Descoberta na Rússia em 2014, a construção circular de 12 metros feita com ossos de ao menos 60 mamutes desafia interpretações funcionais e amplia o entendimento sobre organização social paleolítica
Em 2014, arqueólogos identificaram na estepe florestal da Rússia uma estrutura circular de 12 metros construída com ossos de pelo menos 60 mamutes-lanosos, em Kostenki. O achado revelou escolhas arquitetônicas complexas feitas por caçadores-coletores há 25 mil anos e ampliando o entendimento sobre adaptação humana extrema.
Descoberta e contexto arqueológico da estrutura de ossos de mamute
A estrutura foi identificada em 2014 na região de Kostenki, área conhecida por abrigar numerosos sítios paleolíticos distribuídos ao longo do rio Don, no oeste russo.
Segundo Alexander Pryor, arqueólogo da Universidade de Exeter, o investimento de tempo e esforço indica importância central para os grupos que a construíram.
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O estudo liderado por Pryor foi publicado em 2020 na revista Antiquity, detalhando dimensões, composição e possíveis funções da estrutura óssea monumental.
Vestígios de fogo encontrados no interior do círculo indicam atividades regulares, sugerindo ocupação funcional e planejada, e não um simples acúmulo casual de ossos.
Restos alimentares vegetais e fossas contendo ossos de mamute próximas ao círculo reforçam a hipótese de processamento e possível armazenamento de alimentos.
“Obviamente, obtém-se muita carne de um mamute”, afirmou Pryor em comunicado repercutido pelo Science Alert, ao discutir práticas alimentares investigadas.
Hipóteses sobre a função
Pesquisadores consideram que a grandiosidade da construção ultrapassa necessidades estritamente práticas, abrindo espaço para interpretações sociais ou simbólicas do local.
Pryor destaca que rituais podem coexistir com atividades de subsistência, tornando plausível uma estrutura com múltiplas funções integradas ao cotidiano paleolítico.
A ausência de consenso reflete limites interpretativos, pois evidências materiais raramente esclarecem significados culturais intangíveis com precisão absoluta.
Edificações feitas com ossos de mamute já eram conhecidas na Europa Oriental, porém em escalas muito menores, geralmente com apenas alguns metros de diâmetro.
Escavações realizadas em Kostenki nas décadas de 1950 e 1960 revelaram casas semelhantes, datadas de até 22 mil anos atrás.
A estrutura descoberta em 2014 é cerca de 3 mil anos mais antiga, tornando-se um dos exemplos mais antigos e extensos desse tipo construtivo.

Dimensão e planejamento
A zooarqueóloga Marjolein Bosch, da Universidade de Cambridge, ressalta que o tamanho sugere planejamento de longo prazo.
Segundo Bosch, a edificação pode ter funcionado como marco paisagístico, ponto de encontro ou refúgio reutilizável em condições climáticas severas.
Pryor considera improvável seu uso como moradia cotidiana, afirmando não conseguir imaginar um sistema de cobertura funcional para tal escala.
Composição dos restos animais
Casas menores de ossos de mamute costumam apresentar restos variados de animais como rena, cavalo e raposa, indicando dietas diversificadas locais.
Na nova estrutura, porém, quase todos os restos são de mamute-lanoso, aspecto considerado um dos elementos mais intrigantes do sítio.
A antropóloga Pat Shipman, da Universidade Estadual da Pensilvânia, observou que isso dificulta interpretá-la como habitação prolongada.
Esta construção é a primeira de seu tipo a apresentar evidências claras de que madeira foi queimada em seu interior, além de ossos.
Pryor explicou que grandes fragmentos de carvão vegetal indicam presença de árvores na paisagem, apesar das condições ambientais hostis.
Os anéis estreitos do carvão sugerem crescimento difícil, compatível com florestas ribeirinhas que poderiam sobreviver ao longo do rio Don.
Bosch observa que o fogo funcionava como ferramenta multifuncional, fornecendo calor, luz e suporte ao processamento de alimentos e materiais.
Fragmentos de tecidos vegetais foram identificados por flutuação em água e peneiramento, conforme relatado pela Smithsonian Magazine.
Pryor destacou que é a primeira evidência de consumo vegetal nessas estruturas, com tecidos semelhantes aos de raízes e tubérculos modernos.
Origem dos ossos de mamute
A presença de ossos de mais de 60 mamutes levanta dúvidas sobre caça sistemática, mortes naturais em massa ou combinação das duas possibilidades.
Shipman sugere que características topográficas locais podem ter concentrado manadas, facilitando mortes naturais ou oportunistas próximas a travessias fluviais.
Ela afirma ser improvável que humanos tenham abatido tantos animais simultaneamente, dada a inteligência social dos proboscídeos, mesmo em contextos modernos.
Alguns ossos estavam organizados conforme posições anatômicas originais, indicando transporte ainda com tecidos moles aderidos.
Bosch explica que isso implica acesso antecipado às carcaças, antes que carnívoros limpassem completamente os restos disponíveis.
Shipman questiona se os ossos foram processados ou apenas acumulados, ressaltando a dificuldade logística de mover um mamute morto quase sem carne.
Importância regional de Kostenki
Segundo Lioudmila Lakovleva, do Centro Nacional Francês para Pesquisa Científica, o assentamento inclui múltiplas estruturas ósseas e áreas funcionais.
Pryor reforça que Kostenki foi ponto focal de ocupação humana durante toda a última era glacial, representando investimento concentrado na paisagem.
Ele menciona evidências de nascentes de água doce que permaneciam líquidas o ano todo, atraindo animais e, consequentemente, grupos humanos.
Adaptação e sobrevivência
Para Pryor, o sítio revela estratégias sofisticadas de adaptação climática, uso intensivo de recursos locais e planejamento coletivo em ambiente extremo.
O projeto oferece uma visão concreta de como humanos enfrentaram fases severas do último ciclo glacial, transformando adversidade em organização social.
Segundo ele, trata-se essencialmente de uma história de sobrevivência humana, construída com ossos, fogo, paisagem e escolhas que ainda intrigam pesquisadores.
Com informações de Aventuras na História.

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