Mármore de apenas 28,5 centímetros permaneceu misturado a fotografias e objetos de família até uma visita inesperada iniciar uma investigação que reconstruiria mais de um século de sua história
Durante anos, uma pequena escultura de mármore permaneceu sobre o piano de uma família francesa, cercada por fotografias e outros objetos pessoais. Os próprios moradores acreditavam que se tratava apenas de uma reprodução, sem imaginar que aquela peça discreta havia passado pelas mãos de colecionadores importantes e estava fora dos registros públicos havia quase 120 anos.
A descoberta começou quando o leiloeiro Aymeric Rouillac visitou uma residência na região de Berry, no centro da França, para examinar outros objetos. Entre tudo o que estava exposto na casa, uma escultura branca de apenas 28,5 centímetros de altura chamou sua atenção.
Meses depois, especialistas chegaram a uma conclusão inesperada: o objeto era um exemplar original de “Le Désespoir”, obra de Auguste Rodin, um dos escultores mais importantes da história da arte. Autenticada pelo Comité Rodin, a peça seria posteriormente vendida por € 860 mil, aproximadamente R$ 5,11 milhões.
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Escultura estava sobre o piano entre fotografias familiares

Segundo informações divulgadas pela casa de leilões Rouillac, a escultura estava em uma residência próxima a Vierzon, no departamento francês de Cher. Aymeric Rouillac havia sido chamado inicialmente para analisar pinturas que poderiam ter relação com Eugène Delacroix.
Foi durante essa visita que ele observou o mármore colocado sobre o piano, em meio a fotografias, flores e outros objetos decorativos. Para a família, aquela pequena figura não era considerada particularmente valiosa.
Os proprietários acreditavam que fosse uma cópia ou até uma falsificação. Dentro da própria família, a obra chegou a receber informalmente outro nome, relacionado à posição da personagem representada na escultura.
Rouillac, porém, percebeu características que justificavam uma investigação mais profunda.
A partir do fim de 2024, sua equipe passou a pesquisar não apenas aspectos físicos da obra, mas também a genealogia dos proprietários e o caminho percorrido pela escultura ao longo das gerações.
Especialistas descobriram que era uma das raras versões em mármore de “Le Désespoir”
A obra mede aproximadamente 28,5 cm de altura, 15 cm de largura e 25 cm de profundidade e possui a assinatura “A. Rodin” em uma das laterais.
O modelo de “Le Désespoir” foi desenvolvido por Rodin por volta de 1890. O exemplar encontrado na residência francesa teria sido produzido entre 1892 e 1893, período em que o artista já alcançava grande reconhecimento.
A composição apresenta uma mulher nua em uma posição curvada e extremamente compacta, segurando o próprio pé. A figura nasceu dentro de um dos projetos mais ambiciosos de Rodin: “La Porte de l’Enfer”, ou “A Porta do Inferno”.
Encomendada pelo Estado francês em 1880 para um futuro Museu de Artes Decorativas que nunca chegou a ser construído, a monumental porta reuniu mais de 200 figuras e grupos escultóricos. Diversas dessas figuras acabariam se tornando obras independentes.
“Le Désespoir” foi uma delas.
Ao longo dos anos, Rodin produziu versões da composição em materiais diferentes, incluindo gesso, bronze, pedra e mármore. O exemplar encontrado sobre o piano foi identificado como apenas a quinta versão conhecida em mármore, característica que ajudou a transformar a descoberta em um acontecimento relevante no mercado internacional de arte.
Peça havia desaparecido dos registros depois de um leilão em 1906

A investigação conseguiu reconstruir parte do percurso da escultura durante mais de um século.
Documentos e registros históricos indicam que a obra esteve ligada ao colecionador e financista francês Alexandre Blanc no fim do século XIX. Há indícios de que ele tenha adquirido ou recebido o mármore por volta de 1892.
Em 1906, a escultura apareceu em um leilão da coleção de Blanc e foi vendida por 4.100 francos franceses, valor histórico que não possui equivalência direta simples com a moeda atual.
Depois disso, a obra passou por negociantes e colecionadores privados antes de chegar à família que acabaria mantendo o objeto dentro de casa.
A partir daquele leilão, entretanto, a peça deixou praticamente de aparecer nos registros conhecidos por especialistas durante quase 120 anos.
Isso não significa que o mármore tivesse ficado fisicamente perdido. Ele permaneceu em propriedades privadas e foi transmitido entre gerações. O que desapareceu foi seu rastro dentro do mercado de arte e da documentação especializada sobre Rodin.
Comité Rodin confirmou autenticidade após meses de investigação
Depois de reunir informações suficientes sobre a procedência da escultura, os responsáveis pela descoberta submeteram a peça ao Comité Rodin, organização formada por especialistas na obra do escultor.
O mármore foi apresentado ao comitê em março de 2025. Aproximadamente um mês e meio depois, veio a confirmação.
O especialista Jérôme Le Blay, responsável pelo Comité Rodin, descreveu a obra como uma peça particularmente importante dentro da série de “Le Désespoir”.
Além da análise física e documental, a escultura recebeu uma identificação destinada ao futuro catálogo crítico da produção escultórica de Auguste Rodin. O exemplar foi registrado sob o número 2025-7373B.
A confirmação eliminou a dúvida que havia acompanhado a família durante anos: o objeto sobre o piano não era uma reprodução. Era um Rodin original.
Disputa no leilão durou mais de 20 minutos

Depois da autenticação, a escultura foi incluída na tradicional Garden Party organizada pela casa Rouillac no Château de Villandry, na França, em 8 de junho de 2025.
O valor estimado antes do leilão estava entre € 500 mil, aproximadamente R$ 2,97 milhões, e € 700 mil, aproximadamente R$ 4,16 milhões.
A disputa, entretanto, ultrapassou as expectativas.
De acordo com a casa de leilões, os lances duraram mais de 20 minutos e envolveram interessados da China, Suíça e Estados Unidos.
Quando o martelo finalmente caiu, o valor havia chegado a € 860 mil, aproximadamente R$ 5,11 milhões.
Com a comissão de 24% cobrada do comprador, o custo total alcançou € 1.066.400, aproximadamente R$ 6,34 milhões.
O comprador foi descrito pela Rouillac como um jovem profissional do setor financeiro da costa oeste dos Estados Unidos.
Objeto considerado comum dentro de casa terminou vendido por mais de R$ 5 milhões
O resultado estabeleceu um recorde de venda para uma versão em mármore de “Le Désespoir”, segundo a casa Rouillac.
Uma peça semelhante havia sido negociada pela Sotheby’s em Nova York em 1990 por US$ 797.500, valor que, em uma conversão atual aproximada, corresponde a cerca de R$ 4,25 milhões.
Décadas depois, o exemplar que permanecera praticamente ignorado dentro de uma residência francesa superou esse patamar.
O caso também mostra como obras importantes podem permanecer durante décadas fora dos grandes arquivos e coleções públicas.
Durante anos, um Rodin original esteve a poucos centímetros de fotografias familiares, tratado como uma simples reprodução decorativa. Foi uma visita motivada por outras obras da casa que colocou fim a quase 120 anos de ausência dos registros públicos.
Aquilo que a família acreditava ser apenas mais um objeto sobre o piano acabou identificado como um dos raros mármores de Auguste Rodin conhecidos e, depois de autenticado, deixou a residência para ser disputado por colecionadores internacionais.
O martelo caiu em € 860 mil, aproximadamente R$ 5,11 milhões, enquanto o valor final pago pelo comprador, já com as taxas, chegou a € 1.066.400, aproximadamente R$ 6,34 milhões.
