo demais do Sol para ser fotografado com segurança, enquanto Plutão, então classificado como planeta, encontrava-se longe demais da trajetória da sonda naquele momento.
Marte acabou obscurecido pela luz solar dispersa refletida internamente na câmera, impedindo sua identificação clara no conjunto final de imagens montadas.
O Pálido Ponto Azul e seu significado
Entre todas as imagens, a fotografia da Terra tornou-se a mais emblemática, conhecida mundialmente como o Pálido Ponto Azul, destacando o planeta como um pequeno ponto suspenso em um raio de luz.
O astrônomo Carl Sagan descreveu a imagem como o registro de todos os seres humanos que já existiram vivendo suas vidas em um grão de poeira cósmica.
Em sua reflexão, Sagan afirmou que a imagem demonstra a fragilidade humana e reforça a responsabilidade coletiva de preservar e valorizar o único lar conhecido, mensagem associada diretamente à fotografia.
Um feito não repetido por outras missões
A NASA afirma que apenas três espaçonaves conseguiram observar o Sistema Solar a tamanha distância: Voyager 1, Voyager 2 e a missão New Horizons, tornando o retrato um evento singular.
Até o momento, essa permanece como a primeira e única tentativa bem-sucedida de fotografar o Sistema Solar como um todo a partir de suas bordas externas.
A possibilidade de religar as câmeras hoje é considerada improvável, pois o software de controle foi removido e os computadores terrestres que processavam as imagens não existem mais.
Além disso, as câmeras e aquecedores ficaram expostos por anos ao frio extremo das regiões profundas do Sistema Solar, tornando incerta qualquer tentativa de reativação, mesmo com recriação dos sistemas originais.
Apesar disso, as sondas continuam enviando dados científicos regulares, incluindo medições da barreira de 30.000 a 50.000 kelvin na borda do Sistema Solar, mantendo ativo seu legado científico insrumentos ainda operantes.
