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A colisão que criou a Lua há 4,5 bilhões de anos deveria ter fundido completamente o interior da Terra, mas rochas antigas da Groenlândia e do Havaí têm uma assinatura química que só se explica se fragmentos da proto-Terra sobreviveram ao impacto e ainda existem hoje, escondidos no manto

Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 14/03/2026 às 16:20
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Estudo do MIT revela que fragmentos da proto-Terra de 4,5 bilhões de anos sobreviveram ao impacto que formou a Lua e ainda estão preservados no manto profundo da Terra.
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Estudo do MIT revela que fragmentos da proto-Terra de 4,5 bilhões de anos sobreviveram ao impacto que formou a Lua e ainda estão preservados no manto profundo da Terra.

Há cerca de 4,5 bilhões de anos, a Terra não se parecia em nada com o planeta que conhecemos hoje. Naquele período inicial da história do Sistema Solar, o planeta ainda estava em formação e consistia basicamente em uma enorme massa incandescente de magma e rocha derretida. Não existiam oceanos, não havia atmosfera respirável e a superfície era dominada por temperaturas extremas e impactos constantes de detritos espaciais. Os cientistas chamam esse estágio inicial de proto-Terra, o embrião do planeta atual. Durante esse período, que durou aproximadamente 100 milhões de anos, a matéria rochosa começou lentamente a se organizar em camadas. Foi nesse momento que o interior do planeta começou a se diferenciar, formando as primeiras estruturas que mais tarde se tornariam o núcleo metálico, o manto profundo e a crosta primitiva.

Esse processo, no entanto, foi abruptamente interrompido por um evento catastrófico. Um objeto do tamanho de Marte colidiu com a proto-Terra em um impacto tão violento que alterou completamente a história do planeta e do próprio Sistema Solar.

O impacto de Theia: a colisão planetária que deu origem à Lua

O corpo celeste responsável pela colisão recebeu o nome de Theia. Modelos astrofísicos indicam que ele possuía entre 10% e 40% da massa da Terra atual, o que significa que seu tamanho era comparável ao de Marte ou até mesmo metade do tamanho da Terra primitiva.

Quando ocorreu o impacto, a energia liberada foi gigantesca. A colisão foi poderosa o suficiente para derreter e vaporizar grandes partes do interior dos dois planetas. Parte desse material foi arremessada para o espaço e permaneceu orbitando a Terra em formação. Com o tempo, os fragmentos ejetados se reuniram e deram origem à Lua, o único satélite natural do planeta.

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O restante da matéria resultante do choque acabou se fundindo novamente, formando o planeta que conhecemos hoje. Durante décadas, os geólogos acreditaram que esse impacto teria sido tão intenso que qualquer vestígio químico da proto-Terra original teria sido completamente destruído ou misturado ao material trazido por Theia.

Essa interpretação dominou a ciência planetária por muitos anos. Segundo esse modelo clássico, a colisão teria apagado qualquer assinatura química anterior ao impacto, tornando impossível reconstruir a composição da Terra antes da formação da Lua.

Estudo publicado na Nature Geoscience revela sinais preservados da proto-Terra

Essa conclusão começou a ser questionada em outubro de 2025, quando uma equipe liderada pela professora Nicole Nie, do Departamento de Ciências da Terra, Atmosfera e Planetas do MIT, publicou um estudo na revista científica Nature Geoscience.

A pesquisa revelou algo inesperado: fragmentos da proto-Terra original ainda parecem existir no interior do planeta, preservados no manto profundo. Essa evidência não foi encontrada em rochas superficiais recentes nem em sedimentos geológicos expostos na crosta terrestre.

A descoberta surgiu a partir de uma diferença extremamente pequena na proporção de um isótopo específico de potássio presente em determinadas rochas antigas. Esse isótopo é o potássio-40, um dos três isótopos naturais do elemento potássio encontrados na Terra.

Isótopos de potássio revelam uma assinatura química de bilhões de anos

O potássio possui três isótopos naturais principais: potássio-39, potássio-40 e potássio-41. Em praticamente todas as rochas do planeta, a proporção entre esses três isótopos permanece praticamente constante. Após bilhões de anos de processos geológicos, como tectônica de placas, convecção do manto e impactos meteoríticos, o interior da Terra tornou-se quimicamente muito homogêneo.

Isso significa que, na maioria dos casos, qualquer rocha terrestre apresenta praticamente a mesma composição isotópica. No entanto, algumas rochas muito antigas apresentam pequenas diferenças nessa proporção, o que chamou a atenção dos pesquisadores.

A colisão que criou a Lua há 4,5 bilhões de anos deveria ter fundido completamente o interior da Terra, mas rochas antigas da Groenlândia e do Havaí têm uma assinatura química que só se explica se fragmentos da proto-Terra sobreviveram ao impacto e ainda existem hoje, escondidos no manto
Estudo do MIT revela que fragmentos da proto-Terra de 4,5 bilhões de anos sobreviveram ao impacto que formou a Lua e ainda estão preservados no manto profundo da Terra.

Para investigar esse fenômeno, a equipe do MIT coletou amostras geológicas em regiões extremamente antigas do planeta. Entre elas estavam afloramentos rochosos na Groenlândia e no Canadá, onde se encontram algumas das formações continentais mais antigas da Terra, com idade próxima de 4 bilhões de anos.

Além dessas rochas antigas da crosta continental, os cientistas também analisaram lavas vulcânicas do Havaí, que são alimentadas por plumas profundas do manto terrestre.

Análise de rochas da Groenlândia, Canadá e Havaí revela um déficit raro de potássio-40

Cada amostra foi pulverizada, dissolvida em ácido e analisada em espectrômetros de massa de alta resolução, instrumentos capazes de medir proporções isotópicas com precisão extremamente elevada.

O resultado foi surpreendente. Todas as amostras analisadas apresentaram um déficit de cerca de 65 partes por milhão de potássio-40 quando comparadas ao restante da crosta e do manto da Terra.

Embora esse número pareça pequeno, ele é extremamente significativo em termos geoquímicos. Para entender a escala dessa diferença, os pesquisadores usam uma analogia simples: seria como encontrar um único grão específico de areia marrom em um balde cheio de areia amarela — e repetir essa descoberta em amostras coletadas em diferentes partes do planeta.

O fato de essa assinatura química aparecer de forma consistente em locais distintos torna a descoberta difícil de ignorar.

Por que o déficit de potássio-40 indica material da proto-Terra

A explicação proposta pelos cientistas envolve diretamente o impacto de Theia. Quando o planeta colidiu com a proto-Terra, ele trouxe consigo grandes quantidades de material rochoso, incluindo potássio-40. Esse material acabou se misturando ao planeta resultante da colisão, aumentando o nível médio desse isótopo na Terra moderna.

Segundo os modelos anteriores, toda a matéria do planeta deveria ter passado por essa mistura completa. Portanto, todas as rochas deveriam apresentar aproximadamente o mesmo nível elevado de potássio-40.

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No entanto, as amostras analisadas no estudo apresentam quantidades menores desse isótopo. Isso sugere que parte do material presente nessas rochas não participou totalmente da mistura provocada pela colisão.

Em outras palavras, essas rochas podem conter fragmentos do material original da proto-Terra, preservados desde antes da formação da Lua.

Simulações computacionais reforçam a hipótese da proto-Terra preservada

Para testar essa hipótese, os pesquisadores realizaram simulações computacionais complexas. Os modelos incluíram dados sobre meteoritos conhecidos, impactos posteriores ao longo da história da Terra, processos de resfriamento do planeta, circulação do manto e tectônica de placas.

Mesmo considerando todos esses processos, nenhum cenário conseguiu reproduzir o déficit de potássio-40 observado nas amostras. A única explicação compatível com os dados foi a presença de material que existia antes da colisão com Theia.

Segundo a professora Nicole Nie, essa pode ser a primeira evidência direta de que fragmentos da proto-Terra sobreviveram ao impacto que formou a Lua. Isso é surpreendente porque, até recentemente, acreditava-se que qualquer assinatura química anterior teria sido completamente apagada pela violência da colisão.

O manto profundo da Terra pode funcionar como uma cápsula do tempo geológica

As amostras de lava do Havaí são particularmente importantes para essa descoberta. Ao contrário de muitas rochas superficiais, essas lavas não se originam na crosta terrestre. Elas vêm de plumas de rocha quente que ascendem do manto profundo, podendo se originar a até 2.900 quilômetros de profundidade.

Isso indica que os fragmentos da proto-Terra não estão apenas preservados em rochas muito antigas da superfície, mas também circulam no interior do planeta. Em alguns casos, esse material acaba sendo transportado para a superfície por meio de atividade vulcânica.

Essa descoberta também se conecta a pesquisas recentes sobre o interior da Terra. Em 2023, estudos publicados na revista Nature sugeriram que duas enormes estruturas localizadas no manto inferior — conhecidas como LLSVPs (Large Low Shear Velocity Provinces) — podem ser fragmentos do próprio planeta Theia, enterrados a milhares de quilômetros de profundidade.

Agora, o novo estudo indica que o manto profundo pode preservar tanto fragmentos de Theia quanto fragmentos da proto-Terra original, funcionando como uma espécie de arquivo geológico da formação do planeta.

Meteoritos conhecidos não correspondem à composição química da proto-Terra

Outro resultado importante do estudo surgiu quando os pesquisadores compararam a assinatura isotópica das rochas analisadas com todos os meteoritos conhecidos. Meteoritos são considerados os blocos de construção primitivos do Sistema Solar e são frequentemente usados para reconstruir a composição original da Terra.

No entanto, nenhum dos meteoritos catalogados apresenta exatamente o mesmo perfil isotópico de potássio observado nas rochas associadas à proto-Terra. Isso sugere que o material que formou o planeta pode não estar representado nos meteoritos conhecidos.

Segundo Nicole Nie, isso indica que o inventário atual de meteoritos disponível para estudo ainda é incompleto. Em outras palavras, pode existir material primordial do Sistema Solar que ainda não foi identificado ou que simplesmente não chega à Terra na forma de meteoritos.

Fragmentos da proto-Terra podem ser os únicos remanescentes do material primordial do planeta

Se essa interpretação estiver correta, as rochas preservadas no manto profundo da Terra podem representar os únicos fragmentos conhecidos do material primordial que formou o planeta. Isso abre uma nova perspectiva para estudar a origem da Terra e a evolução inicial do Sistema Solar.

imagem meramente ilustrativa – CPG

Durante décadas, os cientistas acreditaram que o impacto de Theia havia apagado completamente qualquer registro químico anterior à formação da Lua. Agora, as evidências sugerem que esse registro pode ter sobrevivido em bolsões isolados no interior do planeta.

Esses fragmentos funcionam como uma espécie de arquivo geológico de bilhões de anos, preservando pistas sobre a composição da Terra primitiva e os processos que levaram à formação de um planeta capaz de sustentar vida.

Mais de 4,5 bilhões de anos após sua formação, a Terra ainda guarda em seu interior vestígios de um tempo anterior ao planeta moderno. Esses fragmentos da proto-Terra representam uma rara janela científica para o início da história do nosso mundo.

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Valdemar Medeiros

Formado em Jornalismo e Marketing, é autor de mais de 20 mil artigos que já alcançaram milhões de leitores no Brasil e no exterior. Já escreveu para marcas e veículos como 99, Natura, O Boticário, CPG – Click Petróleo e Gás, Agência Raccon e outros. Especialista em Indústria Automotiva, Tecnologia, Carreiras (empregabilidade e cursos), Economia e outros temas. Contato e sugestões de pauta: valdemarmedeiros4@gmail.com. Não aceitamos currículos!

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