Com mais de 30 mil bodycams em operação no país e a nova geração já lendo placas e rostos em tempo real, o desafio deixou de ser captar informação: é entregá-la ao agente antes que a abordagem termine. Sem abrir mão do registro que hoje ampara os dois lados da ocorrência. Tema entra em cena na COP International, maior feira de segurança pública da América Latina, que ocorre esta semana em São Paulo
No Brasil, a câmera corporal entrou na farda do policial com uma missão clara: registrar a ocorrência e qualificar o uso da força. E cumpriu.
Pesquisa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública em parceria com o UNICEF mostrou que, em São Paulo, a letalidade provocada por policiais militares em serviço caiu 62,7% entre 2019 e 2022 — de 697 para 260 mortes.
Nos batalhões equipados com as câmeras, a queda foi de 76,2%; nos demais, de 33,3%.
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Em estudo independente, o Centro de Ciência Aplicada à Segurança Pública da Fundação Getúlio Vargas (CCAS/FGV) atribuiu diretamente ao equipamento uma redução de 57% nas mortes e de 63% nas lesões corporais decorrentes de intervenção policial.
Consolidado esse ganho, começa a se desenhar uma etapa seguinte: aproveitar o mesmo equipamento em uma segunda direção.
A câmera segue registrando para fora — o que ampara tanto o cidadão quanto o próprio policial em caso de contestação.
A proposta é complementar às soluções atuais, não as substituir: que o equipamento passe também a devolver informação para dentro, para quem o está usando.
O gargalo não é mais captar a informação
As bodycams de última geração já leem placas de veículos e reconhecem rostos de procurados.
A Polícia Militar de São Paulo, que caminha para 12 mil equipamentos em campo, já contratou a geração que inclui essas funções.
No país, são mais de 30 mil câmeras em operação por polícias e guardas municipais, segundo o Ministério da Justiça e Segurança Pública.
O problema deixou de ser obter o dado. É o tempo que ele leva para chegar a quem está na ponta.
Hoje a informação percorre um caminho indireto: passa por centrais, operadores e rádio antes de voltar ao agente.
Em ocorrências que se resolvem em segundos, esse intervalo pode ser a diferença entre uma abordagem controlada e uma tragédia.
Os números de vítimas policiais dimensionam o ambiente.
Em 2024, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, 170 policiais civis e militares foram assassinados no país, contra 127 no ano anterior.
Entre eles, 93,9% morreram por arma de fogo e 77,2% em via pública — ameaças de rua, que se resolvem em instantes.
O patamar se manteve no ano seguinte: em 2025, 173 agentes de segurança foram assassinados no Brasil, segundo o relatório Mortalidade Policial do Instituto Monte Castelo, elaborado a partir dos dados do Sinesp.

Som, imagem e vibração
É nesse ponto que se posiciona uma tecnologia recém-depositada no Brasil.
Batizada de Inteligência Multicanal, com pedido de patente protocolado no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), ela propõe encurtar o percurso da informação e distribuí-lo por três canais simultâneos: áudio, visual e tátil, este último por vibração.
Pelo desenho previsto, os alertas seguiriam um padrão de comunicação previamente estabelecido — um código que o agente ouviria ou sentiria, sem que o abordado percebesse.
A discrição é parte do projeto: a intenção é preservar o efeito surpresa e evitar que a informação chegue ao suspeito antes de chegar ao policial.
A aposta nos três canais tem lógica operacional.
Numa ocorrência, o áudio compete com sons de pessoas e trânsito, e os olhos estão ocupados com as mãos do abordado.
O tato, não. É o canal livre — e é justamente ele que exigiria o módulo de hardware ainda em estágio inicial de desenvolvimento.
“Percepção, na rua, é sobrevivência. Poucos segundos de desvio na atenção do agente podem definir um desfecho que ninguém quer.”, afirma o engenheiro Gustavo Gerloff, autor do pedido.
“E nada disso exige abrir mão do registro. A gravação continua igual – o que se acrescenta é um retorno para a segurança dos agentes.”
Aproveitar a base instalada
A tecnologia ainda está sob sigilo legal, e a etapa seguinte é o desenvolvimento junto à parceiros do setor: o projeto prevê adaptação eletrônica às câmeras já em uso, somada ao módulo inédito de transmissão tátil — caminho que dispensaria a substituição dos equipamentos atuais.
“A ideia é somarmos essa tecnologia às bases já adquiridas bem como às novas soluções.”, diz Gerloff, CEO e Head de PD&I da empresa catarinense 321Zero Innovation Lab, que fica em Joinville.
O debate chega à COP International
A discussão ganha vitrine esta semana.
Entre os dias 11 e 13 de agosto, o São Paulo Expo recebe a COP International, maior feira de segurança pública da América Latina, que nesta edição estreia com o DTech — Congresso voltado às tecnologias aplicadas à segurança pública, defesa e gestão governamental.
A programação percorre inteligência artificial, integração de sistemas e parcerias público-privadas, reunindo quem desenvolve, quem fabrica e quem opera na ponta.
Na edição anterior, o evento movimentou mais de R$ 100 milhões em negócios diretos.
O setor chega ao evento diante de um cenário desafiador e várias perguntas, mas uma delas tende a se repetir nos próximos anos: depois de consolidar a câmera corporal como instrumento de registro e transparência, as empresas do setor estarão dispostas a extrair dela uma segunda função — a de proteger também quem a carrega?
